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Tendência

2009/05/28

Pequim aproveita crise para ganhar influência

A China está a aproveitar a crise económica mundial para ganhar um peso crescente no tabuleiro geopolítico e geoeconómico, aproveitando as fragilidades actuais das outras grandes potências, mais fragilizadas e centradas na resolução dos problemas financeiros internos e, no caso particular dos EUA, no combate ao terrorismo.

Enquanto Washington centra o seu olhar global no Paquistão, no Afeganistão, no Irão e na Coreia do Norte, Pequim tem aproveitado para reforçar o seu papel de parceiro fundamental em África e na América do Sul, onde os investimentos chineses chegam em força, graças a uma larga folga orçamental, proporcionada pelos últimos anos de forte crescimento económico (que, apesar de ter abrandado, continua a existir).

A China adopta hoje uma postura estratégica que usa a crise como cenário justificativo de medidas que visam, realmente, substituir-se aos EUA como locomotiva da economia global e impor ao mundo o modelo chinês.

Desde há vários anos, a penetração chinesa na América Latina é visível em países como a Colômbia, Cuba, ou Brasil – cujas exportações de ferro e aço aumentaram, no primeiro trimestre, quase 50 por cento, no quadro do interesse de Pequim em "secar" o mercado mundial destas matérias-primas.

A crescente influência de Pequim na gestão corrente dos países da América Latina chega disfarçada de fortes investimentos em sectores estratégicos, que relegam para segundo plano as restantes potências, incapazes hoje de alimentar de um modo tão eficaz as economias desses países.

Em África, tornou-se habitual a presença de chineses, assistindo-se à emergência de uma "Chináfrica", segundo alguns autores. Capital e mão-de-obra chinesa povoam as cidades de países como a Etiópia ou os Camarões, onde o dia-a-dia se faz ao som do mandarim e do francês.

Num artigo recentemente publicado no Washington Post era sublinhado que "a China afirma a sua influência no mundo jogando a seu favor a crise económica". O diário relatava o caso da Jamaica que, confrontada com uma queda livre da sua divisa, um desemprego galopante e com um sector bancário fragilizado, encontrou ajuda em Pequim, ao invés dos seus aliados tradicionais (os Estados Unidos e a Grã-Bretanha).

Nos EUA não tem passado despercebida a ambição chinesa, com a secretária de Estado, Hillary Clinton, a defender, perante uma comissão do Congresso, que o país deverá opor-se à crescente influência chinesa no Mundo.

O modelo de negócio chinês que prevalece hoje em África é a demonstração de que Pequim tem sabido aproveitar oportunidades onde os países ocidentais têm visto motivos riscos financeiros ou políticos. Por exemplo, muitos dos activos petrolíferos da empresa estatal chinesa eram demasiado pequenos para as grandes petrolíferas ocidentais. A China soube também posicionar-se como alternativa para os países africanos que já não estão interessados nos programas de ajuda ocidental, que muitas vezes exigem mudanças económicas e políticas. Pequim oferece, assim, menos ajuda e mais empréstimos e oportunidades de negócio, estando disposto a pagar mercadorias, com projectos de infra-estruturas e formação.

Ao mesmo tempo que, com dinheiro, ganha peso em África e na América do Sul, a China parece também apostada em melhorar a sua imagem junto das potências ocidentais. Apesar de, por muito tempo, a China se ter oposto às operações de manutenção de paz da ONU, por considerar que as mesmas configuravam um instrumento de ingerência nas mãos das grandes potências, Pequim tem aumentado progressivamente o seu apoio às missões das Nações Unidas.

Exército chinês rende-se às relações públicas

Notícias recentes denotam claramente que o exército chinês rendeu-se às relações públicas. Acabou há dias a formação dos primeiros 51 militares que vão "acrescer o impacto do EPL (Exército Popular de Libertação) na opinião pública e atrair a atenção dos media estrangeiros".

Numa vertente interna, a China, a par de Cuba, Irão e Coreia do Norte (esta destacada), lidera o grupo de censores e supressores de liberdade no acesso e uso da Internet, para vetar o acesso da população a informação "interdita".

Também na Defesa, a China reforça a sua capacidade. No nuclear, no Espaço e nas capacidades de ciberguerra, Pequim tem já um peso que torna esta potência numa clara ameaça. Navios de guerra, porta-aviões, submarinos invisíveis e mísseis de longo alcance estão na receita chinesa para um novo poderio militar – que inclui ainda uma super-arma, a Dong Feng 21, capaz de abater porta-aviões, actualmente indefesos face a ataques com mísseis balísticos –, com a marinha como grande prioridade, para proteger rotas marítimas, plataformas petrolíferas e recursos naturais.

Além dos esforços no tabuleiro da visibilidade global e no campo militar, a estratégia da China integra também uma aposta forte no domínio da "invisibilidade".

Vistos como uma das maiores ameaças à segurança das informações de inúmeros países, os hackers chineses têm atacado em força, acompanhados de acções reais por parte de agentes de Pequim. Ainda esta semana, de França, chegaram notícias de que os estagiários chineses da Escola Nacional de Administração fazem chegar ao embaixador todos os documentos que lhes chegam às mãos… As mãos visíveis e invisíveis da potência chinesa.