HomepageNotíciasAssine a NewsletterConsultar edições anterioresContacte-nosVisitar o Inteligência Económica

Decisores

2008/03/11

Sérgio Campos aponta a“Defesa”
como via para o “salto tecnológico”



A Indústria de Defesa deve ser vista como um decisivo “vector de desenvolvimento económico nacional”, alertou o presidente da EMPORDEF, Sérgio Campos, numa intervenção que teve lugar no seminário “Infra-estruturas Nacionais Críticas e Sectores de Interesse Económico Vitais: Prevenção, protecção e resposta às ameaças”, organizado pela revista “Segurança e Defesa”, nos passados dias 19 e 20 de Fevereiro de 2008.

O responsável pela holding estatal fala, nesta comunicação a um público de especialistas e decisores, sobre o papel da Indústria de Defesa na Sociedade do Conhecimento, aborda a experiência da Empordef, centra a questão do reequipamento das Forças Armadas nas suas implicações para o desenvolvimento do País (ou seja, a necessidade de projectar este reequipamento como um investimento e não como a tradicional “despesa”), enuncia os objectivos para esse reequipamento e fundamenta a sua necessidade.

Seminário promovido pela revista “Segurança e Defesa” O seminário “Infra-estruturas nacionais, críticas e sectores de interesse económico vitais: prevenção, protecção e resposta às ameaças”, organizado pela revista “Segurança e Defesa”, nos passados dias 19 e 20 de Fevereiro, em Lisboa, reuniu um vasto conjunto de grandes especialistas nacionais para falar das vulnerabilidades e riscos para a Segurança do país (ver programa).

"Quisemos organizar, com a preciosa coordenação do Dr. Figueiredo Lopes, e dar maior divulgação pública, através deste seminário, a um importante e momentoso tema, trazendo grandes especialistas nacionais para darem as suas diferentes perspectivas relativamente à identificação de vulnerabilidades, ameaças e riscos para a Segurança nacional (embora com a natural e necessária reserva, no que toca a informações específicas)”, explica José Manuel Anes, director da publicação trimestral, em declarações à TDSNews.

O responsável salienta o sucesso do evento, o interesse e pertinência das intervenções dos oradores convidados. “Esta iniciativa dá um contributo importante para a discussão da actual situação do país, em termos de Segurança, em particular no que concerne às infra-estruturas nacionais, críticas e aos sectores de interesse económico vitais”, afirma José Manuel Anes.

As comunicações do seminário serão publicadas, em Março, no próximo nº. da revista “Segurança e Defesa".

Sérgio Campos demonstra que as tecnologias de defesa e segurança representam a oportunidade de o País conseguir o tão ambicionado e imprescindível “salto tecnológico”, pois, salienta, estas tecnologias são sempre “dual-use” e, rapidamente, fazem a sua difusão no tecido económico e que a “Defesa” é o caminho mais rápido e eficaz para o País atingir os pretendidos patamares tecnológicos (que de outro modo ficarão sempre como uma miragem). Claro, isto supõe e implica uma colaboração cúmplice e inteligente entre decisores políticos, indústria e hierarquia das FF.AA…

A INDÚSTRIA DE DEFESA NA
SOCIEDADE DO CONHECIMENTO


AS FFAA sempre estiveram no início da utilização de novas tecnologias. Sempre foram motores do progresso e consistentemente, sempre foram criando novos objectos tecnológicos que, frequentemente, depois se impunham à sociedade civil.

Tal só foi possível enquanto as potenciais ameaças justificavam o dispêndio, sempre exponencial, de verbas astronómicas no desenvolvimento de sistemas que não eram replicados ou, sendo-o, eram igualmente vendidos também por elevado valor.

O contrasenso é que, no actual quadro geoestratégico internacional, as necessidades, sendo diferentes, são também cada vez maiores. Desde os próprios sistemas de gestão de tempo de paz, que têm de substituir os homens já que, na ausência da conscrição, os voluntários e contratados são normalmente em número escasso, e representam custos excessivos na utilização em determinadas tarefas antes desempenhadas por pessoal em Serviço Militar Obrigatório.

Idêntica situação se coloca relativamente aos sistemas das diferentes plataformas de combate, cada vez mais automatizadas em resposta à diminuição das tripulações.

As tecnologias que já hoje se impuseram nos sistemas militares, não se situam em continuidade, nem com a mesma lógica, relativamente às anteriores. Traduzem, de facto, uma rotura com o passado, representando uma viragem importante e, pela primeira vez, não resultam apenas das evoluções no domínio da tecnologia, mas também - e sobretudo - de limitações orçamentais.

Têm sido, agora, as tecnologias e as práticas de utilização predominantemente civil a influenciar as militares. A tendência, nesta matéria, é realmente o duplo uso.

Ou seja: os mercados antes reservados apenas a alguns, poucos, players, abriram-se a empresas de menor dimensão, desde que detentoras de capacidade tecnológica.
Também os Estados passaram a actuar de outra forma, face a estas novas realidades, protegendo o que podia ser protegido, dentro das suas fronteiras.

Em Portugal, existe um primeiro problema que parece ainda não ter sido suficientemente encarado por todos os que se encontram envolvidos no processo de decisão. É que, nesta indústria, ou se vende no País, ou então é praticamente impossível vender noutros mercados.
Neste domínio, salvo raras excepções, não tem havido uma cultura de assumpção de risco, por parte dos decisores.
É que, o que está em causa não é apenas o problema do REEQUIPAMENTO DAS FORÇAS ARMADAS, nem em si O PROBLEMA DA INDÚSTRIA DEFESA. O que está em causa é, sobretudo, UM VECTOR DE DESENVOLVIMENTO ECONÓMICO NACIONAL.

E aí, todos teremos de sentir-nos responsáveis.

A forma como os decisores nacionais têm abordado a questão do reequipamento das Forças Armadas, tem trazido como consequência a manutenção forçada de uma estrutura empresarial pulverizada, sem massa crítica de referências que lhe permita actuar consistentemente a nível internacional.

Os decisores que têm actuado desta forma têm a responsabilidade histórica de ter impedido que as nossas empresas se possam afirmar claramente no mercado internacional, exactamente por limitação de referências nacionais.

O regime de contrapartidas, por outro lado, poderia ter desempenhado um papel significativo no desenvolvimento da nossa Indústria de Defesa, o que não aconteceu. Neste domínio, já se viu um pouco de tudo o que seria impensável ver.

Reconheço os esforços positivos que estão a ser feitos actualmente neste domínio, mas receio que seja tarde.

O Plano Tecnológico constitui um dos pilares da implementação da Estratégia de Lisboa em Portugal. Nele se congregam os seus desafios mais marcantes: a aposta na sociedade do conhecimento, o aumento dos níveis de competência, o desenvolvimento científico e tecnológico e o estabelecimento dum processo de aprendizagem ao longo da vida.

A sociedade do conhecimento baseia-se na elevada qualificação dos recursos humanos, na crescente qualidade do emprego e no acesso generalizado à informação, tendo intrínseco um novo paradigma assente na constante inovação de métodos, processos e produtos, com uma crescente incorporação de capital intelectual.

Dentro desta agenda, as indústrias de Defesa podem desempenhar um papel fundamental.

É bem conhecido o “apport” que a Investigação, Desenvolvimento e a Inovação na Área dos Sistemas de Defesa tem trazido para o avanço da Tecnologia, em outros contextos societários; seja de um modo directo - todos sabemos que as indústrias de Defesa constituíram sempre uma base de desenvolvimento tecnológico - , seja de um modo indirecto focalizando a gestão de contrapartidas de maneira a que se possam criar pólos de inovação e desenvolvimento em Portugal.

Para mais, a Indústria de Defesa é uma indústria de muito elevado valor acrescentado quer directamente, quer pelo seu efeito difusor sobre toda a economia.

No entanto, só uma mudança profunda na abordagem destas questões, por parte dos diversos decisores envolvidos, poderá permitir a afirmação da indústria nacional relacionada com a Defesa e a sua contribuição positiva para a economia nacional.

Só uma aliança bem estruturada entre Governo, Forças Armadas e Indústria nacional, em que as responsabilidades de todos se encontrem perfeitamente clarificadas, poderá dar corpo a uma estratégia de afirmação da indústria ligada à Defesa.

Como instrumento igualmente fundamental, surge o investimento público no âmbito da Lei de Programação Militar, para permitir simultâneamente modernizar as Forças Armadas e dar uma oportunidade de envolvimento sério da indústria nacional, que projecte a sua inserção nas cadeias de valor internacionais.

Mas, mais do que isso, esta será a única via para a independência possível das Forças Armadas face aos diversos constrangimentos que nunca deixarão de as envolver, no quadro sempre presente da sua modernização.

Ou seja, apenas uma verdadeira "cumplicidade" entre os diversos responsáveis ministeriais, Chefias Militares e EMPORDEF (Empresa Portuguesa de Defesa), pode conduzir a resultados animadores, em torno de objectivos nacionais.

É que, por força dos mecanismos que enredam toda a actual forma de abordar o assunto da modernização das Forças Armadas, viveremos todos (FFAA e Indústria) na eterna esperança; na eterna esperança de sermos um dia como "os outros". Porém, essa esperança perpetuar-se-á, como aliás tem vindo a perpetuar-se, porque o controlo dos mecanismos tem-se-nos escapado.

Para terminar, com esperança ... veja-se o caso de uma acção pró-activa, sem lamúrias ...

Que a responsabilidade do País sobre uma vasta área do Atlântico necessitava urgentemente de novos instrumentos, ninguém porá em dúvida...

Tal constatação levou-nos, na EMPORDEF, a avançar para um investimento orientado para o fornecimento desses instrumentos às autoridades portuguesas.
Isto é, investimos na Observação e Monitorização do Atlântico através de satélites.

Se não ocupássemos este espaço, alguém o faria !
O posicionamento geoestratégico dos Açores é incontornável, e não poderíamos abdicar de exercer, a partir desse posicionamento, a exploração da nova fronteira humana para demonstrar a excelência da nossa engenharia, e a afirmação do nosso País nos novos mercados de Observação Remota do planeta Terra.

Há, portanto, que assumir que existem importantes capacidades nacionais em diversos domínios das tecnologias associadas à Defesa. Aos diversos decisores envolvidos no processo de reequipamento das Forças Armadas apenas se pede que encontrem os caminhos adequados para que sejam usadas.


Em benefício de todos mas, sobretudo, em benefício do País !

Sérgio Campos, presidente da EMPORDEF