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Entrevista

2011/01/12

“Damos todo o apoio ao projecto Skylander…”



O Presidente da Câmara Municipal de Évora, José Ernesto Oliveira, está empenhado na concretização do projecto Skylander, do grupo francês GECI Internacional, e tudo tem feito para ver este projecto concretizado “o mais depressa possível”. O responsável explica o que já está feito bem como os planos para instalar em Évora e no Alentejo um grande cluster aeronáutico. Salienta o interesse do Primeiro-Ministro e do seu Gabinete neste PIN e manifesta ainda alguma mágoa pela lentidão da burocracia, pela “pouca atenção com que tem sido seguido por entidades e organismos com responsabilidades nesta matéria”. Tudo em conversa com a EspacialNews.

Desde o início, manifestámos a nossa total abertura e entusiasmo em ver concretizado aquilo que todos os estudos de desenvolvimento regional têm apontado como uma potencialidade real a desenvolver no Alentejo – a indústria aeronáutica.
A GECI Internacional tem um projecto, tanto quanto sabemos, já bastante avançado para instalar em Évora uma indústria de aeronáutica, para construir um produto aparentemente já testado no mercado e que será a base, o início, de um cluster aeronáutico em Portugal. Qual é a posição da Câmara de Évora face a isto?

Nós conhecemos bem o projecto da GECI Internacional, desde praticamente o seu início. E, desde o início, manifestámos a nossa total abertura e entusiasmo em ver concretizado aquilo que todos os estudos de desenvolvimento regional têm apontado como uma potencialidade real a desenvolver no Alentejo - a indústria aeronáutica. Temos, assim, acompanhado de muito perto esse projecto e, na área das nossas competências, isso tem-se traduzido em acompanhar o Sr. Serge Bitboul e a GECI Internacional em vários contactos com a Administração Central, nomeadamente junto do Governo e da Agência Portuguesa de Investimento.

3.000 EMPREGOS QUALIFICADOS
No terreno concreto do nosso município, reservámos em sede de Plano Director Municipal uma área de 40 hectares anexa ao nosso aeródromo municipal com a vocação específica de instalar um parque industrial reservado à indústria aeronáutica. Isto porque, o projecto Skylander prevê trazer consigo uma série de outras indústrias ligadas à produção aeronáutica para se fixarem em Évora e poderá, no futuro, evoluir para outros projectos da mesma natureza, daí essa necessidade que nos levou a identificar claramente e infra-estruturar uma adequada área de acolhimento.
A GECI dá-nos garantias da criação de mais de 1.000 postos de trabalho directos, em velocidade de cruzeiro, além de todos aqueles, mais de 2.000 postos de trabalho indirectos.
Posso depreender das suas palavras que o projecto industrial da GECI, o Skylander, é importante para Évora e, portanto, a Câmara está empenhada em apoiá-lo?

Sem dúvida nenhuma… E tudo temos feito para o vermos concretizado o mais depressa possível. Não só na procura de outros parceiros locais, o que conseguimos - esta parceria já envolve três das mais importantes instâncias regionais, a Comissão de Coordenação e Desenvolvimento da Região do Alentejo, a Universidade de Évora e a Fundação Eugénio de Almeida -, mas a própria Câmara está na disposição de, uma vez concretizada a instalação em Évora, vir a utilizar alguns meios que tem de capacidade de decisão no que respeita à modelação ou mesmo isenção de impostos municipais para permitir a sua localização em Évora. Isto porque, neste projecto, a GECI dá-nos garantias da criação de mais de 1.000 postos de trabalho directos, em velocidade de cruzeiro, além de todos aqueles, mais de 2.000 postos de trabalho indirectos.

Para a Câmara Municipal de Évora e no âmbito das suas competências, tem toda a justificação que, em sede de impostos municipais sobre construção de imóveis, em termos de taxas municipais sobre o IRC a pagar pelas empresas - valores ainda significativos -, o município desse uma ajudar à instalação ou arranque de um projecto desta natureza e dimensão.
O que está em causa é passarmos do grupo dos meros consumidores para o dos produtores. Ou seja, esta era uma forma de Portugal inscrever o seu nome na curta lista de países com indústria aeronáutica.
A LENTIDÃO DA BUROCRACIA
Mas, o projecto não tem andado tão depressa como aparentemente o senhor e outros desejam?

É um facto que a burocracia portuguesa e, como já disse e volto a frisar, no caso concreto, algumas hesitações no que respeita à solução clara de envolvimento do estado português na engenharia financeira de suporte a um projecto desta natureza atrasaram um pouco este projecto. O que está em causa não é o volume de verbas envolvido, mas hesitações duma burocracia sempre lenta.

O estado português tão pouco tem uma tradição e nem conhecimento do trabalho na construção aeronáutica…

Não tem uma tradição, mas este projecto é uma forma de vir a tê-la. O que está em causa é passarmos do grupo dos meros consumidores para o dos produtores. Ou seja, esta era uma forma de Portugal inscrever o seu nome na curta lista de países com indústria aeronáutica e na ainda mais curta lista daqueles com produção própria de aviões, neste caso o Skylander.

E isto é extraordinariamente importante no plano nacional, em particular numa altura em que o país - e bem - aposta na renovação e modernização da sua base económica e industrial, em que o país aposta nas novas tecnologias que possam levar a uma perfeita assunção da modernidade como elemento essencial para a qualificação das pessoas e dos territórios.
O INTERESSE DA UNIVERSIDADE
No plano regional e local, seria fundamental para o Alentejo, uma zona submetida à desertificação, todos os dias a perder quadros, sobretudo quadros de média e superior formação, e que com esta possibilidade vê a oportunidade de fixar trabalhadores especializados no Alentejo, assim contribuindo para combater a desertificação, aumentar a mais-valia crítica e económica da região e encontrar um novo modelo de desenvolvimento económico que explore as vantagens comparativas da região e do país.

GECI já manifestou todo o interesse num quadro desses…

Sim… E há já contactos e mesmo já a assunção de compromissos em termos de estabelecimento de protocolos, com a Universidade de Évora, por exemplo.

Já há acordos entre a GECI e a Universidade de Évora?

Já há protocolos entre a Câmara Municipal e a Universidade que apontam no sentido de alargar esses protocolos às empresas que se queiram instalar na região, no caso concreto, à GECI. E áreas departamentais da Universidade, como o Departamento de Física, o Departamento de Inteligência Artificial e Computorizada o Departamento de Estudo das Ciências do Ambiente ou o Departamento de Matemática, estão extraordinariamente interessadas no desenvolvimento deste projecto.

Além do projecto de construção aeronáutica, a GECI, uma empresa de engenharia, com altos quadros que durante anos acumularam experiência e conhecimentos na indústria aeronáutica francesa – como sabemos das mais desenvolvidas em termos mundiais – muitos deles ligados à Universidade de Toulouse, propõe-se criar em Évora, numa parceria com a Universidade, uma escola de tecnologias aeronáuticas, o que seria muito importante e a Universidade acolhe com todo o interesse.

Quero referir também que o Instituto do Emprego e Formação Profissional está disponível – e há já um compromisso nesse sentido – para que na área dos cursos de formação profissional possa prestar todo o apoio e organizar os cursos necessários à formação dos recursos humanos.
Ainda há poucos dias o gabinete do Primeiro-Ministro nos contactou a esse propósito para procurar mais informações concretas, esta identificação PIN corresponde à assunção por parte do nosso Governo de que o Skylander tem um interesse estratégico para Portugal.
O INTERESSE DO PRIMEIRO-MINISTRO
Às vezes, tem-se a sensação que as distâncias contam muito, sobretudo, quando tratamos com a burocracia. Évora está a uma hora de Lisboa, mas isto para a burocracia é muito tempo. O senhor tem falado com o Governo em Lisboa, com o Primeiro-Ministro?

Tenho falado… Temos contactos com o gabinete do Primeiro-Ministro, com o gabinete do ministro da Economia, com o secretário de Estado da Indústria e Inovação, com quem já tivemos reuniões. Já falámos também com a Agência Portuguesa de Investimento.

Qual foi a receptividade que sentiu por parte do gabinete do Primeiro-Ministro?

Ainda há poucos dias o gabinete do Primeiro-Ministro nos contactou a esse propósito para procurar mais informações concretas, se o projecto continua, se a GECI se tem mantido activa na busca de soluções. Isto porque, o projecto da GECI juntamente com outros dois na nossa Região, estes na área do turismo, foram considerados Projectos de Interesse Nacional. Claro que esta identificação PIN não é um compromisso de facto, mas corresponde à assunção por parte do nosso Governo de que o Skylander tem um interesse estratégico para Portugal.

E isto a meu ver devia justificar por parte da Comissão de Acompanhamento dos Projectos de Interesse Nacional – CAPIN um acompanhamento de proximidade que levasse a um desbloquear, a uma agilização maior no que respeita ao que está em causa, isto é, um processo de engenharia financeira que permita a concretização do capital necessário para desenvolver o projecto Skylander, já concebido e que agora é preciso concretizar.
Temos um projecto de engenharia acabado, pronto, temos estudos de viabilidade económica que demonstram a viabilidade do projecto, temos terrenos, temos uma parceria local e nacional, (...) falta “pôr o preto no branco”. Falta que o Estado Português formalize, de vez. o seu compromisso...
Note-se que o projecto já está feito. O capital necessário não visa fazer estudos, realizar projectos ou contratar equipas para estudar. A GECI tem o projecto completo e total de um avião, ou seja, o dinheiro que é necessário reunir visa já a realização industrial, construir o Skylander… E isto é uma garantia, porque muitas vezes a fase mais difícil deste tipo de projectos é a inicial em que se tem de gastar muito dinheiro na elaboração do projecto propriamente dito, nos estudos de engenharia, de aviónica, das tecnologias necessárias. Além disso, o projecto da GECI também está complementado com estudos de mercado feitos pelas empresas internacionais mais credíveis, estudos que demonstram a sua aceitação pelo mercado e uma grande viabilidade económica.

PROJECTO TECNOLÓGICO DE INTERESSE NACIONAL
Em suma, temos um projecto de engenharia acabado, pronto, temos estudos de viabilidade económica que demonstram a viabilidade do projecto, temos terrenos, temos uma parceria local e nacional, porque há outras empresas nacionais que já deram o seu compromisso e até algumas subscrevendo capital para o projecto; falta-nos apenas a realização de uma pequena parte do capital.

Eu chamava a atenção particularmente do Ministério da Economia, dos gabinetes e das áreas departamentais sobre a sua tutela para darem uma maior atenção ao projecto.
Falta a formalização do compromisso do Estado Português…

Sim, falta, como se diz em linguagem mais corrente, “pôr o preto no branco”. Falta que o Estado Português formalize, de vez, o seu compromisso, até porque há outros investidores franceses na disposição de canalizarem verbas para este projecto em Portugal logo que o Estado dê garantias formais da sua participação, necessária ao avanço do projecto. Não faria muito sentido que um projecto com esta envergadura que vem sedear-se em Portugal não tivesse uma participação mínima dos capitais públicos, como todos os projectos com estes objectivos. Basta ver o que se passou agora com a IKEA e que não faz nenhuma transferência de tecnologia e vem apenas buscar mão-de-obra barata…

Eu quero chamar a atenção para um aspecto que julgo que os portugueses devem ter em conta. Este projecto, obviamente, tem muito interesse para a cidade de Évora e para o Alentejo, mas é, sobretudo, um projecto tecnológico de âmbito nacional, de grande interesse nacional. O Skylander tem de facto uma valia nacional e, a meu ver nada justifica, e com alguma mágoa o digo, a pouca atenção com que tem sido seguido por entidades e organismos com responsabilidades nesta matéria.