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“O Espaço é o catalizador da
inovação e da competitividade”
Economista, professor universitário de mestrados na área da Gestão e Economia Internacional, André Magrinho desempenha funções de assessoria da Presidência da Associação Industrial Portuguesa (AIP), desde há 20 anos. Entre Novembro 1995 e Abril 2000, desempenhou as funções de Assessor para o Comércio, Indústria e Turismo do Gabinete do Primeiro Ministro. Especializado em inteligência económica e estratégica (IEE), André Magrinho termina o seu doutoramento sobre a aplicação da IEE às Organizações. O primeiro em Portugal sobre IEE… Em entrevista à EspacialNews, o Dr. Magrinho fala da importância estratégica do Espaço como “elemento catalisador da inovação e da competitividade”, e explica porque é preciso criar em Portugal um pólo de competitividade em torno da aeronáutica. O projecto Skylander, o primeiro avião português, é a “melhor porta de entrada neste sector”, conclui.
A inovação e a competitividade são factores críticos ao sucesso dos países e à sua viabilidade e o Espaço é hoje o sector por excelência onde, em simultâneo, se conjugam inovação e uma enorme competitividade. Em Portugal, este sector é dos mais dinâmicos, é inovador por excelência e o mais competitivo e ocupa já uma posição estratégica em termos de tecnologia, economia, defesa e emprego qualificado. Como vê este papel do Espaço, como fonte de progresso e de sucesso tecnológico e comercial?
Não poderia estar mais de acordo com os pressupostos da sua pergunta. De facto, o Espaço afirma-se nas economias mais desenvolvidas como um elemento catalisador da inovação e da competitividade, o que também é cada vez mais verdade para Portugal. Podemos considerar que em torno do Espaço se desenvolve um processo de clusterização de tecnologias, onde inclusivamente se assiste a um cruzamento e fertilização entre tecnologias emergentes e tecnologias já estabelecidas, mediante a sua aplicação aos mais diversos sectores. Veja-se, por exemplo, a exploração intensiva do “ciberespaço” como novo espaço transaccional, de informação e entretenimento, o desenvolvimento das comunicações “wireless” em banda larga e o desenvolvimento da fotónica como tecnologia central das comunicações por cabo.
As tecnologias espaciais estão presentes, cada vez mais, em todos os domínios da vida económica, social e cultural, caso das aplicações dos satélites, instrumentos de uso diário em muitos sectores. O investimento no Espaço é hoje uma condição, como já o foram outros sectores no passado, para que os países estejam na primeira linha da inovação e é um sinal da capacidade de competir no mercado global. Que possibilidades tem Portugal neste sector?
Não tenho dúvidas que, se Portugal quiser ter um lugar no pelotão da frente do ranking das economias mais dinâmicas e desenvolvidas, tem que se afirmar competitivamente neste sector. Uma visão estratégica para Portugal não pode deixar de integrar o investimento no Espaço como uma dimensão relevante, diria mesmo incontornável. Naturalmente que Portugal não só tem possibilidades como já tem uma base instalada, ainda que aquém do que seria desejável. Não deixa, no entanto, de ser um bom ponto de partida. Conjugando boas políticas públicas e estratégias empresariais inteligentes é possível explorar com maior profundidade o potencial do Espaço.
Existem já algumas empresas portuguesas com um papel activo na indústria tecnológica e espacial. Como vê esta evolução e qual a importância desta aposta?
É uma aposta decisiva, em relação à qual se verificam desenvolvimentos muito interessantes e significativos, porventura com um alcance estratégico que supera a sua dimensão económica actual, expressa em termos de Produto Interno Bruto (PIB). Existe efectivamente um conjunto de empresas portuguesas, que se estão a afirmar no mercado global, fornecendo clientes dos mais exigentes à escala internacional, onde o fio condutor é o Espaço. Isso é tanto mais importante quanto é sabido que actuam em sectores onde a generalidade dos estudos e prospectivas aponta para que sejam dos mais dinâmicos em matéria de mercados internacionais.
Considera que há um entendimento, por parte dos decisores políticos, do interesse estratégico do Espaço?
Creio que a “cultura” do plano tecnológico, bandeira do actual governo, favorece claramente esta percepção, embora entenda que ela deva ser mais explícita. As políticas públicas devem dar sinais muito claros quanto ao interesse estratégico do Espaço. Sobretudo, é importante existir proactividade e que ela seja entendida pelas empresas que se posicionam nesta área. Por exemplo seria importante dar mais atenção à “economia da defesa”, porque em torno desta podem gerar-se dinâmicas muito importantes e que têm o Espaço como fio condutor.
No dominio tecnológico, Portugal foi escolhido pela GECI Internacional, para acolher o Skylander, o primeiro avião português. O que pensa desta entrada no sector aeroespacial e que vantagens pode trazer para o país, nomeadamente, que impacto pode ter na competitividade?
Vamos por partes. Primeiro, é indispensável para Portugal, criar um pólo de competitividade em torno da aeronáutica e é sabido que existem condições para isso. Segundo, o Skylander é um turbopropulsor não pressurizado, com características de versatilidade, enquanto avião multitarefas – passageiros, carga, transportador de água para combate a incêndios, por um lado, e pelas suas características tecnológicas, nomeadamente em matéria de economia de consumo, o que actualmente é muito importante e continuará sem qualquer dúvida a ser, por outro lado, constitui a melhor “porta de entrada”, a sério, para Portugal, neste sector. Acresce que o Skylander se dirige a um nicho de mercado dos mais dinâmicos à escala internacional, onde a generalidade dos operadores vão ter que fazer uma renovação profunda das suas frotas nos próximos anos.
Com a aposta que faz no tecido industrial português, este projecto pode servir para revitalizá-lo e, em particular, permitir recuperar o sector automóvel, bastante fragilizado nos últimos anos. Neste momento, este é um dos projectos que fazia falta ao país?
Como lhe acabei de referir, este é, do meu ponto de vista, o projecto aeronáutico que Portugal deve abraçar, não só pelas razões que já apontei, mas também porque se trata de um avião que proporciona um elevado nível de transferência de tecnologia e valor acrescentado nacional. Veja-se que apesar da sua simplicidade conceptual o Skylander integra elementos de alta tecnologia, nomeadamente materiais compósitos ao nível das suas estruturas, como é o caso da fuselagem. É um avião que vai ser desenhado, desenvolvido e comercializado a partir de Portugal e com uma grande participação da engenharia e de fornecedores portugueses. Refira-se que muitos destes fornecedores são os mesmos do cluster automóvel, o qual também necessita de ser revitalizado, como aliás está implícito na pergunta que me coloca e com que estou em total acordo. Diria que o cluster automóvel e o aeronáutico se potenciam mutuamente, e que sem este o cluster automóvel tende a fragilizar-se, como aliás já acontece. Também, tanto quanto sei, existem contactos por parte de outras empresas aeronáuticas, para além da GECI Internacional que vai produzir o Skylander, que já fizeram abordagens quanto a uma eventual instalação em Portugal, visando a produção de aviões ou suas componentes, o que confere ainda maior premência a este projecto, porque isso tornaria as coisas bem mais fáceis, com uma base já instalada. Só por estulticia ou falta de visão é que não se daria o melhor acolhimento a este projecto.
Que vantagens vê na participação de empresas portuguesas no projecto Skylander?
Só vejo vantagens nisso, até porque este é um tipo de avião com um importante mercado internacional, que pode ter um efeito de escala muito considerável para algumas empresas que já fornecem o sector automóvel e para outras que entrarão a partir deste projecto. Além disso, o Skylander estimulará a inovação e a competitividade das empresas que vierem a afirmar-se como suas fornecedoras. |