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Dossier

2008/02/26

Entrevista a José Contente, Secretário Regional da Habitação e Equipamentos

A Estação de Rastreio de Satélites de Santa Maria “coloca os Açores na rota espacial” e é uma primeira etapa para que, de um modo sustentado, a Região dê passos seguros para a concretização de um novo pilar da economia regional – as novas tecnologias da informação e do conhecimento. O Secretário Regional da Habitação e Equipamentos, José Contente, partilha com a Espacialnews, numa entrevista exclusiva, as ideias do Governo Regional do Açores para qualificar e modernizar a Região e aborda os novos projectos de alta-tecnologia que estão a ser implementados, em particular o Centro de Monitorização e Vigilância Marítima do Atlântico Norte, uma iniciativa da empresa portuguesa líder de infoware, a Edisoft, com uma importância global, dado o relevante contributo para um melhor conhecimento do oceano.


Que importância tem para os Açores a instalação da Estação de Rastreio de Satélites da ESA na Região?

Este é um projecto estruturante que abre novas oportunidades e desafios aos Açores e também ao país. É o primeiro projecto da ESA em Portugal. Neste caso concreto, inicia-se uma caminhada que os açores pretendem trilhar para a consolidação de um novo cluster de economia que tenha por base as tecnologias espaciais e os sistemas de engenharia de alta tecnologia. Este projecto coloca os Açores na rota espacial.


Podemos dizer que os Açores estão a afirmar-se como o ponto de ligação de Portugal com o Espaço?

A vocação euro-atlântica do país e, em particular, dos Açores, diferenciadora na Europa, cumpre-se com projectos desta natureza. Estamos, pois, a afirmarmo-nos de um modo prático, de um modo que traga emprego qualificado e futuras receitas. Os Açores afirmam, materializam, a sua posição geoestratégica, a sua localização privilegiada no meio do Atlântico. Este foi, aliás, um dos factores de atractividade que fizeram a ESA vir para Santa Maria.


Que esforços estão a ser desenvolvidos, além dos projectos já anunciados, por parte do Governo Regional, nesse sentido?

Nós sempre defendemos que não basta a Portugal falar muito do Livro Verde dos Oceanos, ter a Agência Europeia de Segurança Marítima, falar do Programa Internacional dos Oceanos e falar da sua vocação marítima e, depois, não apostar em projectos concretos que correspondam à materialização dos princípios defendidos. Nós estamos, neste caso, sem falsas modéstias, a dar o exemplo ao país nesta matéria.

Como sabe, tivemos uma caminhada coroada de êxito que transformou uma estação de rastreio de satélites, à partida móvel, numa estação permanente. A partir daí, criaram-se oportunidades para que a tecnológica portuguesa, a Edisoft, ao lado das instalações da ESA, com as sinergias do equipamento da ESA, pudesse instalar o Centro Nacional de Monitorização e Vigilância Marítima que é outro projecto fundamental para afirmação de Portugal no meio do Atlântico e para a ocupação não só desse espaço marítimo, mas também do próprio espaço global, num sentido mais vasto. Os Açores acabam por cumprir esse desiderato em termos nacionais.

É o Governo Regional que vai apoiar financeiramente a instalação do Centro Nacional de Monitorização e Vigilância Marítima. É um contributo que damos ao país, mas também a toda a zona do Atlântico Norte que convém que seja vigiada, não só na nossa Zona Económica Exclusiva.

Este é também um projecto muito interessante do ponto de vista económico, com a Edisoft a ter já um contrato com os Estados Unidos para o fornecimento de dados recolhidos por este centro.

Os dados deste Centro serão transferíveis para uma empresa que está a ser criada na Ilha de São Miguel. É também uma oportunidade para a Universidade dos Açores, para o Instituto de Inovação Tecnológica dos Açores, na medida em que permite formar quadros nesta área técnica dos sistemas de engenharia de alta-tecnologia. Nós sabemos que essa empresa, que já tem nome registado, a Azores Space, vai ser constituída pela Edisoft, pela INSA e pela Segma, do grupo EDA. Esta empresa procura já instalações, depois será instalada no parque tecnológico a construir na Lagoa, mas trata-se de um projecto que tem já matéria para se desenvolver, e estamos, uma vez mais, a falar de emprego qualificado e de receitas para a Região, na medida em que esta empresa estará cá sedeada. Estamos a afirmar o cluster da economia do mar através de projectos concretos.


E qual tem sido o apoio dado pelo Governo da República?

Nós não ficámos parados com a instalação da Estação de Rastreio de Satélites de Santa Maria, nós começámos a trabalhar noutras frentes e estamos também sempre, de um modo sustentado e com a humildade necessária nestas áreas, a dar passos seguros para a concretização daquilo que gostaríamos que fosse o novo pilar da economia regional – as tecnologias, a par do turismo e da agricultura. O Governo da Republica, devo dizê-lo, no caso da Estação da ESA, através do Ministério do Ensino Superior, Ciência e Tecnologia, foi nosso parceiro e interessou-se pela primeira instalação e nós, pela nossa parte, começámos a fazer o resto. Nós também temos outro projecto, pertencemos, actualmente ao core group, de uma associação europeia das Regiões que utilizam tecnologias espaciais, o projecto NEREU, e isto deveu-se a uma atitude próactiva do Governo dos Açores.


Estão já previstos novos investimentos ou existe uma ideia do tipo de investimentos que o Governo Regional quer captar?

Nós temos uma agência de captação de investimentos externos na Região Autónoma dos Açores que tem projectos de diversas a áreas de actividade e dá vários incentivos para captar investimentos ligados a áreas de ponta, inovadoras. O governo Regional está plenamente mobilizado para captar investimento externo, para trazer mais-valias para a Região, no sentido de serem os privados, agora, a dinamizarem, cada vez mais, a economia regional. Neste caso concreto das tecnologias espaciais, tem sido a SRHE assumir esta caminhada a partir do embrião que foi e é a Estação de Rastreio de Satélites.


Que papel podem vir a ter os novos equipamentos de alta especialização tecnológica e a nova empresa Açores Space no processo de modernização e qualificação dos Açores?

Vou dar-lhe um exemplo daquilo que pode vir a suceder nos Açores. A estação da ESA junto a Madrid, segundo o seu director, começou por ser uma pequena estação e hoje em dia tem já 250 técnicos altamente especializados, com a estação a adquirir novas valências ao longo dos anos. Ou seja, nós estamos no início daquilo que eu chamo de uma caminhada de qualificação de recursos de oportunidades que se põem pelo contacto com estes sistemas de engenharia de alta-tecnologia e isto corresponde a um conjunto consistente de desenvolvimento tecnológico. Daí que reputemos por fundamental todos estes projectos, que devem estar sustentados na base da qualificação e isto também é um novo desafio e uma nova oportunidade para a Universidade dos Açores.

A modernização e qualificação dos Açores são fundamentais e já ocorreram. Os engenheiros da Segma são os que operam, juntamente com a Edisoft, a Estação ESA em Santa Maria e para isso tiveram de receber formação altamente especializada nos centros avançados da ESA, de modo a estarem preparados para operar esta estação. E isto já é uma qualificação de uma empresa açoriana do domínio das engenharias de alta-tecnologia. Estes engenheiros ganharam o know-how e os Açores ganham também no sentido de termos uma empresa com pessoas capazes.


Até porque em todos estes projectos há uma forte ligação à Universidade…

A própria Azores Space já pediu ao Instituto de Inovação Tecnológica e à Universidade pessoas que possam trabalhar nesta nova empresa. Ora, isto é uma nova porta para podermos caminhar num processo de qualificação de recursos humanos e permite dar um sentido de modernidade à nossa região.


É legítima a ambição de que surja nos Açores um pólo espacial à semelhança do exemplo que deu em Espanha?

Nós cremos que sim. E tudo faremos para que isso aconteça, ao ponto de termos espaços delimitados perto da estação de Santa Maria e noutros locais fundamentais, de modo a implementarmos rapidamente esse novo cluster de economia regional. Os parques tecnológicos são uma realidade que está a concretizar-se nos Açores. Cabe aos Açores garantir as condições de atractividade, em termos de impostos, pelo estímulo de parcerias locais, entre empresas, e também o Governo participará nesse esforço de modernização, dentro das nossas possibilidades. Não ficamos à espera das empresas… Somos pró-activos e oferecemos-lhes as condições para que queiram cá instalar-se.