HomepageNotíciasAssine a NewsletterConsultar edições anterioresContacte-nosVisite o Inteligência Económica

Entrevista

2009/03/17

“Portugal tem vocação global”



Portugal precisa, para se afirmar no contexto global, de apostar num modelo de “flexibililidade geo-estratégica”, numa “geometria variável” que permita ligar o país aos países da sua História, através de uma recuperação do valor do simbólico. A ideia é defendida por Jorge Nascimento Rodrigues, editor dos sites www.janelanaweb.com , www.gurusonline.tv , do blog www.geoscopio.tv e co-autor, com o professor Tessaleno Devezas, do livro “Portugal - Pioneiro da Globalização”. Portugal deve recuperar a sua vocação global, com a aposta em várias frentes, ao contrário daquela que tem sido a estratégia dominante, pautada por uma “mania da prioridade das prioridades”. Jorge Nascimento Rodrigues contesta a vocação atlântista do país, diz que o Iberismo morreu há muito, entende a entrada na CEE como “uma das mais importantes decisões da nossa história”, embora critique a “dissolução na Europa”, e fala da tremenda oportunidade que se abre a Portugal se souber relacionar-se com as potências emergentes, sem sobrancerias. Tudo nesta entrevista exclusiva à Espacialnews.

A Matriz das Descobertas, desenvolvida no seu livro “Portugal -Pioneiro da Globalização” comporta um conjunto de implicações, pondo em causa um vasto conjunto de ideias comummente aceites pela generalidade dos pensadores portugueses, quanto ao que deve ser o papel de Portugal na Europa, em particular a relação com Espanha, e também quanto aquela que deverá ser a estratégia geopolítica, o posicionamento em matéria de Defesa e a estratégia geoeconómica. De que modo essa Matriz das Descobertas explica a necessidade de uma nova abordagem nestes dois campos?

O que baptizámos de ‘Matriz das Descobertas’ é uma síntese – com base num olhar de hoje, por isso, naturalmente, “inquinado” – sobre o que poderíamos chamar dos ‘fundamentals’ do que historicamente ocorreu e permitiu a diferença portuguesa na época. A ideia central, a que chegámos, eu e o cientista Tessaleno Devezas, depois deste trabalho de vários meses ao longo de 2006, é que a explicação “heróica” ou “popular”, muito fantasista e mítica, acabava por esquecer o fundamental, que é perene, que é “útil”, mesmo séculos depois. O número de 10 características é um número redondo, não esgota o assunto – não fala de heróis providenciais, de país “escolhido” por missão divina, de “homens com tomates”.

“ESTAMOS ORFÃOS…”


Descobrimos os dois – apesar de Tessaleno ser brasileiro, ainda que radicado há muito tempo em Portugal - que nutrimos um profundo asco por esse tipo de “história”. O que, também, acabámos por concluir, é que, depois do 25 de Abril, se perdeu em grande medida o valor do simbólico, não se reconstruiu outro simbólico que nos diferencie no mundo. E sem simbólico, não há identidade, nem pode haver estratégia. Grosso modo, estamos órfãos – essa deveria ser a tarefa fundamental dos próximos 10 anos. Mas, mais concretamente, quais são as consequências? Se partirmos desta ideia de que é necessário “reconstruir” um simbólico que retire da História Portuguesa uma diferenciação que seja perene e válida para o século XXI, vemo-nos obrigados a reestudar a História, e particularmente a entender o que nos diferenciou nos séculos XV e XVI. O livro que publicámos – e que, agora, corrigimos e revemos em vários aspectos para a edição em língua inglesa até final do ano – é uma proposta – uma hipótese de trabalho, diriam os cientistas - nesse sentido.

O termos sido pioneiros na globalização significa, em matéria geopolítica e geoeconómica, que o nosso horizonte foi global, que é essa a nossa herança – não é limitado a este ou aquele espaço, ainda que o nosso berço seja europeu obviamente. Por isso insistimos na ideia da “geometria variável” e num certo mal-estar em relação à mania da “prioridade das prioridades” casuística com que nos mimoseiam de vez em quando. Mas não damos a este sentido “globalista”, a ideia de um mítico “universalismo”, que nos limparia do rol de crimes e barbaridades que estiveram associadas à globalização portuguesa. Uns pintam esse “universalismo” como algo poético ou filosófico, outros misturam-lhe mais-valias religiosas. Não passa de “treta” para embalar ingénuos.

O exercício do «hard power» sempre foi dominante na estratégia portuguesa – diferentemente de outros europeus e asiáticos em que o «soft power» foi dominante, ainda que o uso da violência como continuação da política de expansão das talassocracias ou dos impérios com ligação aos oceanos sempre esteve presente. Também condenamos a ideia do ditador Salazar de que o país era uma espécie de jangada extra-europeia. Um expediente para justificar a ideia que era uma e a mesma coisa a “metrópole” e o “ultramar” (com o que restava do império colonial criado nos séculos XVII e XVIII). Sublinhamos, naturalmente, que se tratou de uma estratégia de europeus, não de uns seres indefinidos.

O “ATLANTISMO É UM MITO…”


Como vê, à luz da abordagem feita no livro, a ideia de um Portugal que deve apostar nas relações além Europa, em particular atlânticas e com os países de língua portuguesa, e, por oposição, o que deve pautar a relação do nosso país com a Europa, desde a adesão esforçada em tornar-se um bom aluno?

O sentido “globalista” que falamos tem duas componentes:

A) Uma de longa distância – tocámos durante 200 anos a maior extensão de pontos do globo, até então realizada por qualquer potência oceânica (incluindo a chinesa ou a expansão muçulmana). O que significa que historicamente criámos laços históricos (baseados na violência extrema do «hard power» e também no «soft power» e nas trocas) com países e civilizações bem distantes do espaço europeu e que não “absorveram” o idioma e a cultura portuguesas, ainda que na época o usassem como língua franca e em vários casos integrassem palavras e hábitos portugueses.

B) Fruto dessa expansão costeira em dois oceanos – o Índico e o Atlântico – e depois da estruturação de um império colonial e da aculturação com a língua portuguesa, criámos diversos países com uma mesma língua oficial. Temos, por isso, logo à partida duas dimensões distintas, que não se restringem à chamada “vocação atlântica” ou à limitação da nossa geoestratégia aos designados PALOP.


A vocação atlântica é um mito?

É. Há uma cultura na área da estratégia e da Defesa, e na comunidade militar, que fala muito dessa “vocação”. O Atlântico foi um veículo de navegação, nunca um desígnio. Veículo durante dezenas de anos para navegar a África Ocidental em busca de afluentes do Nilo para chegar por terra ao reino do Preste João. Pelo caminho, desenvolveram-se os circuitos do esclavagismo europeu e pilhou-se o ouro das “Guinés”. E, depois, para procurar um caminho oceânico para o Índico, com vista a chegar à Índia. Foi no Índico que a hegemonia portuguesa mais se afirmou no século XVI – era, na época, o oceano mais forte em rotas comerciais e em riqueza circulando, basta recordar que a China e a Índia eram as duas maiores potências económicas da época. O ponto auge do globalismo português, em termos oceânicos, foi o Índico e não o Atlântico. O Atlântico tornou-se, para os políticos portugueses, o oceano de recuo estratégico, quando a estratégia no Oriente foi liquidada pela re-emergência das potências locais, dos Otomanos e pelos ataques holandeses no século XVII. Não há nenhuma particular “vocação atlântica” portuguesa.

Quer isso dizer que o “atlantismo” não faz sentido?

JNR: O Atlantismo é uma construção recente na História – nada tem a ver com o globalismo português de Quinhentos e Seiscentos. A colonização sistemática e em profundidade das Américas pelos espanhóis, portugueses e outros europeus, a partir do século XVII, levou à criação de uma “civilização ocidental” baseada no Atlântico, na ligação entre as duas margens, e particularmente entre a Europa e a América do Norte e do Sul, com a África servindo de outra ponte do triângulo como fonte de esclavagismo e logística. Com a emergência dos Estados Unidos como superpotência no início do século XX e principal bastião dessa civilização oceânica atlântica (com o declínio do Reino Unido, que foi uma potência global, como Portugal), surgiu um cadinho histórico para que a ideia do “atlantismo” vingasse. O pós Segunda Guerra Mundial deu-lhe forma politico-militar face à emergência do outro bloco. O próprio Salazar percebeu isso e jogou habilmente esse jogo. O que queremos referir não é que Portugal deva abandonar a NATO, ou não deva desenvolver relações “atlânticas” a norte e a sul, mas que o “atlantismo” não é nenhuma vocação histórica nossa. O que esta clarificação histórica nos permite é, justamente, manter a flexibilidade, que herdámos da História. E não ficarmos prisioneiros deste ou daquele mito.

O ERRO DOS “BONS ALUNOS”


Mas o Brasil e Angola não devem ser “prioridades” nossas?

JNR: Devem ser aspectos de uma estratégia mais global, de geometria variável. É preciso não acalentar ilusões sobre a reciprocidade dessa prioridade. O Brasil é uma das potências emergentes no mundo, tem a sua própria agenda, em que Portugal pode ser um aliado útil, mas não decisivo – o Brasil tem hoje capacidade estratégica de dialogar directamente com os Estados Unidos, diversas potências europeias, e com a China ou a Rússia. Lisboa não pode ter ilusões sobre isso. Se alguma vez essa diferença de pesos ficou clara – eu diria até de um modo extremo - foi na entrevista conjunta de Sócrates e Lula na RTP. Angola, por seu lado, joga em vários tabuleiros – quer na Europa, bem como em relação à China (cujo peso do seu «soft power» em África é cada vez maior) e aos Estados Unidos, e mesmo ao Brasil. É por isso que insistimos na ideia de flexibilidade e geometria variável. E, por outro lado, em reconstruir um simbólico, que aumente “imaterialmente” o peso político do país, e ajude a jogar cartadas de “nicho” em momentos oportunos. E que “mal” houve em sermos “bons alunos” na Europa?

JNR: Foi um erro estratégico de envergadura. A decisão de adesão à CEE foi uma das mais importantes da nossa história – permitiu-nos sair da condição de «shatterbelt» vulnerável à disputa entre grandes potências, a que ficámos condenados desde o século XVI. Devemos essa clarividência a Mário Soares. Mas daí não se inferia que nos “dissolvêssemos” na Europa. O período liderado pelo primeiro-ministro Cavaco Silva foi justamente a altura em que deveríamos ter retomado o caminho estratégico da diferenciação, de reconstrução do nosso simbólico. Perdemos esses anos de vacas gordas e de optimismo português para iniciarmos esse desígnio. A necessidade de diferenciação portuguesa é vital para os próximos 10 anos, período em que o alargamento da União Europeia se consolidará e a afirmação de peso político das velhas antigas potências europeias e inclusive das médias emergentes se acentuará. Que papel para Portugal no dispositivo geoeconómico global que estamos hoje a ver emergir destas ruínas do modelo saído da vitória aliada na II Guerra Mundial?

JNR: Um modelo da tal flexibilidade geo-estratégica de que falamos atrás. Flexibilidade que é um trunfo de pequenos países.Aproveitando momentos e janelas de oportunidade – por vezes, de nicho – para afirmar essa nossa capacidade histórica “globalista”, em geometria variável. Sem ilusões de média ou grande potência – que não é. Evitando o ridículo da voz alta esganiçada (querendo ralhar com os novatos na UE) e dos bicos de pés (para ficar na fotografia). Mas “aumentando” o seu peso através da revalorização do simbólico histórico, e de uma boa campanha de projecção (não no sentido do «hard power») e marketing internacional, e de acções cirúrgicas, de nicho por vezes, que façam ressaltar esse simbólico nas várias partes do mundo. É uma estratégia de longo prazo.

O CADÁVER DO IBERISMO


Que importância real tem, para os intentos geoeconómicos e geopolíticos de Portugal, a relação com Espanha e como analisa a ideia de iberismo, defendida por alguns como estratégica para o nosso país?

JNR: Espanha é o nosso vizinho – uma condição geográfica irreversível. Hoje é parceiro na Europa e há o contexto das relações económicas muito estreitas. É o país com o qual temos, no passado, uma relação histórica permanente de conflitos, entendimentos e divergências de alinhamento. E uma herança comum em dois sentidos. Uma primeira, de curto período (historicamente falando), o da monarquia dual felipina que ruiu como projecto ibérico e como projecção global (como potência hegemónica nos séculos XVI-XVII). O iberismo ficou enterrado nessa altura, de vez. Portugal é um estado-nação resiliente desde o século XII – dos mais antigos na Europa. A Espanha é uma construção que data do século XVI e que contém na sua história e geografia política muita diversidade, também resiliente. Outro sentido, mais forte e mais consistente: é o de partilha da projecção global nos séculos XVI e XVII. O mundo mudou radicalmente depois das viagens de Bartolomeu, de Colombo, de Gama e de Magalhães, e dos vários tratados, como o de Tordesilhas. Esse património comum – ainda que com expressões de «hard power» na altura distintos – é um activo que poderá ainda ter muito para dar, naturalmente com cada macaco no seu galho.

Mas se há terreno para um “iberismo” na acção – é este. Em períodos de pessimismo e crise, e em que o «benchmarking» com o vizinho do lado é assustador e desmoralizante para o cidadão comum ou para alguma elite intelectual ou de negócios, o iberismo regressa sempre. O melhor antídoto é a revalorização da nossa diferença e a reanimação da resiliência típica dos portugueses. E o tempo – esse carrasco inexorável da História – é nosso aliado.

A Espanha, fruto da sua diversidade, tem muito com que se coçar. O espanholismo como projecção de uma potência europeia média com ambições globais também parece ter ficado, de novo, em banho-maria, depois do fim do consulado de Aznar e da compreensão que países como o México (mais claramente neste caso) ou a Argentina têm a sua própria agenda.

Portugal é um país que, ao longo das últimas décadas, “exportou” muitos dos seus cidadãos. De que modo pode hoje ser aproveitada a diáspora portuguesa, numa perspectiva de inteligência económica? Quanto vale esta diáspora e de que modo a rede de emigrantes portugueses pode ser aproveitada?

A diáspora portuguesa – sobretudo a de negócios locais e de jovens talentos, quadros qualificados e de figuras públicas – é, sem dúvida, um activo enorme. Mas é um assunto que não estudámos.

TEMPO DO “IMATERIAL”


Portugal tornou-se pioneiro da Globalização pela capacidade de inovação e por saber ler e agir sobre as oportunidades do momento histórico que atravessava em Quinhentos. Hoje os BRICS oferecem aos países que com eles saibam relacionar-se uma oportunidade tremenda de afirmação nas esferas geopolítica e geoeconómica. Como vê a relação de Portugal com estes países e outras potências emergentes ou adormecidas (caso do Japão)?

Historicamente, Portugal foi o primeiro país europeu a «achar» o Brasil e a projectar-se de um modo continuado e sustentado no Índico e em partes do Pacífico asiático costeiro. BRICs de hoje como o Brasil, a China e a Índia, potências como o Japão, e emergentes de uma segunda linha como a África do Sul e a Malásia, são pontos-chave do nosso roteiro dos séculos XV e XVI, para citar os casos mais óbvios. São activos da nossa história que devem ser revalorizados hoje em termos diplomáticos e de acções de nicho. Requer, também, investimento cirúrgico, dirigido para alvos específicos no plano histórico, cultural, linguístico. Também o relacionamento português com o Canadá merece ser revalorizado – o Canadá foi um dos pontos de encontro da saga portuguesa de Quinhentos e é uma das potências em recursos que se afirmará durante este século.

Portugal projectou-se e dominou o Mundo com as Descobertas. De que modo pode hoje o nosso país reconstruir uma nova projecção global?

Apenas num sentido de «soft power». Não somos nenhuma grande potência, nem mesmo média, no xadrez mundial. Estamos integrados no quadro da UE – não poderemos actuar como se de uma jangada se tratasse. Não podemos ambicionar uma estratégia de projecção global no sentido quinhentista e seiscentista, nem mesmo uma pálida imagem. Não podemos “reconstruir” essa dimensão de «hard power». O tempo não volta para trás. O que podemos é reconstruir o simbólico histórico, e desenvolver o nosso peso “imaterial”, como modelo de flexibilidade geo-estratégica. As próximas décadas vão ser de grande turbulência geo-estratégica, oportunidades não faltarão para o exercício da tal flexibilidade de que falamos. Se uma geração de políticos e activistas portugueses desenvolver nos próximos 20 anos essa ideia do valor simbólico e aprimorar as artes da flexibilidade geo-estratégica poderá ser um actor nos confrontos das próximas décadas. É um capital de conhecimento singular que poderá dar às competências europeias. Será, provavelmente, o nosso maior «apport» ao espaço europeu e às suas estruturas políticas do futuro.