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"Integrar a indústria do Espaço é fundamental para um país existir"



PORTUGAL EXPORTADOR DE TECNOLOGIA ESPACIAL

Podemos dizer que o Espaço é uma opção fundamental para as pequenas potências ocuparem determinados nichos tecnológicos muito avançados?

Sim. Não é por acaso que todos os países pequenos que entraram na Agência Espacial Europeia [ESA] – Portugal foi o décimo quinto – começaram por ver as suas empresas de software posicionarem-se muito mais rapidamente que todas as empresas de outras áreas. Isso tem que ver com o facto da indústria de software estar baseada sobretudo nas mentes, um activo não material.

Ao falar de activo imaterial estamos, no fim de contas, a falar de uma indústria típica do século XXI, de uma indústria do novo modelo de economia global. Acha que, com esta aventura começada em Torrejon há 9 anos, se pode falar da quebra de um ciclo vicioso do atraso português em tecnologia?

Eu diria que essa é pelo menos a prova de que com ousadia e com trabalho sério, do ponto de vista da preparação das capacidades e, digamos, do conhecimento, é possível ousar, a partir de um país da Europa do Sul, participar também na aventura do Espaço. A aventura do Espaço é sem dúvida um desafio europeu, no qual Portugal, como parceiro, tem de entrar. É portanto uma oportunidade, das últimas que restam, para que os portugueses afirmem também a sua capacidade.

São essas as Novas Fronteiras?
Sim, claramente. No passado, fomos capazes de ir por esse mundo fora, agora, temos de entrar na aventura do Espaço. Aquilo que a Edisoft fez foi ser pioneira, no sentido de demonstrar que as pequenas empresas de software de um país como o nosso têm um papel a desempenhar. Têm é que encontrar o seu nicho e ser muito sérias, porque, tal como demonstrou a queda do CryoSat, quando se fazem erros paga-se caro. Neste último caso, o erro do software do lançador que determinou a queda do CryoSat e de toda a carga útil do lançador…
Alguma vez a Edisoft teve um erro nessa matéria?

Não… Nunca, nestes nove anos!

Podemos dizer que hoje em dia o novo modelo económico de desenvolvimento global em que vivemos é, cada dia mais, um modelo com grande dependência da informação dos satélite, da informação oriunda do Espaço, que assim se torna o indispensável e omnipresente elemento de ligação na circulação da informação entre nós. Qualquer país que queira estar no núcleo central deste novo modelo económico não pode, portanto, ficar de fora no Espaço. Com esta aventura da Edisoft podemos dizer que Portugal, que era um simples importador de tecnologia, altera a sua posição e é já, de certo modo, exportador de tecnologia?

Começa esse caminho… Eu diria que o problema se coloca até com mais acuidade actualmente pelo seguinte: A Europa tinha um problema para resolver na sua relação com o Espaço, sobretudo porque com a introdução do vector Defesa e Segurança na União Europeia faltava olhar para o Espaço como um instrumento para potenciar e realizar as suas politicas em diversas áreas. Na área da Defesa e Segurança obviamente, mas também na área do Ambiente, por exemplo, e na gestão de outras políticas como a Agricultura, as Pescas, e na monitorização dos oceanos.
A nossa pioneira absoluta da conquista espacial, a Edisoft, entrou há 9 anos no negócio da indústria do Espaço, metendo uma lança em Torrejon, como explica o seu director-geral. Para o eng.º António Rodrigues de Sousa, “nenhum país poderá aspirar a ser minimamente relevante na economia internacional se não desempenhar um papel naquilo que representa claramente um desenvolvimento da sociedade humana, a utilização do espaço. Isto significa que muito do que será a economia do amanhã passa pelo Espaço. Se Portugal quiser ser considerado um país existente tem de estar activo na área de fornecimento e serviços para o Espaço”.

Como é que se deu a entrada da Edisoft no negócio da Indústria do Espaço?

Há 9 anos, a União Europeia Ocidental - a UEO - quis estabelecer um centro de análise de imagens de satélite, em Espanha. Os americanos haviam saído recentemente de Torrejon e era preciso aproveitar aquela base. A União Europeia Ocidental propunha-se instalar lá o seu centro de análise de imagens e, portanto, foi aberto um concurso internacional. Houve então um grupo de empresas de média e pequena dimensão que se propôs bater os grandes “tubarões” da indústria espacial, que na altura também concorriam a esse projecto. Organizámos um consórcio chamado Falcão que concorreu contra esses “tubarões” e ganhou. A Edisoft ficou com a responsabilidade da gestão do projecto de instalação, na área do hardware e do software. Foi a nossa entrada na área do Espaço.

E isso abriu portas?

Abriu… abriu porque ficámos conhecidos no “clube” de fornecedores do espaço, um grupo restrito, quer em termos de produtos, quer em termos de serviços. Ou seja, foi preciso uma referência capitalizável nessa área do Espaço e a nossa referência era muito boa. Fizemos um bom trabalho, o que possibilitou que os intervenientes do “clube”, para todos os projectos em que podiam incluir as nossas capacidades e know-how, nos contactassem para fazermos parte dos seus consórcios.
Na área do espaço, os consórcios são a única maneira de estar. Isto por duas ordens de razões: primeiro, porque nenhuma empresa pode fazer todo o fornecimento, segundo, porque, sendo este um mercado institucional, nenhum país europeu está em condições de lançar sozinho os projectos, ao contrário de países como a Rússia, Japão e Estados Unidos, capazes de lançar projectos autónomos.

Isso dá então à Edisoft um know-how de construção e gestão de parcerias internacionais ao nível europeu?

Já usámos o conhecimento que temos dos diversos sócios para fomentar consórcios em determinados projectos, isso é verdade. Quando os valores dos projectos o permitem, lideramos esses consórcios… Quando os valores são tão elevados que exigem líderes com activos superiores aos nossos, integramos o consórcio.

De qualquer modo, a Edisoft pode construir e gerir parcerias com essas empresas?

É verdade, isso já tem acontecido, o que é um activo claro. Evidentemente, para um país como o nosso, existem áreas em que o acesso é mais fácil do que em outras e a área do software é claramente uma área onde os investimentos para entrar são relativamente mais pequenos e têm rentabilidades mais rápidas do que, por exemplo, no domínio do hardware.

UM MOMENTO ÚNICO PARA SER LÍDER

Hoje, tudo passa pelo espaço, mas as pessoas não têm essa noção, utilizam o espaço sem o saber…

A Agência Espacial Europeia [ESA], curiosamente até há cerca de 2 anos, não podia, por exemplo, fazer projectos na área da Defesa, o que fez com que os maiores países europeus tivessem projectos autónomos que não partilhavam com os outros. Estamos a falar da França, Itália, Alemanha e Espanha, que tinham projectos na área militar que não coordenavam. Os últimos desenvolvimentos europeus vieram alterar esta situação. Um exemplo recente foi o lançamento do Syracuse IIIA, um projecto totalmente francês, mas que vai permitir uma partilha da informação com a Alemanha, em troca de dados de um satélite germânico. Embora cada um dos países ainda determine a área sobre foco do seu satélite conforme os próprios interesses estratégicos, este é um caro avanço.
Isto significa que o momento é único, há uma alteração do paradigma de utilização do espaço por parte dos países europeus. Esta mudança cria oportunidades para empresas de países como Portugal onde, apesar de não existirem recursos nem humanos nem financeiros para fazer as coisas autonomamente, se pode arranjar um lugar em todo este edifício que está a ser construído. Assim haja empresas que não queiram ter mais olhos que barriga.

Em que sentido?

As empresas portuguesas têm de encontrar áreas de nichos, de especialização, e entrar nesse mercado com o fim de serem líderes. Isso significa que os melhores engenheiros devem estar sobre foco, sob o ponto de vista do recrutamento e da preparação para entrar nessas áreas, porque aí vamos realmente ter de ser muito bons para ir de encontro ao Espaço. Tanto mais pelo facto de nas áreas onde trabalhamos existir um know-how que sendo especializado é no entanto fluido, na medida em que está na cabeça sobretudo das pessoas.
Portanto, levanta-se um problema. Claramente esta ilha de conhecimento e de know-how é um paradigma que vai contra o estado geral do país do ponto vista da qualificação média dos portugueses. Este desafio pode ser contudo uma oportunidade, um instrumento, de mudança da imagem do país no exterior.

Com esta aventura de 9 anos da Edisoft no Espaço, Portugal de simples importador deste tipo de tecnologias passou já a exportador?

Digamos que em algumas áreas a Edisoft é já incontornável. Um exemplo, o Galileu. No Galileu, há claramente segmentos onde o nosso conhecimento, o conhecimento dos nossos colaboradores, é incontornável do ponto de vista do projecto. Isto é uma gota de água em todo o projecto, mas não deixa de ser significativo. Soubemos encontrar o nosso espaço, de modo a fazer parte de um pequeníssimo clube de fornecimento de soluções para uma área muito específica. Na área da simulação dentro dos projectos espaciais, por exemplo, existirão quanto muito 15 empresas internacionais europeias que fornecem soluções e nós somos uma incontornável.

Como é que a Edisoft conseguiu alcançar esse estatuto de incontornável?

Nós conseguimo-lo através da definição de medidas e objectivos e, sobretudo, através de um querer lá estar, de ver os passos para lá estar e começar a dá-los. Basicamente escolhemos um projecto que fosse inovador do ponto de vista conceptual. Tratava-se de perceber como é que nós, com a ambição do Homem de fazer pesquisa no espaço profundo, conseguiríamos enviar vários “spacecrafts” e coordená-los para o cumprimento da missão. Nós percepcionámos que aí podíamos usar um novo paradigma da área do “parallel computing” e propusemos um projecto à Agência Espacial Europeia para provar isso. Utilizámos esse projecto para colocar a Edisoft no topo desse novo paradigma, o “parallel computing” adaptado a um problema futuro na área do espaço. Assim, estamos muitos anos à frente das grandes empresas do sector que só mais tarde vão criar esse problema. Isso permitiu-nos também posicionarmo-nos e sermos já uma referência para a Agência Espacial Europeia na área da simulação e um dos líderes europeus.

Mas eu penso saber que há outras áreas em que a Edisoft já faz transferência de tecnologia para países como a França e a Alemanha?

Sim, não propriamente na área do espaço, mas na área aeronáutica. Nós ao integrar, há algum tempo, um projecto cooperativo na área dos helicópteros, porque vínhamos da área da defesa onde os projectos de qualidade e produção de software são bastante exigentes, verificámos que estávamos em melhores condições que os fabricantes de software nessa área. Assim, assumimos responsabilidades de controlo de qualidade que estavam além das nossas expectativas.
De facto, tanto na área de software de controlo de motores, como na área de software do sistema de missão dos helicópteros, fizemos uma aposta extraordinária do ponto de vista da melhoria de qualidade dos sistemas de desenvolvimento de software. Também neste caso, fizemos o trabalho de casa e tínhamos atrás de nós 10 anos de trabalho de desenvolvimento de software. Pudemos então fazer a passagem da área puramente militar para a área civil. Este é um dos pilares da nossa estratégia, utilizar referências na área militar para depois atacar a área civil com vista à utilização do mesmo processo. Falamos do conceito “tecnologias de duplo uso”.

SISTEMA EUROPEU MADE BY EDISOFT

Referiu já que, nesta matéria, estamos a falar de competências muito acima das competências médias do tecido industrial português… Não é fácil convencer, não direi só o português comum, mas os próprios decisores de que nós temos capacidade e competências para competir na área mais avançada da tecnologia. Tem encontrado muitas dificuldades?

Começa por haver a descrença… As pessoas convencem-se depois quando as coisas se realizam e nós temos tido a felicidade de ao longo dos anos termos realizado e, portanto, termos provado que as palavras não são vãs e que se olharem para as referências e currículo da Edisoft vêem que realizámos dezenas de projectos que à partida pareciam impossíveis. Temos, por isso, a autoridade moral para dizer que é possível. Não falamos por falar, mas antes porque fizemos.
Um exemplo, há cerca de quatro anos apareceu um concurso internacional na sequência do acidente navio petroleiro “Prestige”. Nessa altura, a Europa percebeu que era preciso encarar esse problema do ponto de vista europeu e lançou um concurso relacionado com as comunicações de emergência e os sistemas de informação associados a esses momentos de catástrofe. A Edisoft, contra as expectativas de todos os intervenientes nessa área de negócio, ganhou o concurso, derrotando inclusive as grandes empresas. Esse projecto avançou e está já em funcionamento, passámos à fase operacional.

Quer dizer, neste momento as comunicações de emergência da Europa funcionam com tecnologia Edisoft?

Exactamente. Com tecnologia concebida, realizada, implementa e neste momento suportada pela Edisoft, porque posteriormente houve um concurso para suporte ao sistema que ganhámos também.

Da parte dos decisores políticos, em geral, tem encontrado compreensão?

A certa altura a Edisoft ganhou também um projecto relacionado com a definição do sistema de apoio ao Sistema Nacional de Gestão de Crises. Nós fizemos o projecto e depois era necessária uma decisão para a implementação. Dado que nos últimos quatro anos tivemos quatro governos, essa decisão não foi tomada. Felizmente, ganhámos entretanto o projecto europeu, o que possibilitou demonstrar primeiro na Europa as nossas ideias. Neste caso houve um ganho para Portugal porque essa experiência pode com grande vantagem ser utilizada para implementarmos o projecto português.

Há ainda um défice em Portugal, em termos de consciência, da necessidade de apostar mais na tecnologia?

Eu julgo que o plano tecnológico do governo é uma tentativa de inversão desse conceito. Mas, existe uma quantidade de situações que são completamente incompreensíveis. Não se percebe como é que não há visão de que o futuro se constrói hoje. Ou seja, não é com indecisões ou atitudes, que de certo modo mostram uma incapacidade de acreditar na nossa engenharia e nas nossas soluções, que se vai lá. Tem de se acreditar, que somos capazes, ainda mais porque temos um historial de conquistas. Nós fomos capazes de fazer. Claramente o país está a mudar de paradigma, está a acreditar e portanto julgo que vamos dar a volta, mas não podemos voltar a falhar.

Considera que esta conquista do espaço por parte da Edisoft pode abrir também um novo espaço a Portugal na economia mundial?

A Edisoft representa o simbolismo do ser capaz... De realizar. Fica provado que é possível… Agora, teriam de aparecer dezenas de “Edisofts” para dar a volta à economia portuguesa.

FALTA UMA ENTIDADE...

Acha que o Espaço deveria ser uma prioridade europeia?

Sem dúvida. Aliás, será impossível à Europa ser um actor credível sem ter uma autonomia em relação à utilização do espaço como instrumento para cumprir as suas políticas nas áreas da Defesa, Segurança e Ambiente.

Nesse esforço europeu, Portugal é já uma certeza?

Portugal já tem empresas que de alguma forma participam nesse esforço, e portanto eu acredito que o papel de Portugal tem sido um êxito. Nós gostaríamos, obviamente, de ter mais empresas presentes, não só na área do software. Já existe no nosso país um Plano Estratégico 2003-2008 que de algum modo mostra como é que Portugal se deve posicionar na área do espaço. Falta, no entanto, uma entidade que determine quais são as prioridades do ponto de vista nacional.
Nenhum país poderá aspirar a ser minimamente relevante na economia internacional se não desempenhar um papel naquilo que representa claramente o desenvolvimento da sociedade humana, a utilização do espaço como vector de avançado do ponto de vista da ambição do homem para sair do constrangimento Terra. Isto significa que muito do que será a economia do amanhã passa pelo Espaço. Se Portugal quiser ser considerado um país existente tem de estar activo na área de fornecimento e serviços para o Espaço.