Líder2008/09/11
“O IDN é central na elaboração do
pensamento estratégico nacional” (2ª Parte)
O Instituto de Defesa Nacional (IDN) atravessa um período de profundas mudanças internas, com o objectivo de se tornar o principal centro de apoio a um pensamento estratégico nacional. E, tendo em conta a situação e a conceptualização actuais, a sua prioridade está na criação de um Quadro Geral de Segurança, perspectivado como uma realidade global e multidisciplinar, do qual a Defesa faz parte. Em exclusivo à TDSnews, o Professor António José Telo, director do IDN, fala dos principais desafios do Instituto na conjuntura actual, muito marcada pelas questões da cibersegurança e pela necessidade de sinergias entre privado e público, sem esquecer a abordagem à necessária ligação entre as questões da Defesa e da Segurança.
(Continuação)
O que dizia sobre a actual preocupação da Academia Militar e das Forças Armadas com os temas da guerra da informação, da inteligência competitiva e da cibersegurança é muito interessante e mostra que, mais uma vez, a instituição militar mantém todo um know-how acumulado e uma sensibilidade muito grande para as novas ameaças. Na sequência disso, há uma questão um pouco “provocatória” que é interessante levantar, sobre a fraca intensidade (não digo ausência...) das relações entre militares e empresários em Portugal. Porque essa relação existe noutros estados ocidentais, a começar nos Estados Unidos, mas também nos estados da União Europeia, com grandes vantagens mútuas. Em Portugal, essa relação nunca foi muito desenvolvida. Existe, mas é incipiente e tem uma fraca intensidade. Ora, não considera que o seu desenvolvimento seria, talvez, muito interessante, até para os próprios empresários?
Em termos teóricos, sem dúvida que é interessante o seu desenvolvimento. Em termos práticos, esse desenvolvimento está dependente, essencialmente, da percentagem do orçamento que é possível dedicar à pesquisa e investigação, porque é aí que se estabelecem os laços e as sinergias entre o público e o privado no desenvolvimento de novos saberes, novas tecnologias, novas competências e novas capacidades.
Ora, como se sabe, o que é possível dedicar à pesquisa e à investigação em Portugal é limitado. Normalmente, em termos de percentagem, verificamos que não estamos nos lugares cimeiros da União Europeia nesse campo, em termos percentuais. Seria, sem dúvida, bom que se desenvolvesse o que se gasta em pesquisa e investigação. Qualquer nova capacidade que se queira construir nesse campo terá que, necessariamente, partir da procura de sinergias.
Mas, por exemplo, estou a lembrar-me do caso de um projecto importante em termos da Defesa, o projecto 'Soldado do Futuro', que foi lançado dentro dos recursos disponíveis e possíveis e que, a partir da certa altura, chegou a um momento do seu desenvolvimento em que ou se dava o passo – e dar o passo seguinte era injectar no projecto recursos significativamente maiores – ou então teria que passar para uma abordagem multilateral. Uma abordagem no âmbito da NATO, da UE, onde, em conjunto, fosse possível construir essas capacidades.
Acontece nesse campo o que acontece na maior parte dos campos em que nós possamos pensar, nomeadamente no caso da cibersegurança... Ou seja, para Portugal é especialmente importante ter uma política de investigação com prioridades claras, pelo simples motivo que, tendo em conta os recursos reduzidos que é possível dedicar a essa investigação, eles têm que ser bem dirigidos. E não podemos ter muitas ilusões porque, no que diz respeito a capacidades centrais, elas terão que ser desenvolvidas em sinergia, nomeadamente num ambiente multilateral. Dificilmente poderemos ter a pretensão de pensar que, por exemplo, vamos desenvolver um sistema de cibersegurança só com recursos internos, não temos recursos internos suficientes, quer sejam públicos ou privados.
Agora, qualquer coisa que se faça deve, sem dúvida, procurar a obtenção dessas sinergias entre o público e o privado.
A ausência dessas energias, enfim uma existência incipiente dessas energias, não lhe parece também que é em si mesma uma vulnerabilidade estratégica?
Quando essa ausência for real, é. Falta saber, em cada caso concreto, se é verdade ou não. Por outras palavras, falta saber se seria possível fazer mais nesse campo, nomeadamente tendo em conta os recursos que é possível, em termos nacionais, dedicar a um determinado campo de investigação. É a partir da investigação, fundamentalmente, que essas realidades se constroem. E o caso que mencionou dos Estados Unidos é especialmente evidente. Essas realidades constroem-se a partir dos grandes projectos de investigação para o qual não só o Estado, com os seus laboratórios e centros próprios, mas múltiplas empresas cooperam e se integram. Atente numa realidade, que no caso dos Estados Unidos é especialmente evidente, que era a realidade anteriormente corrente nos grandes projectos: pedir investigação independente a várias empresas que depois, no sistema de concorrência, se iam eliminando até ficar uma. Agora a regra é o contrário, são seleccionadas, à partida, uma ou duas empresas para desenvolver uma determinada capacidade conjunta.
Existe agora uma tendência no teatro de guerra para uma crescente robotização. Inclusive, várias notícias dos Estados Unidos dão conta que o Pentágono está com um problema porque deu ordens para que todos os drones sejam colocados rapidamente no Iraque e no Afeganistão mas, não tem operadores suficientes. Uma das ideias estratégicas do Pentágono é reduzir cada vez mais a dimensão humana no teatro de guerra...
Múltiplas questões estão ligadas ao que diz. Confesso que não gosto muito da palavra robotização, acho que ainda não estamos nessa fase. Estamos numa fase de crescente utilização da inteligência artificial e em termos do que são tarefas mais ou menos rotineiras. Tarefas, por exemplo, de logística, de segurança ou, noutros casos, tarefas rotineiras em termos de missões. Mas a maior parte dos veículos não tripulados, principalmente os aéreos, na realidade exigem alguém que os tripule. O que acontece é que o piloto, em vez de estar no veículo aéreo não tripulado, está em terra e tanto poderá estar próximo como no outro lado do mundo. Neste caso, com sistemas de comunicações que mereçam confiança, nomeadamente baseados em satélites, isto pode acontecer: o piloto de um UAV que está a voar no Afeganistão pode estar nos Estados Unidos, por exemplo. Continua a existir uma interferência humana e uma interacção humana, o que se procura é afastar essa interferência humana da zona de perigo.
Mesmo em outros campos. Estava a lembrar-me, por exemplo, de uma das situações mais complicadas em termos humanos, que é a guerra de minas. Na guerra de minas, a tendência é entregá-la cada vez mais, em termos de execução directa, a veículos não tripulados, por razões evidentes. Embora, na prática, o veículo seja controlado à distância por alguém que sabe o que faz.
Em termos do reconhecimento e da vigilância isso também acontece. A tendência que temos é, por um lado, de esses veículos não tripulados se multiplicarem aos mais diferentes níveis. Por exemplo, o novo veículo do combate de infantaria que está em desenvolvimento – estou a falar dos Estados Unidos – já traz incorporado um veículo não tripulado terrestre ou um veículo não tripulado aéreo. Ora, os veículos não tripulados aéreos geralmente vão desde os veículos com poucos quilos até aos veículos que são do tamanho de um avião de passageiros de médias dimensões. Há todo um espectro dentro disso.
Por outro lado, nestes veículos não tripulados a tendência é também a de incluir, crescentemente, inteligência artificial. Ou seja, a capacidade não só de realizar missões rotineiras, mas de responder a situações inesperadas e, a partir da inteligência artificial, desenvolver soluções que não correspondem àquelas que estavam colocadas rotineiramente nos programas para execução. A tendência vai ser para isso também se desenvolver, como é normal.
Embora, em raras situações, seja possível dispensar o operador, mesmo que seja um operador à distância, como nas tarefas mais rotineiras e mais pesadas em termos de uma operação militar logística. Desde que haja uma rede de estradas relativamente segura e preparada, é possível criar veículos de apoio logístico que façam, sem intervenção humana, o percurso. Aí há um recurso praticamente exclusivo à inteligência artificial. Embora numa situação inesperada seja necessário que haja uma maneira de o operador ser colocado no circuito para que possa responder a essa situação inesperada.
E num exemplo dessas pilotagens à distância temos, numa perspectiva dual-use, o caso das operações cirúrgicas que já podem estar a ser feitas com mérito nos Estados Unidos com o paciente aqui em Portugal.
Exactamente. É algo que tem implicação generalizada no movimento generalizado da sociedade e que, obviamente, tem também aplicações em termos militares e de segurança.
E que cada vez mais nos coloca numa maior tendência em termos de redes de informação…
E que põe questões delicadas. Estou a lembrar-me, por exemplo, de que, quando se fala da segurança nas cidades, uma das questões mais recorrentes é a da videovigilância. Estou a falar em termos de direitos humanos, das liberdades e garantias, em termos legais. Quando há um agravamento da situação de segurança numa cidade qualquer uma das coisas que se discute é “instalamos videovigilância ou não instalamos”. È preciso ver que a videovigilância não vale nada se não houver alguém que esteja a controlar e que tenha meios de intervir.
As questões de Defesa e de Segurança passam hoje, ou não estivéssemos numa sociedade mediática, cada vez mais pelo campo mediático. O campo mediático define muito a percepção que as pessoas têm das questões. O 11 de Setembro teria sido completamente diferente se não tivesse sido transmitido quase em directo.
O 11 de Setembro foi pensado para ser transmitido em directo.
E, portanto, teria sido completamente diferente. Essa transmissão em directo foi um acontecimento global através dos media e ganhou uma dimensão que não teria se não tivesse essa transmissão mediática praticamente em tempo real. Portanto, passando a gestão desta percepção pelos media, a questão que lhe coloco é: Como é que o IDN vê esta dimensão e como é que pensa integra-la no seu funcionamento?
Mais uma vez há várias dimensões nessa questão que coloca. Uma delas é a dimensão da temática geral e da reflexão que ela merece. Ou seja, qual o papel da informação e da difusão de informação em termos de funcionamento da sociedade e em termos do campo mais particular da Segurança e da Defesa. Nesse campo, pensamos desenvolver alguma investigação, ligada justamente às mudanças que estão em curso.
Por outro lado há, ao fim e ao cabo, a ligação à esfera mediática em termos da actividade e da vida regular do IDN. Essa ligação é feita actualmente, em larga medida, ainda por meios relativamente clássicos, através da difusão das iniciativas, através da informação que procuramos manter por canais diversos e da difusão que procuramos obter das múltiplas coisas que vamos fazendo.
A preocupação que existe actualmente é dupla. Por um lado, tornar públicas e abertas a maior parte das iniciativas e das realizações do IDN. Por exemplo, uma das nossas principais actividades em termos de cursos é o curso de Defesa Nacional. É intenção que o curso de Defesa Nacional passe a integrar colóquios e ciclos de conferências que, para além de serem dirigidos aos auditores, sejam abertos. Será feita publicidade para que qualquer pessoa que queira vir assistir e participar o possa fazer, dentro da realidade cívica do Instituto.
Por outro lado, existe também a intenção, neste campo, de procurar associar os órgãos de informação em geral – e aqueles em particular que o queiram fazer – às actividades do IDN, seja em termos de colóquios, seja em termos de mesas redondas, ou outras iniciativas. Ou seja, está identificada a necessidade de estabelecer uma ligação orgânica directamente aos órgãos de comunicação para a difusão das iniciativas.
Agora, como acontece com todas as transformações, as intenções são o que são... A sua concretização vai depender das circunstâncias e do tempo também, como é evidente.
Uma última questão. O IDN não tem, tanto quanto eu saiba, nos últimos anos, – e talvez porque isso não estava no seu projecto inicial e não estava muito ligado ao modelo primordial – desenvolvido muito a área de inteligência económica. E temos aqui um caso curioso. As empresas em geral sentem necessidades, mas não têm conhecimento nem sensibilidade para o assunto. E quem tem a sensibilidade e pode ter o know-how não tem contacto com o mundo empresarial, o que gera uma espécie de situação esquizofrénica, que nos deixa particularmente indefesos e que leva a que Portugal seja uma pequena economia aberta, como há tantas outras, mas indefesa e desprotegida como não há mais nenhuma... Esta situação de esquizofrenia e de dualidade continua sem solução à vista, o que constitui, mais uma vez, um problema real da economia e da sociedade portuguesas…
Sem estar de acordo ou não com os pressupostos da pergunta, a preocupação do IDN é desenvolver um campo de investigação de novas áreas e dentro dessas áreas procurar oferecer sinergias com outras entidades públicas e com o mundo privado, a sociedade civil e o mundo empresarial também. Algumas com implicações evidentes em termos da economia portuguesa.
Por exemplo, uma das áreas que pensamos desenvolver, sob a qual queremos lançar pelo menos um projecto significativo com vários apoios, diz respeito à energia, não só em termos de Portugal, mas em termos da União Europeia. Há outras áreas também, em que a nossa intenção é fazer todos os esforços para desenvolver uma reflexão ligada a essas áreas, por exemplo no campo também das implicações das mudanças climáticas, que implicações poderão ter em Portugal e não só. É nossa intenção também, dentro de qualquer destes projectos de investigação e noutros, procurar obter apoios da sociedade civil e procurar trazer apoios de empresas.
Agora isto depende muito das mentalidades existentes nos múltiplos lados. Ou seja, não é só uma questão do sector público, mas também, muitas vezes, é uma questão do sector privado. E, como acontece normalmente, as mentalidades são das coisas mais difíceis de evoluir, mais lentas, embora volta e meia hajam estímulos significativos que as fazem dar pulos. Como agora estamos num período de estímulos significativos, pode ser que haja algo que mude um pouco mais depressa nesse campo. Pelo menos faremos esforços nesse sentido.
José Mateus Cavaco Silva & André Gonçalves Nunes
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