Especialistas portugueses afirmam que a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) está a falhar na afirmação conjunta das nações lusófonas no Atlântico Sul, área de crescente importância estratégica, num hemisfério onde o português é a língua mais falada.
José Adelino Maltez, professor do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas (ISCSP), defende que o primeiro problema é a falta de meios da CPLP. No entanto, Portugal também tem como papel alimentar uma "nova visão do Brasil sobre África" e deve aceitar dar primazia aos brasileiros, "colocando-se no seu devido lugar para poder melhor servir um projecto maior".
"Somando 200 milhões de brasileiros, com os futuros 50 milhões de angolanos e os futuros 20 milhões de moçambicanos, nós [Portugal] somos um entrepostozinho do sul na Europa. Temos de rever toda a nossa maneira de pensar, como foi expresso de maneira lamentável por todas as reticências em relação ao acordo ortográfico", disse, em declarações à Lusa, à margem do colóquio "A Política Externa Brasileira e as Relações com Portugal e os Países Lusófonos", organizado pelo Instituto da Democracia Portuguesa na Embaixada do Brasil.
"Parece que não se percebe que [a CPLP] não são os Estados Unidos da Saudade. É a pilotagem do futuro no balanço da globalização (...). Basta perguntar quanto gasta cada país da CPLP no orçamento". Apesar das dificuldades, "estamos condenados ao regresso de algum triângulo estratégico Luanda-Lisboa-Baía/Rio de Janeiro/São Paulo" e o Brasil "tem um papel de destaque" na cena internacional, até porque quando "fala forte nos palcos internacionais está a representar-nos a todos", acrescentou o académico.
O general Garcia Leandro, presidente do Observatório da Segurança, Criminalidade Organizada e Terrorismo, vê a CPLP como "frágil, em construção lenta", numa fase de crise mundial em que os acontecimentos estão a evoluir com grande rapidez, criando novas oportunidades.
"Esta crise internacional é a revolução mais dramática desde a revolução industrial. O poder vai redistribuir-se porque há potências emergentes. É uma grande oportunidade e o Atlântico Sul tem um potencial estratégico próprio, pelas suas próprias riquezas e temos dois grandes poderes mundiais interessados no Atlântico Sul – Estados Unidos e China", afirmou o ex-chefe de Estado-Maior do Exército.
Garcia Leandro defende que Portugal pode usar melhor os seus recursos, mas tem também que saber envolver os parceiros estrategicamente mais fortes. "Devemos entrar neste jogo de peito aberto, mas não podemos ser só nós, temos de contar com esforço de Brasil e Angola".
Armando Marques Guedes, professor da Universidade Nova de Lisboa, considera, por seu turno, que a dificuldade está também "no projecto originário da CPLP, que é um projecto político-cultural, no essencial", descurando componentes como a económica, importante na afirmação do Atlântico Sul, muito relacionada com as reservas energéticas do Golfo da Guiné.
"A transformação é boa, tem uma janela de oportunidade, depende de Portugal e do Brasil. Agora só Deus sabe se está nas cartas isto acontecer". Será mesmo "extraordinariamente difícil" enquadrar de forma institucional Brasil, Portugal e Angola na organização, mas a afirmação no Atlântico Sul "não é tão descabida quanto parece", considera.
"A participação portuguesa em intervenções militares de manutenção de paz no Congo e em Angola, liderados por portugueses no caso do Congo, é uma coisa histórica, com grande importância. Portugal tem credenciais acumuladas nesta área. Portugal pode, se a NATO começar a ter intervenções militares mais robustas, como tudo indica (...), ter uma espécie de direito de território relativamente a África, aceite pela União Africana. A questão é trazer o Brasil para colaborar, porque Angola é uma potência", conclui.

