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Espaço: A oportunidade de Portugal
O Espaço surge, na agenda de modernização do País, como um dos sectores mais apetecíveis e mais interessantes para fazer apostas integradas de criação de valor, com a aliança do trabalho de laboratórios, universidades e empresas com perfil exportador na lógica do mercado global. No entanto, o Coordenador do Plano Tecnológico e da Estratégia de Lisboa, Carlos Zorrinho, defende que tem de ser a própria indústria a lutar pelo seu espaço de oportunidade, para depois obter o apoio necessário. Ter na indústria do Espaço uma das indústrias motoras do novo modelo de desenvolvimento do País tem muito que ver com a nossa matriz identitária: sermos sempre um país e um povo que procura novas fronteiras, avança ainda Zorrinho.
De que modo se pode enquadrar a indústria espacial no Plano Tecnológico?
O sector do Espaço é um dos sectores globalmente mais apetecíveis e mais interessantes para fazer apostas integradas de criação de valor em que se junte o trabalho de laboratórios, universidades e empresas com perfil exportador numa lógica de mercado global. De qualquer modo, o Plano Tecnológico não tem como filosofia inventar oportunidades.
Áreas como a do Espaço, são áreas do tipo daquelas que Portugal precisa de desenvolver para se afirmar como uma economia viável à escala global. Se esta, em concreto, será uma delas, depende mais da dinâmica dos agentes do que de uma escolha pública.
O Plano Tecnológico tem por objectivo principal ser uma agenda de modernização para o país, quer para as politicas públicas, quer para a iniciativa privada, e tem de haver e haverá certamente uma sinergia forte entre as políticas públicas e a dinâmica privada para apostar em sectores que permitam criar valor e em que haja uma dimensão de conhecimento.
Tem que ser a dinâmica da sociedade, das empresas e das universidades a gerar essas oportunidades que depois nós apoiaremos, dando condições para se desenvolverem. Por exemplo, as parcerias que estão a ser criadas com universidades internacionais podem ser uma ajuda importante, porque canalizam as empresas nacionais para mercados externos e promovem a imagem de Portugal.
Nós na “espacialnews” temos reflectido um pouco sobre o Plano Tecnológico e parece-nos que ele pode ser observado a partir de 3 condições: na maneira com estabelece ligações com as indústrias de Defesa; na maneira com estabelece ligações com o capital de risco; e na importância que atribui à criação ou desenvolvimento de organismos específicos de inteligência económica. Pode avançar o que está previsto ou a ser feito nestes campos?
São três áreas de grande interesse. Desde logo, o facto de nós termos no Gabinete de Coordenação do Plano Tecnológico a função de coordenação, implica a recolha, o tratamento e a análise de uma base de informação muito forte que é hoje uma um dos grandes instrumentos competitivos dos países. E portanto, temos plena consciência, que do nosso trabalho de coordenação decorre também a recolha e acesso a uma informação que é extremamente importante e que procuraremos usar como suporte para serem dados sinais correctos ao mercado e para informar uma boa gestão das políticas públicas.
A ligação do Plano Tecnológico às indústrias da Defesa tem, uma vez mais, que ver com esta mesma perspectiva. Fundamentalmente, o que o Plano Tecnológico pretende ser é um novo quadro de políticas públicas e de tomada de decisão para a iniciativa privada. Portanto, é uma agenda e não um plano, no sentido estrito.
Dentro desta agenda, as indústrias de Defesa têm um papel fundamental, quer de um modo directo - todos sabemos que as indústrias de Defesa constituíram sempre uma base de desenvolvimento tecnológico que depois se transmite às restantes industrias -, quer do ponto de vista de uma outra área, a gestão de contrapartidas, que tem estado relativamente desguarnecida.
Nesta área, nós temos tido a preocupação não de fazer, porque somos um gabinete de coordenação e não temos de fazer, mas de alertar, designadamente, para uma outra forma mais pro-activa de gestão. Assim, um dos objectivos que temos é focalizar a gestão de contrapartidas de maneira a que possam criar pólos de criatividade em Portugal. Ao invés de uma gestão optimizada, propomos uma gestão focalizada.
E em relação ao capital de risco?
Uma das questões essenciais na filosofia do Plano Tecnológico é que achamos que para um pais ser competitivo tem de investir mais no conhecimento, na tecnologia e na inovação. Isto de alguma maneira tem sido feito em Portugal com resultados de excelência, mas sem que essa excelência se tenha tornado estrutural.
Entendemos que para que isto suceda há 3 dimensões fundamentais: a dimensão da administração pública e do bom funcionamento da mesma; a dimensão da capacidade de trabalhar em rede, cooperar e ir para os mercados internacionais de um modo competitivo; e a dimensão do financiamento. Deste ponto de vista, está a ser preparado um programa, a ser anunciado em breve, que é um programa integrado de financiamento com soluções, quer de mercado, quer de financiamento para as empresas, desde o seu nascimento até à sua expansão internacional, e com produtos concretos cada uma fases de crescimento.
Defendeu recentemente que o país tem de fazer um esforço pro-activo para estar no primeiro pelotão europeu. Considera que a indústria espacial portuguesa dá e tem condições para continuar a dar um impulso neste sentido?
Como sabe, essa é uma área em que existe já um conjunto de ligações muito importantes. Há empresas portuguesas de ponta que estão nesse mercado [da indústria espacial] à escala global. Há investigadores portugueses que dão contributos importantes e, portanto, há ligações feitas. Como sempre, em Portugal e em muitas áreas, o problema é atingir um salto qualitativo, ou seja, passar de uma relação pontual para uma relação estrutural. Essa é uma questão extremamente importante e eu posso dizer que espero que os vários actores e protagonistas deste sectores se possam organizar de modo a beneficiar do quadro favorável que vamos criar para indústrias deste tipo, de modo a consolidarem-se como algo estruturante no nosso tecido industrial e económico. Como digo, a nossa filosofia é criar as condições favoráveis.
A melhoria da nossa competitividade passa por reforçar os sectores onde possamos ter vantagens competitivas. Já estão assinalados alguns sectores que apresentem as condições para irem de encontro a este objectivo?
Como disse há pouco, as escolhas públicas não se substituem às dinâmicas da sociedade. Nós o que vamos ter disponível é um quadro de benefício global e de incentivos globais a sectores que se organizem para competir à escala internacional. Nalgumas áreas de ponta, nomeadamente em termos de tecnologia, nós vamos fazer um esforço acrescido para melhorar a base cientifica e tecnológica associada a esses sectores. Portanto, há sectores em que o enquadramento é global e há sectores que, pelas suas características específicas, têm de ser muito impulsionados por uma base cientifica e tecnológica acrescida. Num e noutro caso, os actores da indústria espacial certamente encontrarão o fato adequado. Também dependerá muito do ponto da cadeia de valor em que essas empresas se queiram situar...
Em Portugal, a “conquista do espaço” começou há cerca de 10 anos com a pioneira Edisoft, que hoje lidera um sector que já integra um bom número de empresas viradas para o mercado global. Como perspectiva, o coordenador do Plano Tecnológico, a evolução destas “tecnológicas”?
Quando vemos o radar daquilo que mexe em Portugal e que tem reconhecimento internacional, surge este tipo de indústria, embora ainda não surja com a dimensão desejada. A questão chave é aproveitar o facto de estar no radar para aumentar o sinal.
Foi apresentada, há uns tempos, a Plataforma para a Inovação, Exportação e Competitividade. A ideia é que sirva para seleccionar as melhores empresas e os melhores projectos. Que papel está reservado às indústrias espaciais nesta plataforma?
A plataforma segue uma filosofia diferente. Nós aliás, neste momento, estamos a trabalhar numa perspectiva de integração de uma plataforma que já existe no IAPMEI, de benchmarking, com as melhores práticas, em parceria com a COTEC e outros parceiros, incluindo uma dimensão inovação, de modo a que as empresas possam fazer auto-avaliação e avaliação comparativa, ao mesmo tempo recolhendo informação útil para a tomada de decisões ao nível dos apoios necessários às empresas.
O que significa que a oportunidade está sobretudo em usar a plataforma para fazer comparação, à escala nacional e internacional, e estabelecer alguns tipos de contactos. A plataforma é uma espécie de espelho condicionado a que as empresas podem perguntar, usando uma analogia à celebre história, se há empresas mais bonitas do que elas e, a haver, o que há a fazer para se tornarem mais bonitas.
Pode-se dizer que há aqui uma mudança das regras do jogo. Se antes as empresas estavam à espera de uma acção directa do Governo e que pelas suas medidas este as impulsionasse, o que se está agora a criar é, no fundo, a estrutura que permitirá ás empresas por si, de forma pro-activa, procurar o seu espaço…
Essa é uma filosofia que ganhou no último Conselho Europeu. É preciso entendermos que o Plano Tecnológico é um pilar da Estratégia de Lisboa, da Agenda de Lisboa em Portugal.
Uma das quatro grandes linhas de mudança diz-nos que o apoio às empresas, nomeadamente às pequenas empresas, terá de ser cada vez menos um apoio no sentido de subsidiar - que muitas vezes distorce a concorrência e evita a dinâmica de inovação necessária, porque, se queremos modernizar o modelo competitivo, temos de ter novas empresa e outras têm de fechar.
Fundamentalmente, é preciso substituir esse tipo de políticas por políticas de criação de um bom ambiente de negócios. Ou seja, há que criar condições para que as empresas saibam o que precisam, onde o podem ir buscar, e para que tenham um bom ambiente concorrencial, com a possibilidade de ter um apoio das universidades e centros de investigação. É importante também que quando precisam de se constituir isso possa ser feito em menos de uma hora.
Temos de conseguir, associado a isto, e esta é outra dimensão muito importante do Plano Tecnológico e da Estratégia de Lisboa, manter níveis de qualificação das pessoas que lhes permitam ter mobilidade. Ou seja, todo este processo de mudança estrutural, entre sectores e tipo de empresas, pode ser feito de dois modos: de um modo estrito, sem preocupações sociais, feito por processos de exclusão dos mais inaptos, ou com uma visão social mais sustentada, através de um acompanhamento, e de um processo de qualificação para que as pessoas tenham mobilidade e possam acompanhar a evolução das próprias empresas.
Portugal é ainda caracterizado como sendo dominado por um tecido industrial frágil e centrado em industrias da primeira metade do século XX. O Plano tecnológico procura justamente alterar esta situação e surge numa altura em que toda esta crise do modelo económico actual pressupõe o aparecimento de novas industrias motoras, de um novo quadro de concorrência e de um novo estatuto das empresas. A exemplo veja-se o caso da “golden-share” da PT.
Num cenário destes, um cenário de mutação, o espaço, as industrias do espaço e as tecnologias conexas estão a afirmar-se, no mundo mais desenvolvido, cada dia mais como estruturantes e modeladoras, quer do tecido económico deste século XXI, como inclusive do nosso quotidiano - vide o caso do GPS.
Parece-lhe que existe da parte dos nossos decisores políticos e económicos uma compreensão clara desta situação? E como equaciona o Plano Tecnológico este problema da função estruturante, motora e modeladora das tecnologias e industrias do espaço?
Em primeiro lugar, nós temos a consciência de que há quatro ou cinco áreas globais - novas tecnologias, ciências da vida, biotecnologias, novas tecnologias de informação e comunicação, ciências do espaço - que são verdadeiramente motores globais, áreas integradoras. Ou seja, de alguma maneira todos os outros sectores convergem para a respostas globais a este nível.
O posicionamento que um país pode ter neste processo é algo que pode ser influenciado pela ambição do discurso público e das políticas, mas é algo que também depende muito da dinâmica do tecido empresarial e industrial.
A questão chave é saber quais serão as três ou quatro áreas que constituem para Portugal indústrias motoras e essa é uma corrida a que já demos o tiro de partida, mas que ainda não terminou. Quem está nela tem de correr, quem chegar em primeiro lugar será apoiado.
No entanto, não podemos considerar tudo de um modo igual, temos de definir as tais três ou quatro áreas chave e essas áreas têm de se revelar pela sua própria dinâmica. Se forem as industrias do espaço, porque não? Esta é uma área interessantíssima e que aliás teria muito que ver com a nossa matriz identitária de sermos sempre um país e um povo que procura novas fronteiras.
No que se refere a Investigação e Desenvolvimento, como analisa a actual situação de Portugal e que passos estão a ser dados no sentido de aproximar o país da meta Europeia de 3% do PIB?
Portugal tem por objectivo até 2010 atingir, não os 3%, mas uma percentagem de 1,8% do PIB. Isto pode parecer pouco, mas repare que muitos dos países que ambicionam chegar a 3% partem de 2,5 ou 2,2% e nós partimos de 0,78, pelo que precisamos de mais que duplicar esta percentagem para atingir o nosso objectivo.
Há duas componentes. Uma sobretudo de vontade politica, que é passar de 0,5 para 1% do PIB o investimento público. Nesse sentido, já foram dados alguns sinais concretos, por exemplo, o Sr. primeiro-ministro já anunciou no próximo Orçamento Geral do Estado um reforço de 250 milhões de euros.
O que é crítico, e será indicador de que tudo o resto está a funcionar bem , é o desempenho da segunda componente: o investimento privado. Queremos quase triplicar o investimento privado de 0,28 para 0,8 %.
A acontecer, isto significaria que as empresas se reposicionaram, porque uma coisa é pagar às empresas para fazer investimento privado e outra é as empresas sentirem necessidade de o fazer. Temos de ter mais empresas a sentir que investigar e criar é um factor competitivo muito importante.
Os instrumentos genéricos estão criados, Portugal repôs o sistema de incentivos ao financiamento da investigação e, por outro lado, vai ser criado um conjunto de parcerias e redes internacionais que tornará muita apetecível a compra de investigação à escala mundial por parte das empresas.
Este é um factor crítico, porque permite criar uma base de criação de valor acrescentado e também é um indicador de que as outras políticas tiveram sucesso. Se as outras políticas tiverem sucesso, a necessidade das empresas investirem em I&D vai também aumentar.
Há que começar com o bom exemplo público criando condições favoráveis a que as empresas possam também beneficiar do seu investimento.
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