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Focus

2007/10/04

Espaço na “Géopolitique”

O “Espaço: rivalidades ou cooperação” é o título de uma edição recente da revista Géopolitique, a revista do Institut Internationational de Géopolitique francês, que vale a pena ler, dada a profundidade como é tratado o tema e os diferentes pontos de vista apresentados sobre os vários players da corrida espacial.

Um primeiro olhar, dos membros e correspondentes internacionais do instituto, vai para a renovada ambição espacial norte-americana, com o recente anúncio do presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, de uma política centrada na conquista territorial do Espaço, nomeadamente, da Lua e de Marte. A Géopolitique refere, a propósito das intenções norte-americanas, que foi “reavivada a esperança na chegada de uma idade de ouro, depois de muito tempo passado”.

Face à ambição norte-americana e às movimentações da Rússia e de outras potências espaciais, como as emergentes China e Índia, Stéphane Janiwchewski, astrofísico do Centre National d’Études Spatiales, refere a necessidade de uma visão clara sobre a política espacial europeia. A Europa, diz o autor, está hoje, em simultâneo, numa posição invejável e frágil. “Invejável porque com um rácio de um para seis no que concerne a investimento público, em relação aos Estados Unidos, a Europa ocupa posições estratégicas chave para rivalizar com o líder mundial em muitos domínios. Frágil porque , por falta de uma ambição e organização adaptadas, a Europa arrisca a qualquer momento uma quebra, nomeadamente tecnológica.

Os olhos da Europa deverão estar postos na China, primeira potência da Ásia, - e também na Índia - que aspira a afirmar-se como “o novo império celeste”, como titula a Géopolitique. Os recentes sucessos chineses no Espaço nos voos tripulados e criação de um sistema autónomo de navegação por satélite dão prova de uma crescente capacidade.

O Japão, por seu lado, encontra-se num momento decisivo de afirmação no domínio Espacial e aposta parece ser claramente numa estratégia de longo prazo que permite afirmar o país, refere num artigo a revista francesa. A agência espacial japonesa elaborou já um plano com vista a uma utilização progressiva pela sociedade das tecnologias espaciais; a um maior conhecimento científico; a dotar o Japão de uma capacidade espacial autónoma e de uma indústria capaz de competir à escala global.

O renascimento de uma “Rússia Espacial”, capaz de ombrear com os Estados Unidos e muito activa nas parcerias com outros países, e no vasto número de apostas em termos de equipamento e missões espaciais, com a liderança nos lançamentos.

Porque hoje o Espaço é uma arena extremamente competitiva, impulsionada pelos objectivos económicos, onde participam de um modo directo e indirecto, mais intenso ou residual, mais de 125 países, os perigos de confronto acentuam-se, de acordo com a Géopolitique. Um conjunto de factores, identificados por Alexandre Medvedtchikov, adjunto do director da agência espacial federal russa, podem contribuir para uma cisão e o fim da cooperação internacional neste domínio pode ter repercussões catastróficas: “o desenvolvimento por certos países de uma concepção das actividades espaciais com o objectivo de obter vantagens geoestratégicas e geopolíticas neste domínio; uma aspiração à conquista da Lua e de Marte de um modo independente; o aparecimento de tecnologias e possibilidades de destruição de engenhos espaciais no Espaço e uma política de auto-isolamento por parte de certos países em tudo o que diz respeito a sistemas espaciais e tecnologias de futuro.

O autor nota que a realização de programas espaciais, como a conquista da Lua ou a Marte, num contexto estritamente nacional é injustificável, por diversos pontos de vista: “do ponto de vista da optimização das despesas, dado que tais missões têm custos enormes para um só país; do acesso de outros países interessados aos resultados das missões e da troca de experiências”.

Medvedtchikov considera que um comportamento individualista apenas pode significar o desejo de obter vantagens políticas, estratégicas e tecnológicas que podem por em causa o equilíbrio entre potencias e culminar num abandono da cooperação, com um retrocesso das conquistas dos últimos anos em termos da abertura entre países neste domínio.