Líder2008/04/23
“Para sobreviver,
temos de ser fortes”
Israel tem, desde o início, lutado pela sobrevivência, pela independência, face à animosidade de estados como o Irão ou a Síria e face à ameaça de fortes grupos terroristas fundamentalistas que actuam na região, como o Hamas a Jihad Islâmica e o Hezbollah. Este contexto, descrito por Aaron Ram, embaixador de Israel em Portugal, obrigou Israel a apostar em elevados padrões de qualidade em todas as áreas, como o campo militar e tecnológico, para que o país pudesse afirmar-se na região e internacionalmente. Numa entrevista exclusiva à TDSNews, falamos com o representante de Israel sobre o desenvolvimento tecnológico do país, sobre a ameaça regional e global do terrorismo, da importância da cooperação e partilha de informações entre estados e das soluções para por fim ao conflito no Médio Oriente.
Israel é hoje um dos maiores exportadores mundiais de tecnologias de Defesa e Segurança. Como pôde um país pequeno, em área e em número de habitantes, alcançar esta posição?
Não estou certo de que sejamos um dos maiores exportadores, pois desconheço qual a produção nos outros países. Israel faz agora 60 anos, e desde o início estamos envolvidos numa luta pela sobrevivência. Fomos atacados logo em 48, o início da nossa guerra pela independência. Desde aí temos estado envolvidos em muitas guerras, em que tivemos que nos proteger, assegurar a nossa independência e sobrevivência. Felizmente, temos hoje muito boas relações diplomáticas e estamos em paz com os nossos países vizinhos, mas existem ainda alguns, como o Irão, que defendem que devemos ser aniquilados e temos na nossa região redes terroristas que querem destruir Israel.
Para podermos sobreviver – e note que não somos apenas mais pequenos que Portugal, somos mais pequenos que o Alentejo – temos de ser fortes. Por este motivo desenvolvemos um bom exército com bom equipamento, muito deste adquirido no estrangeiro, que depois adaptamos às nossas necessidades específicas, como os F16. Mas apostamos na produção de alta tecnologia.
O desenvolvimento tecnológico de Israel, numa perspectiva externa, parece ser alcançado através de uma aliança entre o sector militar, a inteligência competitiva e o sector privado. Como desenvolveu o país este modelo?
Há que ter em conta, como já referi, as circunstâncias de desenvolvimento de um pequeno estado que se tem de defender e lutar pela sua sobrevivência, pela sua independência, face à animosidade e ameaça de estados como o Irão ou a Síria e, claro, face à ameaça de fortes grupos terroristas fundamentalistas que actuam na região, como o Hamas e o Hezbollah.
Em Israel temos de manter elevados padrões de qualidade, em todas as dimensões, temos de ser uma sociedade de elevada qualidade, não apenas em termos militares. Temos, realmente, de ser muito bons em tudo o que fazemos.
Quando vivemos sobre um clima de ameaça permanente temos de desenvolver soluções que nos permitam defender. Desenvolvemos tecnologias militares, mas que também têm uma aplicação civil e essas aplicações civis dão também um contributo em matéria de segurança.
Podemos dizer que, obviamente infelizmente, a instabilidade na região e as ameaças a Israel têm sido “drivers” do desenvolvimento do estado?
Não é a única explicação para o nosso desenvolvimento, mas é parte dessa justificação. A força de uma nação não está apenas na capacidade militar, nas armas que possui, temos de ter um bom sistema educativo, dar oportunidade a que os cidadãos possam desenvolver as suas ideias, a que seja desenvolvida tecnologia, num sentido geral e não apenas alta-tecnologia, somos, por exemplo, muito bons nos sistemas de irrigação. Tem de existir uma forte integração entre o desenvolvimento de alta e baixa tecnologia. Em suma, em todas as áreas temos de competir e creio que somos muito bons nisso.
Qual a importância do sector privado nesta estratégia, dado que em alguns países a iniciativa tecnológica é sobretudo governamental?
Esta é uma questão de ideologia e não estou em posição de dizer o que é melhor ou pior. Depende de cada estado, das circunstâncias. Penso que a chave está em encontrar o balanço certo entre a iniciativa estatal e privada. Existem coisas que tem de ser o estado a controlar, outras podem passar para o sector privado, mas tendo em conta as necessidades da população. De qualquer modo o sector privado é essencial, não pode ser excluído.
Que papel desempenha a inteligência competitiva (competitive intelligence) no desenvolvimento do país?
Eu não gosto da palavra intelligence, que remete para espionagem, prefiro falar de troca de informação, de dados. Acredito na necessidade de partilha de informação, porque muitas situações na vida são situações win-win, o que significa que quem faz o mal não vai estar feliz, sorriremos mais se cooperarmos. Eu terei o que preciso no meu país e vocês terão o que precisam no vosso país.
Nos negócios, e falo apenas desta área, é muito importante que haja cooperação e penso que é isso que todos os países estão a tentar fazer. Cooperar passa por trocar informações e saber o que se passa nos outros países, como está a ser feito algo.
Porque terei de desenvolver um determinado medicamento se este já existe noutro lado. Preciso de saber que dado medicamento existe e para que serve. Sei por exemplo que se está a produzir um carro num dado país, mas falta algo que eu posso fornecer e tem de haver uma troca de informação para que a cooperação seja possível.
Vivemos numa era de globalização, se estou a produzir um carro e as melhores rodas são fabricadas nos EUA, não preciso de construir as rodas, compro-as aos EUA. Hoje, toda a gente sabe tudo sobre toda a gente, é muito difícil esconder algo por muito tempo, porque as coisas estão a ser usadas. Se se quer esconder não se usa, se se usa passa a ser conhecido. Logo, estamos num mundo aberto à cooperação, à coordenação entre países, à partilha de informação, não lhe chamo intelligence, chamo-lhe partilha de informação e conhecimento.
O contexto do Médio Oriente é marcado por uma tensão permanente. Para os observadores externos, cada dia representa uma oportunidade para o conflito. Este perigo é, de facto, permanente?
Eu não acredito que algo seja permanente. Acredito que um dia alcançaremos a paz.
Estamos actualmente em negociações, como já o fizemos várias vezes no passado, algumas vezes com sucesso noutras não, com estados e organizações. Conseguimos acordos de paz com o Egipto, com a Jordânia, países com temos relações diplomáticas totais.
Não existe uma guerra permanente, qualquer dia terá fim. Temos felizmente óptimas relações com o Egipto e a Jordânia e esperamos que o mesmo venha suceder com países com os quais neste momento não temos relações diplomáticas, como o Líbano ou a Síria, e temos ainda a questão palestiniana, um dos assuntos principais, que procuramos resolver pela via diplomática. Estamos neste momento em negociações com o governo palestiniano.
Existem obviamente problemas no Médio Oriente, mas com implicações globais. Assistimos a uma luta entre grupos extremistas, fundamentalistas, como o Hamas, a Jihad Islâmica. Em Gaza há grupos terroristas muito fortes, no Líbano é controlado por um grupo terrorista. Temos um confronto entre extremistas e países moderados.
Por detrás dos extremistas está o Irão, que fornecem a doutrina os equipamentos, os mantimentos e treino de grupos como o Hamas, a Jihad Islâmica, o Hezbollah. E também a Síria dá apoio a estes grupos.
Qual é a posição de Israel?
Israel está a negociar com os moderados. Esperamos, queremos e desejamos chegar a um acordo com os palestinianos, acreditamos que a maioria da população na nossa região é moderada e tem de ser muito determinada face aos grupos extremistas, aos grupos terroristas, uma ameaça aos países ocidentais e não apenas na região do Médio Oriente.
Apesar das actividades terroristas em Gaza e dos constantes ataques contra cidades israelitas continuamos a procurar o diálogo. Nós deixámos Gaza há dois anos, desmantelámos 21 colonatos, milhares de pessoas deixaram as suas terras para que deixássemos Gaza nas mãos dos palestinianos para que estes pudessem dar inicio e desenvolver o seu futuro estado.
Deixámos Gaza na esperança de que desenvolvessem um estado próspero, mas o que sucedeu foi que os grupos terroristas tomaram conta de Gaza e estão a usar o território como rampa de lançamento de ataques contra cidades israelitas, numa base diária. Desde Maio do ano passado foram já lançados 1136 rockets contra cidades israelitas e esta é a contribuição do terror para a paz.
Isto faz parte da nossa realidade diária. Tentamos lutar de um modo muito sensível, porque não vamos voltar a colocar as nossas forças em Gaza, porque existem muitos civis e uma incursão deste género custaria a vida de muitos inocentes, que não queremos. Tentamos localizar e atingir as bases militares de lançamento de rockets, sedeadas de um modo deliberado nas cidades para que Israel, ao atingir essas bases, mate também civis. Temos tido muito cuidado nas nossas actuações dado este contexto.
Os terroristas, por seu tornam, não se importam se morrem civis, pelo contrário actuam de modo a matar civis. Lançam os seus rockets não contra alvos militares, mas contra cidades. Temos de procurar travar estes grupos terroristas, o seu armamento. Sabemos que recebem armas do Irão, por exemplo. Estão a tentar aumentar o alcance dos rockets, estão a receber treino no Irão.
Tentamos combatê-los em Gaza e na Cijordânia e, por outro lado, estendemos a paz aos moderados, com quem temos negociações. Ainda hoje houve uma reunião entre o nosso ministro da Defesa, Condolezza Rice e o primeiro-ministro palestiniano e nós acordámos fazer uma série de concessões aos palestinianos. Oferecemos equipamentos e veículos à polícia palestiniana, que está a ser treinada na Jordânia. Procuramos também cooperar no desenvolvimento de zonas económicas e ajudar ao desenvolvimento das instituições fundamentais ao funcionamento do país, como a polícia, organismos democráticos e económicos.
Continuaremos esta estratégia por que acreditamos que no fim os moderados vão ganhar, não existe outra opção.
As tecnologias de Defesa e Segurança podem ter um papel crucial na prevenção de ataques. Como podem as tecnologias contribuir para dar aos israelitas um maior sentimento de segurança?
Sempre que viajo para diversos países fico impressionado com a quantidade de tecnologias de segurança disponíveis, nos aeroportos, por exemplo, para detectar se trazemos connosco algo que possa representar uma ameaça.
Em Israel, dado o contexto, dadas as ameaças que já referi anteriormente, temos de ter muito cuidado. Como sabe, até há alguns anos atrás, a fronteira entre Israel e o território palestiniano estavam abertas, todos os dias centenas de milhares de palestinianos descolavam-se livremente, para irem para o trabalho, para irem à praia nos fins-de-semana, para se deleitarem com os prazeres da costa mediterrânica. Desde o início da segunda Intifada, os grupos terroristas aproveitaram o facto de as fronteiras estarem abertas para instalarem bombas em restaurantes, em bares, em discotecas, em todo o lado, inclusive na universidade de Jerusalém. Houve muitos casos de bombistas suicidas. Foi um período muito difícil, com mais de meio milhar de israelitas mortos e dezenas de milhares de feridos com muita gravidade… crianças, mulheres, homens perderam a vida ou ficaram incapacitados para sempre. Israel estava aterrorizada pelo terror.
Face a esta terrível realidade tivemos de procurar todo o tipo de soluções, não apenas de alta tecnologia, também de baixa tecnologia, por exemplo, colocámos obstáculos entre o território de Israel e o território palestiniano. Obviamente, os palestinianos não gostaram da medida, pois gostavam de poder deslocar-se livremente, ir a Israel, mas era a resposta necessária.
O controlo das entradas é feito por uma combinação de meios humanos e equipamentos electrónicos, para detectar bombas, por exemplo. A alta tecnologia desempenha um papel complementar aos meios humanos e às soluções de baixa tecnologia, como as barreiras físicas.
Temos falado, sobretudo, de ameaças regionais, mas, hoje, existem ameaças globais, como a al-Qaeda. Como podem os países dar uma resposta à ameaça do grupo de Bin Laden?
Entendo a necessidade dos países darem uma resposta, embora não esteja em posição de saber qual a melhor solução em termos de segurança para cada país. Em cada país saberão melhor que eu que medidas devem ser tomadas. Mas, penso que é necessária uma cooperação internacional. Como referi anteriormente, é muito importante que a todos os níveis exista uma partilha de informação, de equipamentos, que se saiba o que os outros estão a fazer. Por exemplo, as medidas de segurança adoptadas em 2001 nos aeroportos são semelhantes em todo o lado, o que mostra uma cooperação global nesta matéria, para prevenir ataques.
Quais são hoje as maiores ameaças a Israel?
Em primeiro lugar, estamos envolvidos nesta luta entre moderados e extremistas, estamos no meio do médio Oriente, temos ameaças de organizações terroristas que nos querem destruir. Existe, definitivamente, a ameaça do Irão, cujo governo actual considera que Israel não tem o direito de existir…
Acredita que um Irão nuclear é possível?
Eu tenho esperança que não seja possível, espero que o Irão não consiga obter bombas nucleares e o mundo livre tudo tem feito para impedir que isso suceda. Eles estão, neste momento, a enriquecer urânio, pode facilmente passar da aplicação civil para a aplicação militar.
As sanções das Nações Unidas significam que o mundo está consciente da ameaça e a pressionar o Irão para que não procure desenvolver uma capacidade nuclear.
O Irão é hoje uma ameaça e eu não preciso de o dizer. São eles que dizem constantemente que Israel não tem o direito de existir e estão a apoiar os grupos terroristas da nossa região, como o Hamas, Jihad Islâmica e o Hezbollah, que atacam Israel. O Líbano está cativo do Hezbollah, que recebe treino e equipamento do Irão e da Síria… E face a isto Israel está preocupada com os grupos terroristas e com os estados que os apoiam. Não temos medo, mas estamos preocupados.
A preocupação, em si, não é uma solução, mas é motivadora da procura, por Israel, de uma solução. È o que estamos a tentar fazer junto com a comunidade internacional, porque esta questão do terrorismo é um assunto global, não apenas regional.
Quando a exigência dos terroristas é a extinção do estado de Israel, acredita que é possível, num futuro próximo, um fim do conflito?
Esse é o nosso objectivo, nós não queremos a guerra. Dêem hoje a oportunidade de desenvolver alta-tecnologia apenas para fins civis, dêem-me hoje a possibilidade de transferir todo o orçamento da Defesa para a educação, eu fa-lo-ei… e seria muito bom que isso fosse possível, acredite. Mas, dadas as circunstancias, temos de ser fortes, porque se o formos os inimigos vão perceber, e espero que o façam o mais cedo possível, que lhes será impossível derrotar Israel, o nosso estado estará lá para sempre.
Temos de ser determinados, como referi a propósito do Irão, que está a desenvolver mísseis balísticos de longo alcance. Expliquem-me para que precisa o Islão de mísseis de longo alcance?
Acredito que no final o bom senso vai ser mais forte e ganhar.
Preferimos cooperar com todos os países da região, para que a região seja próspera. Isto é algo que os moderados compreendem, a maioria da população da região percebe isto. Temos problemas com grupos minoritários extremistas, mas se os moderados forem tão determinados como são os terroristas, os moderados vão ganhar. A natureza das pessoas não está na procura do conflito, as pessoas querem viver em paz, no seu dia-a-dia e eu acredito que vamos alcançar a paz.
Já existiram muitas guerras ao longo da História, na Europa houve a Guerra dos Cem Anos que acabou. Espero que esta não dure cem anos, já temos 60 anos. Nós estendemos a nossa mão à paz e temos encontrado muitos que nos estendem também as mãos e esperamos que, por fim, os extremistas se convençam que o caminho é a paz.
José Mateus Cavaco Silva & André Gonçalves Nunes
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