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Entrevista

2009/02/03

Carlos Zorrinho, Coordenador da Estratégia de Lisboa e do Plano Tecnológico

A fórmula do sucesso é "Pensar global e agir global"

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Neste tempo em que um mundo transformado em campo de ruínas pela crise global inviabiliza o curso normal das exportações, Portugal precisa de compensar esse exportar menos com um exportar melhor. E isso é exportar produtos com maior valor incorporado e se colocar melhor na cadeia de valor. Para tal, é imprescindível ter aquilo em que já fomos líderes mundiais mas que não temos tido desde há 5 séculos: Inteligência Competitiva e um Estado inteligente... O que implica também dominar e desenvolver as tecnologias de ponta. A EspacialNews foi ouvir, sobre estas matérias, o coordenador do Plano Tecnológico, Carlos Zorrinho.


Que funções insubstituíveis e decisivas lhe parecem ser, nestes tempos de crise global, as do “cluster aeroespacial” e das Tecnologias de Defesa e Segurança, em Portugal?

A percepção de segurança e as condições objectivas para a garantir são cada vez mais um factor competitivo determinante para os territórios e para o desenvolvimento dos negócios, para além de serem uma componente essencial do bem-estar dos cidadãos.

Portugal tem uma grande oportunidade para o desenvolvimento de soluções de defesa e segurança aplicáveis no País e escaláveis como produtos de exportação. Temos aliás bons exemplos de sucesso nesse domínio.

Gostaria por isso de ter visto uma candidatura do sector ao recente concurso para o reconhecimento e apoio a estruturas de eficiência colectiva. Sabendo no entanto que se trata dum “cluster” transversal acredito que as suas actividades se poderão desenvolver no quadro dos pólos de competitividade correlacionados, dando posteriormente origem a uma candidatura autónoma.

No actual quadro de crise económica que desafios se colocam à Inovação e ao desenvolvimento tecnológico do país?

Com o Plano Tecnológico, Portugal já tinha colocado o conhecimento, a tecnologia e a inovação no centro da sua estratégia competitiva. O Plano Tecnológico tornou-se uma agenda de toda a sociedade portuguesa e começou a ter impactos mensuráveis nos indicadores de potencial da nossa economia. Por isso o desafio agora é fazer acontecer. Resistir ao “tsunami” para no momento seguinte extrairmos toda a vantagem do capital social que temos vindo a cumular nos últimos anos.

Existe já em Portugal um trabalho consistente ao nível de clusters tecnológicos, nomeadamente no que se refere aos Parques de Ciência e Tecnologia. Que importância têm estas infra-estruturas para o desenvolvimento do país?

Como referi anteriormente a dimensão competitiva e as redes de cooperação são factores chave para o posicionamento da nossa economia. Os Parques de Ciência e Tecnologia são importantes agregadores de actores e geradores de músculo competitivo e de eficiência colectiva. A eficiência colectiva e as redes podem também ser desenvolvidas num contexto de não concentração espacial. É essa a aposta que estamos a fazer no desenvolvimento dos Pólos de Competitividade e dos Clusters Sectoriais.

Vamos exportar menos, nos próximos anos. É um dado adquirido. Resta, portanto exportar melhor, exportar com mais valor incorporado e melhorar bastante a posição na cadeia de valor…Isto coloca um desafio ainda maior e a exigir mais ao “Plano Tecnológico” e ao seu coordenador...

Antes de mais devemos ter cuidado com os designados “dados adquiridos”. Eu não dou como adquirido nenhum cenário favorável ou desfavorável quando usamos uma projecção temporal alargada. Adquirido é que Portugal para ser competitivo à escala global tem que continuar a reforçar a qualificação das pessoas, das empresas e do território e sobretudo, tem que reforçar muito as redes internas de cooperação e a sua inserção nas cadeias de valor globais.

Num quadro económico volátil e complexo, não há boas oportunidades para o que é descartável. Corremos o risco de nalguns sectores sermos descartáveis pela dimensão e noutros pela não diferenciação. Evitá-lo é um grande desafio, não apenas para o Coordenador do Plano Tecnológico, mas para todos os portugueses.

Recentemente numa conferência afirmou que “ temos de apostar no conhecimento, na tecnologia e inovação, que são uma espécie de senhas que admitem-nos a ir a jogo, mas não basta, a verdadeira diferença está na atitude e cultura empreendedora”. O que falta Portugal para que essa atitude e cultura seja uma prática corrente?

Confrontamo-nos neste domínio com dois sinais contraditórios. A sociedade portuguesa é pouco empreendedora e muito adaptativa. Por isso a estratégia que temos posto em prática tem sido, por um lado, capacitar mais os portugueses para empreenderem, e por outro, evidenciar os bons resultados conseguidos por muitos empreendedores nacionais para criar um efeito de contaminação. Os recentes indicadores de inovação evidenciados pelo European Innovation Scoreboard (EIS 2008), que colocam Portugal como o 5º País com maiores progressos relativos em inovação científica e empresarial e a convergir fortemente com a média Europeia nos dois domínios, são um sinal que a estratégia está a resultar.

2009 é o Ano Europeu da Criatividade e Inovação e é ano de Eleições em Portugal. A propósito das autárquicas, defendeu o voto nas agendas autárquicas mais inovadoras e criativas, independentemente dos partidos políticos, e incentivou os municípios a debaterem a forma como a criatividade e a inovação podem mudas as suas agendas. Que vantagens tem essa orientação das agendas políticas?

Terminou o tempo em que a fórmula do sucesso era pensar global e agir local. Hoje para ser possível o desenvolvimento local sustentável é fundamental pensar global e agir global. Por isso uma agenda local com sucesso tem que ser diferenciada e capaz de ter visibilidade e reconhecimento para além das suas fronteiras territoriais. As pessoas qualificadas e as empresas inovadoras procuram hoje localizações que lhe concedam sentido de pertença ao território e respostas de proximidade ao mesmo tempo que lhe facilitam a conexão com o mundo. Quem tiver essas agendas terá mais condições para promover o desenvolvimento económico e social e a qualidade ambiental. Em suma, proporcionará mais oportunidades e melhor qualidade de vida às suas populações.


José Mateus Cavaco Silva & André Gonçalves Nunes