Líder2009/05/28
“O talento português é a nossa grande vantagem competitiva”
Terminou o tempo em que era possível fazer prospectiva, em que se estudava o que tinha acontecido no passado, se definiam determinados tipos de modelos e tendências e se projectava o futuro. O actual contexto de crise em complexidade torna o futuro imprevisível, excepto se fizermos parte dele. O Coordenador do Plano Tecnológico, Carlos Zorrinho, explica, em entrevista exclusiva à TDSnews, que, mais importante do que ter um bom stock de conhecimento, tecnologia e inovação, é necessária atitude e Inteligência Competitiva. O Professor fala ainda do talento e criatividade enquanto características estratégicas dos portugueses e das vantagens competitivas de Portugal e defende que um projecto que não se adapte à mentalidade portuguesa é um mau projecto para o País.
A Inovação é apontada como uma das chaves para sobreviver a esta crise que a economia global atravessa e que ameaça Estados e empresas… Ora, a Inovação, para ser profícua, exige que os gestores sejam também capazes de inovar nos processos de gestão de informação, exige Inteligência Competitiva. Que importância atribui a esta componente da gestão?
Terminou o tempo em que era possível fazer prospectiva, ou seja, o tempo em que se estudava o que tinha acontecido no passado, se definiam determinados tipos de modelos e tendências e se projectavam no futuro essas tendências, esses modelos.
Hoje, o contexto de crise é um contexto de crise em complexidade, porque a globalização em que vivemos é uma globalização em rede, o que torna esta crise diferente. Isto significa que o futuro é imprevisível, excepto se fizermos parte dele, se formos protagonistas do futuro e, por isso, mais importante do que ter um bom stock de conhecimento, tecnologia e inovação – e é fundamental tê-lo, pois essa é uma condição para ir a jogo – é a atitude que se tem para usar esse conhecimento, essa tecnologia e essa inovação. Com inércia, esperando para ver o que as coisas dão, dão mal. De forma pró-activa, podemos muitas vezes ter de corrigir o caminho, mas é a única maneira que temos de enfrentar a crise.
E Portugal tem capacidade para o fazer?
Deste ponto de vista, os portugueses têm a capacidade acrescida de serem flexíveis e adaptativos. Nós somos um povo que, mais do que criativo, é talentoso. E uma mudança por que me bato diariamente, nomeadamente enquanto coordenador do Ano da Criatividade e Inovação, é para que a sociedade portuguesa perceba que o talento é uma vantagem competitiva e deve ser valorizado, ao invés de ser associado à ideia da habilidade ou esperteza, que também existe, mas que gera talento desperdiçado. O stock de inovação, de tecnologia, de conhecimento é fundamental para que se faça algo com ele, não para ficar à espera que este stock nos resolva os problemas, ao invés de usarmos a nossa iniciativa.
O que a Inteligência Competitiva nos permite é, hoje particularmente, ter os sensores necessários para nos podermos adequar mais depressa que os outros. Enquanto no passado contava o acumulado de informação disponível, que nos permitia aumentar a probabilidade de projecção acertada do futuro, hoje, isso pouco interessa. O que importa hoje é ter os olhos bem despertos, ter os sensores a funcionar bem… Mas para que isto suceda temos de saber o que estamos à procura. E, portanto, a Inteligência Competitiva implica duas coisas: implica Inteligência e capacidade de competir com informação no tempo oportuno. Porque se não tivermos Inteligência, se não tivermos projecto, se não soubermos o que queremos saber, vamos tentar saber tudo sem conseguir saber o quer que seja.
Introduziu, quando falou da questão do talento, um tema muito interessante e que nunca vimos tratado a fundo em Portugal e que é o das características estratégicas dos portugueses, muito diferente das de outros povos…
Esse é um tema fundamental. Se analisarmos os projectos de sucesso que fazem parte da História de Portugal vemos que o que fazemos competitivamente são bons conceitos e não bons produtos. Mas isto não é mau, é antes uma grande oportunidade para Portugal ser o país que define conceitos que marcam o mundo. Na actualidade, temos os exemplos do conceito da Via Verde, o conceito do passaporte electrónico, o conceito do Magalhães, o conceito do modelo de gestão dos hipermercados que foi desenvolvido em Portugal e está no mundo inteiro.
Nós somos criativos e pouco organizados, logo, temos potencial para estar no centro e somos irrelevantes quando estamos na periferia. Isto é absolutamente determinante, porque a organização é a chave na periferia. Quando algumas pessoas dizem que Portugal, por ter agora problemas competitivos, tem que baixar os salários e tem que procurar alinhar-se por países que são os subcontratados, não percebem que, face às características dos portugueses, é mais simples impulsioná-los para competirem com a Irlanda do que serem preparados para competirem com o Vietname ou com a Índia, porque não faz parte das nossas características o modelo organizativo “tayloriano”, que faz a diferença nesse caso. O que faz parte das nossas características é o modelo criativo, que faz a diferença a outro nível.
Há uma questão determinante que está no facto de muita gente, ao olhar para as coisas positivas e negativas dos portugueses, achar que devemos apostar numa certa mediania, ou seja, desprezar o que já é bom e tentar recuperar o que é mau. Na minha opinião, nós temos que levar ao extremo o que é bom e acreditar que aquilo em que somos bons faz a diferença e não pensar que podemos fazer a diferença naquilo que somos maus. E quando se diz que é preciso mudar a mentalidade, essa é a maior falácia teórica que podemos dizer, porque a mentalidade de ser português é o resultado de muitos séculos de História. O que temos de fazer é perceber a nossa mentalidade, tirar partido disso e não usar sempre a mesma desculpa esfarrapada de que “o projecto era magnífico com outra mentalidade”, um projecto que não se adapte à mentalidade portuguesa é um mau projecto para Portugal.
Outra questão, que também seria bom que fosse tratada, é a identificação das vantagens competitivas de Portugal…
Em relação às vantagens competitivas de Portugal, temos basicamente vantagens que decorrem de três dimensões. Temos uma vantagem competitiva que resulta de sermos um país-rede, num mundo em rede. Portugal é um país que tem dez milhões de habitantes e cinco milhões de nacionais no exterior, tem extraordinárias relações geoestratégicas, suportadas numa forma de pensar e de viver muito associada à língua. Temos uma outra vantagem que decorre do posicionamento geográfico. Somos uma centralidade global. E temos uma terceira vantagem estratégica que tem que ver com a adaptabilidade e flexibilidade cultural.
Estas três vantagens posicionam-nos para sermos, hoje, no mundo, um nearshore extraordinário. O mundo, hoje, está organizado em rede com diversos pólos, com grandes centralidades de produção, de prestação de serviços e nós sempre tivemos na nossa História a importante característica de sermos um magnífico interface. Interface em quê? Como nearshore de serviços, temos muitíssimo potencial. Hoje, Portugal compete nessa área directamente com a Irlanda, com a Holanda; somos, por exemplo, os mais produtivos em toda a área de desenvolvimento de software. Nearshore de mercadorias, no sentido de sermos uma plataforma logística – daí que seja tão importante, tão crítica e tão mal percebida a importância da ligação ferroviária Sines-Europa em bitola europeia, que é uma coisa que me espanta, como é que as pessoas não entendem a importância estratégica dessa via de ligação, com o novo aeroporto a integrar-se também nesta ideia. Nearshore de ideias, por sermos sobretudo capazes de definir conceitos globais. E, finalmente, nearshore de pessoas. Agora, com este momento de crise, perdeu-se um pouco essa dinâmica, mas eu julgo que, cada vez mais, no futuro, as pessoas vão viver num sítio agradável, independentemente do local onde trabalham ou da empresa a que vendem o produto que estão a fazer, e, por isso, Portugal tem também capacidade para atrair pessoas que podem tornar o país numa base de trabalho para o mundo.
Com estas características podemos ter, conjuntamente com a Irlanda, a Holanda, Singapura e mais sete ou oito países que existem no mundo com estas características, um papel de interface. E é para isto que deve servir a nossa Inteligência Competitiva…
Como se explica então que, em Portugal, quer o Estado, quer as Empresas, com raras excepções, como a do senhor Eng. Belmiro de Azevedo, não dêem ainda grande importância à IC?
Isso também tem que ver um pouco com as nossas características... Achamos que desenrascamos a Inteligência Competitiva e temos alguma tendência para não formalizar ou não valorizar de modo mais formal aquilo que não é imediatamente mensurável. Agora, aquilo que é determinante é percebermos que para um país como Portugal, com a dimensão média que Portugal tem, as assimetrias de informação têm de ser positivas, porque se forem negativas tornam-nos ainda mais pequenos do que aquilo que somos.
Por outro lado, um país que tem as relações que nós temos e a confiança que criamos no mundo dá-nos todas as condições para que tenhamos uma assimetria positiva de informação. Acho que há um excelente exemplo, se o Eng. Belmiro de Azevedo é quem mais formaliza a Inteligência Competitiva e é também o empresário com maior sucesso nacional e internacional em Portugal, acho que está indicado um caminho.
O Plano Tecnológico propõe-se como agenda de mobilização para toda a sociedade, que aponta uma estratégia para promover o desenvolvimento e reforçar a competitividade do País. Uma estratégia assente em três eixos: Conhecimento, Tecnologia e Inovação. Enquanto pólos agregadores destes três eixos, que papel têm tido e que contributo podem continuar a ter os Parques de C&T neste esforço de mobilização?
Os Parques de Ciência e Tecnologia são reflexos fundamentais e determinantes do modelo de rede que queremos desenvolver com o Plano Tecnológico. Temos, em Portugal, Parques de C&T que são verdadeiros exemplos não apenas de criação de massa crítica e vibração competitiva no território em que estão instalados, como também funcionam como boas práticas para outros países. A questão fundamental é que um parque de C&T cria-se para integrar negócios, não se instala para depois se procurar negócios.
Não estamos, claro, a falar de parques de escritórios…
Precisamente… O problema é que com a ideia do desenvolvimento do Plano Tecnológico, com toda a legitimidade, muitas regiões do País têm a tentação de se candidatar a infra-estrutura dos Parques. Pessoalmente, compreendo que, às vezes, é mais fácil atrair investimentos quando já existe um parque, mas não se deve começar um parque sem que haja um conjunto de investimentos estruturantes que garantam a sua viabilidade.
O actual governo tem apostado no desenvolvimento de Pólos de Competitividade e de Clusters Sectoriais que potenciem, através do trabalho em rede, uma maior eficiência colectiva. Como vê, nos últimos anos, os resultados desta aposta?
Até ao momento, aquilo que podemos medir é a resposta muito positiva por parte dos agentes no terreno que candidataram vários Pólos de Competitividade e vários Clusters, dos quais dez Pólos de Competitividade e oito Clusters foram reconhecidos. Está, neste momento, a decorrer a fase de apresentação de projectos-âncora e também sabemos que os projectos que vão ser candidatados são de muita qualidade e de muito volume.
O que é particularmente relevante e que eu gostava de assinalar é que durante muitas décadas – em Portugal, praticamente desde o 25 de Abril de 1974 – se discutiu sobre se competia ao Estado ou aos privados promover a eficiência colectiva e escolher sectores onde as empresas se deviam agregar para competir… E nada se fez.
Com o modelo actualmente posto em prática, em que é às empresas que compete associarem-se, criarem os Pólos ou os Clusters, mas que contempla o apoio do Governo nos casos em que existe um interesse estratégico para o País, tem sido possível criar Pólos de Competitividade e Clusters Sectoriais. Eu tenho a expectativa de que, a prazo, esta medida venha a ser a mais estruturante de todas aquelas que foram aprovadas na vigência desta legislatura do Plano Tecnológico.
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