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Entrevista2007/11/06
O Presidente da Proespaço, António Neto da Silva, em entrevista ao Correio da Manhã e à semelhança do que já havia feito na entrevista à Espacialnews, defende a necessidade de uma mudança na relação do Governo com o Espaço, fala do empenho da indústria portuguesa, cada vez mais capaz para participar e mesmo liderar alguns dos grandes projectos espaciais, e aborda os motivos do impasse no Galileo, entre outros aspectos ligados ao Espaço. Motivos mais que suficientes para aqui darmos espaço a esta entrevista, numa cortesia de António Ribeiro Ferreira e do Correio da Manhã.
"Pessoas de qualidade desarranjam a panela da política"
Tem sido muito crítico pela forma como o Estado e os Governos actuam na economia e na vida das empresas. É por isso que se afastou da política activa?
António Neto da Silva – Eu não me consigo afastar da política. Tenho uma coluna quinzenal no Diário Económico, que é lido pelos grandes decisores, não pela grande população. Portanto, eu faço a minha intervenção política. Mas eu sou um indivíduo que gosto pouco de perder tempo. Ir para a política sem ter o poder suficiente para fazer o que é preciso, não vou.
Quando em 90 e 91 fez o acordo com a Ford-Wolksvagem teve esse poder?
- Nessa altura, quando Cavaco Silva e Faria de Oliveira me falaram para negociar esse projecto foi-me dito pelo primeiro-ministro que eu tinha o poder para decidir. O projecto era demasiado importante para Portugal para o deixarmos fugir e precisavam de um empresário, de um homem de empresa para negociar. E quando acabei a negociação disse imediatamente ao meu querido ministro Faria de Oliveira, de quem gosto muito, e ao primeiro-ministro, professor Cavaco Silva, que em Outubro saía. Já não estava a fazer nada ali.
Ser do Governo por ser não o seduz?
- Ir para o Governo para ganhar as eleições quatro anos depois não é comigo. Digo-lhe uma coisa: se fosse porventura um dia primeiro-ministro a primeira coisa que eu avisava os portugueses era para votarem contra mim passados quatro anos. Porque era a única forma de executar aquilo que era necessário.
É empresário, negociou esse importante acordo, mas não está na política activa. Os quadros afastam-se cada vez mais da política. E depois olhamos para o Parlamento e Governos e vemos o que vemos.
- Mas também lhe digo outra coisa. Não é por algumas pessoas de grande qualidade não estarem disponíveis para estar lá.
Essas pessoas, esses quadros querem estar na política?
- É porque as pessoas de grande qualidade desarranjam a panela. Desarranjam a panela. Funciona tudo em panela.
Quer dizer que são postas fora dos partidos e da política?
- Eles nem chutam. Até tratam normalmente as pessoas bem. Enfim, nem sempre. Mas não as deixam é entrar no meio daquela coisa. Entra ali uma areia na engrenagem e é uma chatice. Acabam com os favores, acabam com tudo.
Alguns intelectuais dizem que os quadros se afastam porque a política é chata, é perigosa e põe em causa a vida privada das pessoas. Afinal não é bem assim. Não as deixam é ir para lá?
- Há muita gente que não vai para lá porque não os deixam ir para a política. E que estão disponíveis. E que estiveram disponíveis com qualquer líder. E são pessoas com qualidade e que até estavam dispostas a sacrificar a sua vida para ir para lá. Eu não tenho problema nenhum em lhe dizer que quando fui chamado para o Governo, ou mais propriamente para ir negociar a Ford-Wolksvagem, eu ganhava dois mil contos líquidos por mês. Fui ganhar trezentos mais cem por estar deslocado em Lisboa. Passei de dois mil líquidos para 400. Mas vim. Porque sabia que havia um projecto fundamental para Portugal e cerca de 40 países contactados para saber quem iria ganhar. E entendi que era meu dever fazer esse serviço cívico. Da mesma forma que também fui para a tropa.
Hoje olha para o PSD e o que é que vê? Qual é a situação do seu partido?
- Infelizmente o doutor Marques Mendes – eu até acho que ele fazia política como a política deve ser feita – não passava. Não passava. Ponto final. Não havia nada a fazer. Acho que as coisas não lhe saíam de lá de dentro. Entendi, portanto, que era precisa uma alternativa. E apareceu. Como apareceu em Pombal, aliás. Nesse congresso fui candidato a primeiro vice-presidente com o doutor Luís Filipe Menezes, que honra lhe seja feita se esforçou muito para eu na altura ir com ele.
Está optimista com a vitória de Luís Filipe Menezes.
- Estou com alguma esperança. O meu avô já me dizia que só governa bem quem tem uma oposição muito forte. E estou convencido que o Luís Filipe Menezes é capaz de fazer uma oposição muito mais forte, muito mais saída de lá de dentro. Pode ser com ou sem lágrimas nos olhos, mas é capaz de fazer uma oposição muitíssimo mais forte.
E vai voltar à política com o Luís Filipe Menezes?
- Não tenho nenhuma intenção. Mas sempre lhe digo que quando um líder é eleito todos devem estar disponíveis para o ajudar.
Mas vai ao congresso.
- Andarei por aí. Tenho uma grande amizade por Luís Filipe Menezes e um grande respeito por Marques Mendes. Mas estou sempre disponível para ajudar o meu País. Sem qualquer dúvida. Se alguém precisar de mim para servir o meu País, não para fazer número, estou sempre disponível.
É empresário do espaço. Como é que vai o projecto Galileu, o chamado GPS europeu?
– O projecto Galileu vai com algumas dificuldades.
Dificuldades políticas?
- Dificuldades de natureza política. Não há carências tecnológicas, não há nenhum problema de natureza económica global da Europa. O que acontece claramente, para não estarmos com rodeios, é que a Alemanha não conseguiu tanto quanto estaria à espera, a Itália e França conseguiram mais daquilo que era expectável e portanto a tensão está entre estes dois grupos.
O problema chama-se Alemanha?
- A Alemanha está claramente a fazer sentir que não deixa avançar o projecto se porventura não tiver mais resultados do que lhe está atribuído neste momento e portanto o que vai ter de acontecer provavelmente é que os outros países europeus vão ter de entender esta questão alemã.
Na presidência portuguesa houve algum avanço ou continua a situação de impasse?
- A situação de impasse continua porque não depende da presidência. Agora há alguma preocupação. Quanto mais técnica a pessoa for mais preocupada se sente. Não percebe muito bem estas questões do lóbi em Bruxelas e na Europa. O meu raciocínio é muito simples. Ponto um: a Europa hoje, como praticamente todos os países do mundo, está absolutamente dependente dos Estados Unidos em tudo o que diz respeito ao espaço.
Comunicações e tudo o mais.
- Veja os telemóveis que funcionam com GPS e porventura quem quiser ouvir as conversas e ingerir aquilo que se passa a nível mundial em termos de movimentos não desejáveis, como o terrorismo. Os americanos sabem tudo e nós só sabemos aquilo que eles nos deixam saber. A Índia e a China, para já não falar na Rússia, estão a avançar com projectos importantes neste domínio do espaço e a Europa não pode permitir-se, do ponto de vista política e geoestratégico, ser incapaz de ver as coisas a partir do espaço. Sejam telecomunicações, seja a observação da Terra.
Mas o facto é que o projecto Galileu marca passo
- Do ponto de vista geoestratégico não me passa pela cabeça que a Europa não avance neste projecto. Com o processo de globalização já vai ficando uma península com pouca importância na Ásia. Se ainda por cima abdica, por uma questão de interesses, de se tornar dona das suas comunicações e da observação da Terra, então a Europa desapareceria. Eu não posso acreditar que isso vá acontecer. Por outro lado, ainda, do ponto de vista económico e empresarial sairia muito mais caro aos outros países europeus não ceder um pouco ao Alemanha e dar um pouco do que ela quer para fazer avançar o projecto.
Não está inquieto?
- Não estou.
Mas é um projecto muito importante para a indústria do espaço nacional.
- É um projecto extremamente importante. É a primeira vez que a indústria do espaço nacional obtém mais de 100 por cento de retorno. Ou seja, relativamente ao valor posto para o projecto nós já conseguimos mais de 100 por cento de retorno. É de facto um grande sucesso para a indústria nacional.
Não teme que nessas negociações Portugal e a sua indústria sejam despejados para o canto?
- Não creio.
Os lóbis são muito poderosos e Portugal tem pouca força.
- Não creio. No Galileu conseguimos mais de 100 por cento, mas em geral andamos à volta dos 75 por cento de retorno obrigatório, isto é do dinheiro que é posto na Agência Espacial Europeia para este projecto. O que significa que, desse ponto de vista, nós teríamos mais do que argumentos para não permitir que Portugal fosse prejudicado. Por outro lado, trata-se de um sector altamente especializado.
E Portugal está bem preparado desse ponto de vista?
- Nós temos empresas em Portugal com um nível de know-how que faz com que conheçam melhor o core tecnológico de alguns dos projectos do que outras empresas internacionais, europeias.
Esse núcleo de empresas nacionais do espaço são basicamente doze, não é?
- Fundamentalmente. Algumas são muito pequeninas, que não estão aqui incluídas. Mas há cinco, que são as maiores. Nós aqui na Deimos, por exemplo, subcontratamos muitas vezes grandes empresas europeias, monstros. E nós aqui, com a administração, somos quarenta pessoas. Isto é só para lhe traduzir o grau de especialização tecnológica que estas empresas têm.
Esse núcleo da indústria do espaço nacional envolve quantos quadros?
- Estas doze empresas do espaço, mesmo do espaço, sem defesa e aeronáutica, devem ter à volta de 300 técnicos altamente especializados.
É uma área extremamente importante?
- É uma massa cinzenta que é paga a peso de ouro em qualquer parte do mundo.
Isso é percebido politicamente em Portugal ou não?
- Não é percebido.
Não? Fala-se muito no Plano Tecnológico, no Simplex.
- Repare que as empresas do espaço são tecnologicamente tão avançadas que a burocracia não nos emperra. A não ser o problema com o Grices.
Foi extinto, não foi?
- Foi extinto, mas não foi extinto. Quem continua com a área do espaço é a engenheira Virgínia Correia, directora do Grices. O espaço está extinto, mas o espaço continua com a engenheira Virgínia Correia. E o senhor ministro da Ciência e Tecnologia continua sem ouvir nada nem ninguém, pensa que sabe tudo de tudo e sabe muito pouco.
Mas Mariano Gago foi importante em 2000, não foi?
- Foi importante em 2000, na adesão de Portugal à Agência Espacial Europeia, e foi importante em Dezembro último. Negociou bem e permitiu a subscrição de um valor substancial para a indústria do espaço. Vamos dar os créditos a quem os merece. Agora, o senhor ministro anda preocupado com as universidades e depois não dá andamento a coisas mais importantes.
Mais importantes como?
- Repare. Eu não lhe vou falar do Plano Tecnológico, até porque há muita propaganda e no caso do Simplex há coisas que são mais complexas do que eram antes. Como sabe a forma de agir do político é a capacidade que tem para instrumentalizar. E portanto os votos são quem decide quem são os políticos que estão no poder. A indústria do espaço empregará no máximo 600 pessoas. Seiscentos votos, ainda por cima de pessoas que são inteligentes, não têm a importância que têm a indústria têxtil, do vestuário e do calçado. Em termos políticos, em termos de atenção há indústrias mais importantes do que a do espaço.
Mas só interessam os votos? E o resto?
- É isso. Há um ponto extremamente importante. A indústria do espaço é um sector do futuro. Nós somos um sector com alta elasticidade de rendimento da procura. Ou seja, à medida que o rendimento mundial aumento a procura deste sector aumenta de uma forma extremamente importante.
Ao contrário de outros.
- Exacto. Os sectores de mão-de-obra muito intensiva, aos quais os governantes dão normalmente muito mais atenção, estão em declínio. Por isso mesmo, é preciso que o Governo dê atenção a um sector de ponta e que é tão bom como os melhores a nível mundial. O americano não é melhor, o chinês não é melhor, o russo não é melhor.
E não precisa de subsídios do Estado, não é verdade?
- É verdade. Como eu tenho dito continuamente, como presidente da PROESPAÇO, a indústria do espaço não precisa de subsídios, não queremos subsídios. Não precisamos e não queremos. Não precisamos da interferência do Governo para nada. Precisamos que o Governo faça o seu trabalho em termos de lóbi. Porque os outros países fazem o seu trabalho em termos de lóbi. Veja agora o Galileu. A Alemanha diz que se isso não vem para as nossas empresas o projecto não avança.
Mas como é que explica, com a sua experiência política e de governante, que em Portugal toda a gente fale do espaço. Fala o da Ciência, das Obras Públicas... o ministro do Ambiente.
- E o da Economia. E o ministro dos Negócios Estrangeiros. Toda a gente fala e toda a gente tem competência. O Galileu é muito mais da área dos Transportes, de facto. Mas em Portugal aconteceu que, por causa da nossa adesão em 2000 à Agência Espacial Europeia, um crédito do ministro Mariano Gago, que tem agora um peso político importante no Governo, a indústria do espaço mantém-se na tutela do seu Ministério da Ciência. Muito embora os projectos fundamentais estejam na área dos Transportes, na área da Economia, do Ambiente e da Agricultura.
Não faz sentido estar no da Ciência.
- Não faz. Entendemos que falta coordenação de alguém que tenha sensibilidade económica. E há uma coisa que me preocupa. Com essa não durmo bem. É a nomeação dos delegados de Portugal às entidades europeias que tratam destes assuntos. Eu receio bem que o senhor ministro da Ciência resolva pôr pessoas que lhe são próximas, professores universitários puros, sem qualquer experiência empresarial, a representar os interesses de Portugal nos diferentes núcleos europeus que têm a ver com a ciência. E se isso acontecer é o desastre completo.
Já defendeu muitas vezes a criação de um organismo intergovernamental na dependência do primeiro-ministro. Já falou a alguém dessa proposta?
- Sim, sim. Ao senhor primeiro-ministro Durão Barroso e aos diferentes ministros da Economia. Voltámos a propor ao Governo seguinte, de Santana Lopes, falei com diversos ministros e secretários de Estado – aliás havia um com uma grande sensibilidade para esse assunto que era o da Inovação -, falámos há cerca de quatro meses com o senhor Presidente da República, que prometeu que iria falar do assunto com o primeiro-ministro, pedimos uma audiência a José Sócrates, que obviamente não nos concedeu, e a primeira coisa que fizemos quando este Governo tomou posse foi pedir uma audiência ao senhor ministro da Ciência e Tecnologia, uma vez que tutela o sector.
E Mariano Gago recebeu-os?
- Também não fomos recebidos. Trata-se de uma situação clara de alguém que não ouve nada e essa posição pode ter custos graves para Portugal. Até porque a task force termina este ano e vamos deixar de ter em permanência em Bruxelas, na presidência, pessoas que procuram manter-nos informados.
E a vossa proposta é clara.
- Claro. Dado que o sector do espaço está disseminado por diversos Ministérios, dado que o Ministério da Ciência e Tecnologia não tem sensibilidade económica, devia estar numa espécie de Unidade de Missão coordenada directamente pelo gabinete do primeiro-ministro. Não sendo a coordenação do espaço feita pelo gabinete do primeiro-ministro, deve ser feita pelo gabinete do ministro da Economia. Qualquer outra solução parece-nos menos correcta.
Defende que a indústria do espaço deve sair da tutela do Ministério da Ciência?
- Não quero dizer isso. Não estou a dizer que o ministro da Economia ou o primeiro-ministro vá retirar poderes ao Ministério da Ciência na parte da Ciência ou da Investigação, ou ao Ministério dos Transportes no projecto Galileu. Não é isso. O que não pode acontecer é que pessoas dos Estrangeiros vão a Bruxelas dizer que uma coisa é branca, depois vão pessoas dos Transportes, que não falaram com os Estrangeiros, dizer que é preta, não irem depois pessoas da Ciências dizer que nem é uma coisa nem outra.
Isso é muita incompetência, não é?
- Pois, incompetência que eu receio que se torne maior. Apesar de tudo, os delegados que nós tínhamos ainda eram pessoas com alguma sensibilidade empresarial. Agora metem lá professores universitários puros – e estou à vontade porque sou professor universitário, não sou é puro, sou impuro, ando na vida das empresas, ando no trabalho, no dia a dia, não leio livros e artigos, ando na prática – e receio que tudo isso fique pior. O que nós não podemos ter é diferentes Estados dentro do mesmo Estado.
Está a referir-se às nossas prestações em Bruxelas?
- Exacto. Ir para Bruxelas dizer coisas diferentes uns dos outros. Os italianos não fazem isso. Os franceses não fazem isso. Os alemães não fazem isso.
Não é ridículo isso acontecer na Agência Espacial Europeia?
- É não só ridículo. É pior do que isso. É a perda total de credibilidade. Repare uma coisa. Se um diz uma coisa, outro diz outra e um terceiro diz ainda outra, quem é que decide? Quem decide é o alto funcionário da Agência Espacial Europeia da União Europeia. Ele é que vai decidir. Se as pessoas não têm uma linha comum sobre um assunto que diz respeito a um País, quem decide é o burocrata.
Portanto, Portugal não tem nem faz lóbi?
- Não há nenhum lóbi português. O grande lóbi é feito pelas empresas e pelas relações que as empresas têm em Bruxelas. E felizmente existe uma coisa chamada Proespaço, onde temos conseguido que as grandes empresas europeias respeitem as nossas regras. Temos o exemplo de duas grandes empresas que quiseram vir falar connosco, empresa a empresa, como nos velhos tempos da cortiça.
Para obter o melhor preço?
- Eu lembrava-me. Eles vinham a uma empresa e perguntavam quanto era um cento de rolhas. São vinte e cinco. Vinte e cinco. Mas fomos a um seu colega e ele fez-nos vinte e três. Está bem, também podemos fazer esse preço. Neste sector há uma coisa chamada Proespaço que disse a essas grandes empresas europeias que nós só reuníamos em conjunto. Ah, mas nós queremos falar com cada empresa em particular. Então não falam. E essa é uma das explicações para o facto de termos obtido mais de cem por cento de retorno no Galileu.
A sociedade civil está a fazer o trabalho do Estado?
- É verdade. Nós chegamos a este cúmulo terrível, e o País vai nesse sentido, de ser a sociedade civil de estar a fazer o trabalho que devia ser feito pelo Estado. E o Estado a desfazer o trabalho que a sociedade civil e as empresas andam a fazer.
A indústria do espaço não precisa de subsídios, mas o Governo não faz o que deve. Que futuro antevê para o sector?
- Não precisar de subsídios é incómodo. Haver uma indústria que não precisa de subsídios quer dizer que não é manipulável.
E é um mau exemplo?
- Pois é. Assim não se pode instrumentalizar.
E que futuro tem em Portugal a indústria do espaço?
- Repare o que é que está a acontecer em Portugal. A opção Ota estava tomada. Asneira total. Alguns políticos, como o António Borges, diziam que era uma asneira total. Ninguém ligou nenhuma. Mas um dia a CIP, leia-se sociedade civil mais ou menos organizada, reuniu os empresários, fez um estudo e demonstrou por A mais B que não fazia sentido meter um aeroporto num pântano quando havia uma plataforma para se fazer o aeroporto.
Fez o papel do Governo?
- Exacto. Para que serve um Governo? Serve para definir prioridades para o País. Para servir o País como uma frente única no estrangeiro. Mas não. Foi a sociedade civil, neste caso a CIP, que disseram ao Governo que a prioridade definida não fazia sentido nenhum.
Se calhar devia acontecer em mais sectores.
- Está a desenhar-se claramente uma tendência. Há dias, os empresários da construção civil encomendaram um trabalho a uma consultora internacional sobre quais são as infraestruturas fundamentais para Portugal. Receberam o trabalho e foram mostrá-lo ao primeiro-ministro. E disseram que estavam dispostos a fazer os investimentos necessários para o fazer. Mas disseram-lhe também que era necessário um acordo de regime com todos os partidos com assento parlamentar ou então a gente não brinca.
Isso é uma inovação em Portugal.
- Então temos um Governo que cobra impostos e destrói a riqueza produzida? Eu fiz as contas. Oitenta e cinco por cento da riqueza criada numa SA vai para as mãos do Estado. É impressionante. Não dá. Nós podíamos ter um País em que se pagava uma barbaridade de impostos mas em que o Governo sabia definir estratégias. Assim não. Pagamos impostos e o Governo nem as estratégias sabe definir. O Governo em Portugal prejudica as empresas. Deixou de ter papel. Deixou de ser uma pessoas de bem. Isto quer dizer que os políticos não cumprem o seu dever.
PERFIL
António Ernesto Neto da Silva nasceu no Porto a 29 de Novembro de 1948. Licenciou-se em Economia na Faculdade de Economia do Porto, tendo concluído a licenciatura com a classificação mais elevada do curso. É master em Estudos Europeus Contemporâneos pela Universidade de Reading. É fundador e presidente do conselho de administração da Financetar, fundador e CEO da portugaloffer.com, accionista e presidente do conselho de administração da Deimos Engenharia, empresa de software no domínio espacial cujos principais clientes são a Agência Espacial Europeia e a NASA. É também presidente da Proespaço, Associação Portuguesa das Indústrias do Espaço. Professor do Instituto de Estudos Superiores Financeiros e Fiscais e da Universidade Católica, foi secretário de Estado do Comércio Externo entre 1990 e 1991, tendo negociado o acordo com a Ford-Wolksvagem. Entre 1998 e 2002 foi conselheiro nacional do PSD e é apoiante de Menezes.
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