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Tendência2008/08/05
Ter ou não ter... um cluster aero-espacial!
“As economias dividem-se entre as que têm um cluster aeronáutico e as que o não têm. É uma condição de afirmação para a modernidade das economias”. Palavras do Primeiro-Ministro, José Sócrates, numa recente entrevista conjunta com o presidente do Brasil, Lula da Silva, ao Jornal de Negócios, a propósito do investimento da Embraer em Évora e do futuro pólo aeronáutico que lá se vai criar. Esta ideia da importância decisiva do sector aero-espacial e da absoluta necessidade de ter uma capacidade instalada no nosso país para que possamos fazer parte do grupo das economias mais avançadas é o programa aqui defendido, desde o primeiro número da Espacialnews. Por isso, registamos com muito agrado as palavras do Primeiro-Ministro. E ainda com mais agrado registamos o facto de Portugal ter agora um PM atento aos desafios que o desenvolvimento nos coloca e ter vontade de lhes dar resposta positiva.
José Sócrates tem absolutamente razão: quem ficar de fora do aero-espacial será inapelavelmente uma economia (e uma sociedade...) atrasada, de carácter terceiro-mundista e periférica. O aero-espacial é um dos sectores industriais (tal como o foi, entre 1945 e 1975, o automóvel) à volta dos quais se organiza o modelo tecnológico, económico e social. Desde a revolução da máquina a vapor e do primeiro caminho de ferro que Portugal (liderado e controlado pelos "velhos do Restelo") escolhe ficar de fora... E depois queixa-se do atraso! Desta vez, esperemos que Sócrates consiga impôr a toda essa velharia que não podemos ficar de fora da revolução do aero-espacial.
A empresa brasileira, a terceira maior construtora mundial de aeronaves, vai instalar em Évora uma unidade para fabricação de estruturas metálicas (asas) e outra para produção de materiais compósitos (caudas), num investimento inicial de 148 milhões de euros que vai gerar cerca de 570 postos de trabalho directos e mais de mil indirectos. José Sócrates considera que este investimento assinala a entrada de Portugal na indústria da aviação comercial. “Há muito que perseguíamos esse objectivo. Ter ou não ter clusters na aeronáutica é da maior importância para a tecnologia de um país, dado que esse cluster, no que diz respeito à engenharia e aos materiais, é absolutamente decisivo para a modernização de uma economia e para a sua afirmação no contexto da economia global”, defende o chefe do Governo.
Este projecto, segundo Sócrates, assinala a entrada “na fabricação de aviões”. “Até aqui, só fazíamos manutenção com a OGMA”, lembra… Mas, o Primeiro-Ministro ambiciona mais e quer que em Portugal se fabrique um avião por inteiro, um passo que também parece estar próximo com o Skylander do grupo francês GECI Internacional. Num investimento de mais de 100 milhões de euros, incluindo a construção de uma fábrica na zona do aeródromo municipal de Évora, a Sky Aircraft Industries prevê produzir 1.100 unidades, entre 2011 e 2027, de uma aeronave que está a ter uma forte aceitação no mercado, com já mais de 400 promessas de compra registadas. O projecto Skylander prevê a criação de 3.000 postos de trabalho altamente qualificados, 900 directos e os restantes indirectos.
Com o investimento da Embraer, da GECI International e continuação do trabalho de manutenção na OGMA e de outras "tecnológicas", além de outros projectos de investimento que possam vir a concretizar-se, Portugal entra, de um modo sustentado, no sector aero-espacial. Empregos qualificados, mais especialização tecnológica, internalização de métodos e tecnologia de ponta, aumento da competitividade, maior valor acrescentado nas exportações, eis o que se ganha com o cluster aero-espacial. Não tê-lo significaria perder tudo isto e sobretudo significaria perder uma oportunidade de entrar, ainda que já tardiamente, num sector onde estão todos os países desenvolvidos e querem entrar todos os que aspiram a sê-lo.
Lula da Silva salienta na entrevista ao Jornal de Negócios que “é importante desenvolver a indústria tecnológica em Portugal e no Brasil, para podermos exportar produtos mais sofisticados”. Hoje, poucos sectores têm o nível de sofisticação do aero-espacial, daí que a resposta à questão “ter ou não ter um cluster aero-espacial”, por todas as razões enumeradas e mais esta, só possa ser uma… Ter!
José Mateus Cavaco Silva
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