Focus2008/10/21
Olhos de caçador : a força imperfeita e (in)visível da Guerra Colonial
| António Brito, marketeer e argumentista, quis contar a história da guerra colonial que opôs a força militar portuguesa e a guerrilha em Moçambique, de forma nunca antes contada. O resultado foi o retrato fiel dos homens que partiram a bordo do Niassa para uma terra estranha, onde tomaram contacto com a guerra e a morte, muitos deles pela primeira vez e última vez. |
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Ao longo das 406 páginas, Olhos de Caçador revelam (ou relembram) quem foram os combatentes da guerra, mostra-nos homens que não são perfeitos, muitas vezes rudes e rufias, que fizeram a guerra e foram capazes dos actos de maior coragem e humanidade. A narrativa trata por "tu" os soldados da Companhia, as suas conversas e medos, o seu quotidiano, numa prosa realista e crua, trazendo uma humanidade à Guerra Colonial pouco vista em livro.
O protagonista, Zé Fraga, conta-nos as memórias de guerra, o seu passado áureo de lutador desvanecido na vida de mendigo em que agora se encontra. Contrabandista de fronteira antes de ser mobilizado para a guerra em Moçambique, Zé Fraga torna-se uma referência de coragem e liderança para os companheiros de luta. Uma ficção de guerra baseada em vivências reais…
"Passou muito tempo desde que matei um homem pela primeira vez. Na minha cabeça, embotada pelo vinho e pelo peso dos anos, recordo com uma ponta de vaidade o destemor do meu golpe, o ar de espanto, a incredulidade do filho da puta em que enterrei a navalha varando-lhe as tripas. Com o impulso dessa naifada o corpo resvalou para o chão, dele brotando soluços de sangue como numa torneira avariada. Nessa época tinha a cabeça cheia de certezas e matar alguém era um acto viril, um gesto de atrevimento que nenhuma lei me impedia de executar. Tão diferente dos dias de hoje, em que qualquer sopro de vento ou bandalho de quinze anos é suficiente para me derrubar e atirar aos cães."
António Brito serve, numa rara prosa escorreita, uma história que é urgente redescobrir.
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