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Tendência2009/09/10
Por ares nunca dantes “navegados”Portugal perdeu há 300 anos a oportunidade de liderar a aeronáutica quando o jovem padre português Bartolomeu de Gusmão apresentou na corte, perante D. João V, o primeiro balão da história da humanidade, a famosa Passarola, a 08 de Agosto de 1709. Hoje, o berço da dos “instrumentos para voar”, o país do inventor da aeronáutica continua sem saber fabricar aviões.
Bartolomeu de Gusmão queria fabricar esses instrumentos para poder voar, mas D. João V, que até tinha estimulado a invenção e acedido em vê-la, mais que uma vez, não quis ou soube ultrapassar os obstáculos que a Santa Inquisição lhe levantou e aproveitar a oportunidade. A verdade é que três séculos depois, no país onde foi inventado o “andar pelo ar”, nada se avançou no domínio da construção aeronáutica.
O inventor sofreu os mais rudes e soezes ataques pessoais e, apesar de ser padre, foi até acusado pelos inquisidores e outros fundamentalistas católicos, da corte lisboeta, de ser “impuro de sangue”, dado ter “suspeitos ancestrais”, e, eventualmente, ser “mameluco por via materna com o elemento nativo tupi", portanto, "um híbrido”, como sublinha o historiador Joaquim Fernandes. Mas se o inventor não apresentava garantias de "pureza de sangue" e era, provavelmente, "um híbrido", ou seja, um suspeito de onde não podia vir nada de bom e conforme às leis e códigos da Santa Inquisição, também a Passarola era coisa muito suspeita... O facto de conseguir voar não sendo “ave nem anjo” era manifestamente obra do diabo, uma coisa que a católica majestade de D. João V não podia, obviamente, aceitar que existisse. Muito menos podia permitir ou viabilizar.
De nada serviram os memorandos de Bartolomeu de Gusmão, para o Rei, em que ele sublinhava as vantagens estratégicas do seu invento e as formidáveis oportunidades que oferecia, "para andar pelo ar da mesma sorte que pela terra e pelo mar", tanto para as comunicações, como para a guerra e o comércio.
Bartolomeu de Gusmão bem sublinhava a criação de um instrumento que permitisse "mandar avisos a territórios longínquos, transportar produtos ultramarinos, socorrer praças sitiadas, descobrir as regiões próximas dos pólos e resolver o problema das longitudes".
Mas nem o apoio do duque do Cadaval e do Marquês de Fontes, que tinham a ambição de poder um dia usar o “estupendo arbítrio que em 8 dias poderia mandar avisos ao Brasil, em poucos dias mais à Índia, em três dias a Roma e em uma hora às fronteiras do Reino”, o ajudaram a fazer vingar o seu projecto junto de um rei fraco e, sobretudo, de uma corte de mentalidade fundamentalista e retrógrada (aliás, ainda hoje presente naqueles que têm sempre dificuldade em perceber e apoiar a inovação tecnológica e se esforçam por a impedir).
A Inquisição não o deixou voar – gerando alarme teológico na corte em torno do “diabólico artefacto” –, e mais tarde dela teve mesmo que fugir, morrendo em Espanha, com 39 anos.
O "padre voador" inventou os aeróstatos de ar quente e, apesar de elementar, o lançamento da Passarola marcou a primeira ascensão de um objecto mais pesado do que o ar e precedeu em quase um século o primeiro voo em balão tripulado pelos franceses Pilâtre de Rozier e marquês de Arlandes.
Feita em arames, papel grosso e madeira fina, a Passarola usava o fogo para ascender, inspirado na elevação de uma bola de sabão por efeito de uma fonte de calor, segundo o físico e poeta Rómulo de Carvalho, no livro "História dos Balões". A Passarola nunca correspondeu, no entanto, ao desenho conhecido, capaz de acolher um homem no seu interior, com asas e bico, que servia apenas para enganar os curiosos com um embuste que dava a entender que o mecanismo de voo se baseava no magnetismo e não no princípio de Arquimedes seguido pelo inventor. Bartolomeu de Gusmão, até na gestão de informação e uso do sigilo, retomava os princípios e métodos do grande rei da estratégia que foi o senhor D.João II, talvez o primeiro europeu a conceber, montar e utilizar um verdadeiro dispositivo de inteligência estratégica e gestão da informação.
A Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra guarda um manifesto de Bartolomeu sobre o invento, tal como uma cópia da petição que dirigiu a D. João V para lhe ser concedido o privilégio de só ele poder "fabricar instrumentos para voar".
Pena é que na altura o Império não tenha sabido perceber a oportunidade de ouro que a invenção de Gusmão lhe abria, tal como desde então o país deixou escapar oportunidades de pôr no ar o primeiro avião português.
Pioneiro da conquista dos mares nunca dantes navegados, Portugal quedou-se por ser berço da aeronáutica, sem glória, nem proveito. Resta a História e os ares nunca dantes “navegados”… Resta que talvez Gusmão, no meio do seu drama inquisitorial e olhando a sua Passarola, se tenha recordado de outro que esteve nas mesmas condições e murmurado baixinho: "E, no entanto, ela voa..."
JMCS
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