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Entrevista

2009/06/25

Logica quer criar cluster aeroespacial



A Logica Iberia é o alicerce da estratégia de reforço no sector aeroespacial que a multinacional Logica está apostada em desenvolver. José Carlos Gonçalves, o CEO da Logica Iberia, em exclusivo à EspacialNews, fala da aposta do grupo e revela a intenção de criar, no nosso país, uma fileira industrial baseada em serviços aeroespaciais, com dimensão global e participação local de outras empresas portuguesas.
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A Espacialnews sabe que a Logica reforçou a aposta no sector aeroespacial, nomeadamente em alguns projectos espaciais em que Portugal está envolvido. Quais os motivos desta aposta?

A Logica está a responder a um concurso da ESA [Agência Espacial Europeia] relativo ao Galileo que já vai entrar numa fase final. A Logica montou uma proposta de prestação de serviços à ESA, tendo em atenção as partes locais. Ou seja, ao contrário do que tem sido habitual até agora, em que existem essencialmente dois países que têm a “fatia do leão” do desenvolvimento do Galileo – a França e a Alemanha –, a Logica montou toda uma nova proposta um pouco diferente do habitual, em que vai buscar não só os países envolvidos e as nossas operações nesses países, mas também as operações dos países mais pequenos em que o Grupo está presente, mas que também contribuem para a ESA e, consequentemente, para o Galileo.

Esta é uma forma de nós, em Portugal, podermos ir buscar para o país o retorno daquele que é o contributo nacional no âmbito dos acordos europeus e podermos também criar uma fileira industrial de know-how à volta do Galileo que irá permitir, mais tarde, a criação de outro tipo de serviços, nomeadamente quando o sistema de navegação por satélite europeu estiver activo no mercado.

O nosso objectivo passa, verdadeiramente, por criar uma fileira industrial em Portugal à volta dos serviços aeroespaciais. Numa segunda fase, queremos também ganhar know-how para podermos depois desenvolver produtos e serviços de valor acrescentado nessa área. Mas para já, o primeiro objectivo é prestar serviços no âmbito da proposta global da Logica à ESA, um pouco por toda a Europa e, em particular, em Portugal, onde temos dado uma contribuição muito importante para este projecto.

Que contribuição tem sido dada pela Logica Iberia?

Todo o Grupo Lógica, nos diferentes países, está a contribuir para a ESA, mas logo a seguir aqueles que são os maiores contribuintes – nomeadamente Inglaterra, Holanda, Alemanha e França, países onde a Lógica terá uma contribuição muito importante –, é em Portugal que temos uma maior contribuição. Na realidade, a contribuição da Logica Iberia é muito maior que a contribuição do Governo português para o consórcio da ESA, do ponto de vista percentual.

Isto permite-nos, como disse, trazer os fundos que Portugal tem colocado à disposição da ESA de volta para o País, criando uma fileira industrial. E isto é talvez o mais importante, pois vai dar uma perspectiva de longo prazo.

Significa também a criação de emprego qualificado?

Exactamente… Se ganharmos – obviamente, estamos ainda, neste momento, em fase de short list –, isto irá permitir criar emprego, porque uma das regras do caderno de encargos é que 40 por cento do trabalho tem que ser subcontratado localmente. Ora, isso obriga a criar relações com empresas locais com know-how para, conjuntamente, apresentarmos propostas à ESA.

Isto não quer dizer que não estejamos todos, neste momento, em vários consórcios possíveis (e efectivamente existe essa situação), mas as regras do concurso são muito claras: obrigam a que 40 por cento da subcontratação seja feita localmente. E, portanto, nós também o iremos fazer.

Esse modelo poderá, inclusive, proporcionar a hipótese de criação de um forte cluster na área do aeroespacial em Portugal, até porque as perspectivas em torno do Galileo são enormes, em termos de potencialidade de serviços de valor acrescentado que resultam da implementação do sistema. Houve já, da parte do Governo, em particular da parte do Primeiro-Ministro, uma manifesta intenção de ser criado este tipo de clusters. Como é que a Logica vê esta ideia?

A Logica é uma empresa que, apesar de ser uma multinacional, é uma empresa local. Portanto, todas as iniciativas que permitam o desenvolvimento e criação de valor e de emprego localmente são óptimas.

Primeiro que tudo, nós estaremos sempre a dar suporte a uma ideia que o Governo português queira implementar nesse sentido. Essa é a nossa ideia e, já nesse sentido, inaugurámos, em Abril, o nosso Centro de Competências na área das Utilities. Ora, o nosso posicionamento é também muito similar neste caso: queremos participar, queremos criar e fazer parte desse cluster e queremos aproveitar esse cluster para criar serviços, não só para serem usados em Portugal, mas, principalmente, para serem exportados.

Acho que há actualmente uma oportunidade de ouro para o pais neste sector e, obviamente, o Governo português vai-se envolver muito nas decisões finais da ESA e vai, seguramente, defender os interesses do país, para que venha para Portugal uma grande parte daquilo que vai investir.

Quando falamos no Galileo, falamos de uma ligação muito forte na área dos transportes que, neste momento, em Portugal, está a sofrer uma revolução enorme, com todos os projectos que existem (comboio de alta velocidade, novo aeroporto, auto-estradas). E é preciso não esquecer também os anúncios que o Governo fez recentemente sobre as redes de nova geração, onde os serviços do Galileo serão embebidos. Há aqui uma lógica que se pode criar e que, obviamente, é uma lógica que transcende Portugal. Este cluster, a ser criado, tem que o ser com o objectivo da exportação.

Ao ouvi-lo, parece-me clara uma coisa: a Logica Iberia rompe aí com aquilo que costuma ser o posicionamento tradicional das empresas portuguesas, em dois pontos: primeiro, pensa em produtos para o mercado global sem se limitar ao País; ao mesmo tempo, procura situar-se alto na cadeia de valor, enquanto, normalmente, as empresas portuguesas estão muito por baixo na cadeia de valor e não estão muito preocupadas com aquilo que o mercado global quer, mas com pequenas oportunidades. Essa filosofia empresarial inovadora é da Logica como grupo multinacional ou é da “sua” Logica Iberia?

É uma pergunta difícil… Primeiro, em relação aos dois pontos que referiu, nós entendemos que o momento actual, com as tecnologias que estão a ser colocadas à disposição, com as infra-estruturas de comunicação e de desenvolvimento que podem ser colocadas em qualquer local do mundo, é o ideal para um pequeno país ser maior. Ou seja, não é necessariamente o tamanho, o número de cidadãos e do mercado local que é o factor decisivo; é a possibilidade de fazer mais, porque as tecnologias nos permitem fazer mais e ir mais longe, às vezes sem termos que nos deslocar até lá.

Dou-lhe um exemplo. Neste momento, nós damos o suporte a toda a Johnson & Johnson europeia sem termos que ir aos escritórios da Johnson & Johnson. Fazemo-lo a partir de Portugal para todos os escritórios do grupo.

A Logica tem uma estratégia que passa por estar muito perto localmente. Ou seja, existe uma autonomia bastante razoável e depois uma coordenação global. Isto permite-nos ter ambientes muito diferentes de Logica para Logica. A nossa estratégia local é bastante simples: além de querermos dar ao mercado português tudo o que a Logica possa ter feito noutros países, queremos ser um alicerce da Logica global, a partir de Portugal, o que nos permitirá estar, por muitos anos, a trabalhar por intermédio do canal Logica para clientes noutras partes do mundo.

Fazer parte de um grupo como a Logica dá-nos o canal, dá-nos a relação com vários mercados. Temos é que ter os produtos e os serviços para esse canal ser capaz de vencer. É isso que estamos a fazer. Estamos a criar um canal dentro da Logica que permita às outras empresas do grupo dizer que em Portugal temos know-how especializado, “state-of-the-art”, e que pode ser usado noutros países. E é por isso que o know-how não pode ser de baixo valor acrescentado, tem que ser de alto valor acrescentado, caso contrário somos iguais aos indianos, marroquinos… E esse não é o nosso papel.

A Logica Iberia inaugurou em Abril, com a presença do Primeiro-Ministro, o novo Centro de Competências na área das Utilities e, que é, aliás, uma área estratégica em todo o mundo e que está a sofrer uma forte revolução tecnológica em Portugal. Sabendo que este Centro não se destina exclusivamente ao mercado nacional, pelo contrário tem uma perspectiva de internacionalização, que impacto pode ter a criação deste centro pioneiro no posicionamento de Portugal nesta área estratégica das utilities?

O Centro, por si, já está a trabalhar em vários sectores inovadores. Temos um investimento grande feito a nível do que chamamos as smart grids no consórcio que temos com a EDP, o InovGrid, e que tem sido um dos projectos pioneiros na Europa, nesta área.

As smart grids vão ser a mudança de paradigma, um pouco à semelhança de quando apareceu o telemóvel, face às comunicações fixas. Vai mudar a rede de distribuição. E, ao mudar a rede de distribuição, vão surgir novos serviços, novas possibilidades de trabalho em cima de uma rede de distribuição eléctrica. Por outro lado, também desenvolvemos sistemas de controlo de parques de renováveis que operam a nível global. Ou seja, somos capazes de controlar com o nosso software parques, em real time, que estejam a trabalhar, por exemplo, em toda a Europa, sem precisarmos de ter estruturas adicionais locais, a não ser para manutenção desses parques.

Essa é uma grande vantagem competitiva. Que oportunidades tem criado essa capacidade?

Os nossos clientes têm aproveitado muito esta possibilidade, fazendo investimentos um pouco por todo o mundo e ligando essas estruturas aos centros de controlo que nós lhes montámos. Esta tecnologia desenvolvida em Portugal está, neste momento, a ser vendida em vários sítios do mundo. E, portanto, estamos a falar da criação de valor.

Ainda recentemente esteve cá propositadamente uma das principais utilities australiana, no quadro do consórcio do InovGrids. Estiveram cá no Centro de Competências a ver o que nós fazemos, e ver a forma como nós trabalhamos, com uma visão global, para o mundo das utilities. E saíram muito entusiasmados com o que viram.

Esta é a nossa forma de trabalhar, apresentamos conhecimento e prática – não meros “powerpoints”, mas sim coisa que funcionam. E isso sim demonstra que há valor. As intenções são muito bonitas, mas nós não vivemos de intenções, vivemos do trabalho. E o trabalho faz-se, não se diz que se faz. Faz-se, mesmo!

José Mateus e André Nunes