Líder2009/12/15
Portugal Competitivo
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Portugal só tem duas escolhas: ou se afirma competitivamente ou definha. A opinião é de André Magrinho da AIP, que falou com a TDSNews sobre a crise económica, os novos cenários globais e as vantagens competitivas do nosso país. O especialista em Inteligência Económica acredita que Portugal tem condições para ser competitivo, desde que crie dispositivos que permitam fazer as escolhas certas e tomar as decisões certas, em tempo oportuno, e vê nos oceanos e no espaço duas dimensões importantes do novo ciclo económico pós-crise.
Como caracteriza esta crise e de que modo pode a Inovação ajudar a ultrapassá-la?
É uma crise sistémica e traduz um processo de mutação na ordem mundial, que não podendo ser conservada nem reparada, vai conduzir a uma nova configuração. Para além do seu forte impacto nos planos financeiro, económico e social, mexe significativamente com as relações de poder à escala global, onde, entre outros aspectos as grandes economias emergentes, muito particularmente a China, ganham maior expressão como grandes protagonistas da cena internacional. Isso está patente também na perda de influência do G8 a favor do G 20.
Um aspecto que também me parece fundamental é o facto de um dos principais drivers da economia global das últimas duas décadas, o imobiliário lato sensu, em torno do qual se desenvolveu a crise do subprime e se criaram os denominados produtos tóxicos que contaminaram o sistema financeiro, sair fortemente fragilizado desta crise e dificilmente poder continuar a desempenhar esse papel de grande motor da economia global. Muito provavelmente outros sectores em torno do eixo energia-ambiente virão a desempenhar esse papel. Isto significa também que a inovação reforça o seu papel como variável instrumental na superação da crise. Aliás, há efectivamente em tudo o que se está a passar, uma forte dinâmica de destruição criativa, no sentido Shumpeteriano do termo, em que a inovação terá um papel central no novo ciclo de crescimento pós-crise.
A actual crise pôs a nu uma economia global submetida a uma espécie de alienação financeira e desviada dos seus próprios fundamentais, tornando inelutável uma profunda e global reforma do modelo global. Como perspectiva o novo ciclo pós-crise?
Na verdade, esta foi também a primeira crise da nova economia global, tendo efectivamente colocado a nu a fragilidade e a insuficiência dos instrumentos de regulação e dos mecanismos de governance, principalmente no que se refere ao sistema financeiro. O sistema de Bretton Woods mostrou ser incapaz de desempenhar esse papel e a sua reformulação é hoje um tema central nas principais instâncias internacionais.
Esta crise traduziu também o desajustamento de uma determinada visão neo-conservadora e neo-liberal da sociedade e da economia, por parte da hiperpotência americana, com uma inadequada perception management num mundo da informação e comunicação instantâneas. De facto, a crise do poder americano reflecte-se no facto dos Estados Unidos não conseguirem afirmar, na escala mundial actual, o papel estabilizador e configurador que tiveram nas crises do século XX.
O novo ciclo económico vai seguramente aprofundar todos os componentes da economia baseada no conhecimento, com uma maior clusterização entre novas tecnologias e tecnologias maduras.
Um dos principais "motores" deste novo paradigma pós-crise terá um grande eixo em torno do binómio energia-ambiente, visto quer do lado das exigências que coloca em termos de normas e condicionantes de natureza ambiental quer, sobretudo, do ponto de vista das oportunidades que cria, designadamente no que se refere ao mix energético que vai alimentar o funcionamento da economia e todo um conjunto de novos equipamentos, produtos e serviços inerentes ao desenvolvimento sustentável.
Os desenvolvimentos tecnológicos em torno das TIC, dos novos materiais, das nanotecnologias, das novas energias, das biotecnologias vão estar no centro da nova economia alimentando-a com novos produtos, bens e serviços e, consequentemente, um vasto mercado em que as empresas se devem posicionar. O espaço e os oceanos são duas dimensões importantes na economia e na equação de poderes.
Devo dizer que, na minha opinião, aquilo que inquina actualmente o debate político e económico no que se refere nomeadamente às grandes infra-estruturas e projectos associados à conectividade física e digital do território reside exactamente na insuficiência do debate sobre o que vai ser o novo ciclo económico pós-crise. Sem essa percepção é difícil perceber as funcionalidades que conferem tais infra-estruturas em relação ao acesso aos mercados.
Portugal está preparado competir nesse novo ciclo?
Portugal só tem duas escolhas no quadro deste novo ciclo económico: ou se afirma competitivamente ou definha. Acredito, no entanto, que Portugal terá condições para ser competitivo, desde que faça as escolhas e tome as decisões certas, em tempo oportuno.
Portugal terá que saber conjugar estratégias empresariais alicerçadas na informação e no conhecimento atinente aos mercados e boas políticas públicas, capazes de potenciar a acção externa das empresas portuguesas, desenvolvendo mecanismos de influência eficazes, sobretudo ao nível da diplomacia económica.
É um facto que nos últimos anos se tem verificado uma importante "injecção" de capital intelectual na sociedade portuguesa, com o contributo do Plano Tecnológico, esperando-se que isso altere significativamente o portofólio de qualificações e de competências das organizações.
Na verdade, a economia portuguesa, apesar das baixas taxas de crescimento da última década, tem operado significativas mudanças internas, no bom sentido, na sua estrutura empresarial, sendo isso já visível ao nível da balança tecnológica, cujo saldo nos últimos dois anos tem sido positivo. A cadeia de valor dos nossos sectores tradicionais como o têxtil e o calçado está hoje num patamar muito superior ao que se verificava há dez ou quinze anos. Para além de alguns grupos económicos com uma boa inserção na lógica da economia global, existem hoje algumas dezenas de boas PME de elevado perfil tecnológico, internacionalizadas, com ambição e estratégias ganhadoras. Poderão não ter ainda uma expressão significativa no PIB, mas é um bom princípio. No mesmo sentido, deve ser sublinhada a dinâmica recente de empreendedorismo associando as universidades, nomeadamente por via de spin-offs a partir das universidades, o que também é um bom prenúncio.
Nos últimos anos, deu-se uma importante "injecção" de capital intelectual na sociedade portuguesa, que altera bastante o portfólio de qualificações e de competências das organizações.
E que vantagens estratégicas e que funções específicas podem ser as nossas no novo modelo global?
No novo modelo global, é fundamental conjugar inteligentemente as vantagens políticas e económicas, sendo estas cada vez mais decisivas para a afirmação dos Estados. Creio que Rodrigues e Devezas (2007), no seu livro "Portugal Pioneiro da Globalização", fazem uma boa síntese do que poderão ser as vantagens de Portugal na economia global.
Reflectindo sobre a geoestratégia de Portugal, no seu entender colocam-se importantes desafios futuros (para a diplomacia e para a inteligência económica), aludindo à “apetência por uma geoestratégia em geometria variável”, que assume hoje um valor especial: o facto do pioneirismo globalizador de Quinhentos ter criado um acquis histórico de relacionamento original com o núcleo duro das actuais potências emergentes – China, Índia e Brasil, bem como com o Japão ou a África do Sul, uma nova categoria que inclui os motores de crescimento (China, Índia, Brasil e África do Sul - CIBS).
A par da estratégia portuguesa de língua universal que abrange diversos espaços no mundo (um facto herdado da colonização) e da pertença do país à “comunidade atlântica” (um facto herdado da Guerra Fria), o portfolio de conhecimento de mais de quinhentos anos com três dos BRIC e com o conjunto dos CIBS é uma das mais-valias portuguesas, que poderá ser transformado em elemento diferenciador de Portugal no projecto europeu. Aspecto que poderá dar ao exercício do soft power português uma dimensão globalizadora, de novo”.
Temos, hoje, um bom naipe de factores (assim os saibamos conhecer e utilizar) para definirmos uma visão adequada no que queremos e podemos ser no quadro da globalização.
Quais são as proposta da AIP-CE e que perspectiva estratégica têm para tornar isso possível?
A AIP-CE alicerça as suas propostas a partir daquilo que considera ser o principal objectivo estratégico com que se confronta a economia portuguesa: alargar e enriquecer a carteira de actividades, produtos e serviços transaccionáveis com que Portugal se expõe perante a globalização. Em face disso a AIP-CE articula as suas propostas em torno de 3 vectores:
1) uma visão estratégica e um modelo de desenvolvimento alicerçado numa estratégia euro-atlântica que complementa a opção europeia e recoloca Portugal no centro da economia mundial;
2) a prossecução das reformas estruturais, nomeadamente, a reforma do Estado;
3) um quadro de orientações estratégicas, com opções infra-estruturais adequadas, que permitam a valorização competitiva do território, reforçando a sua atractividade e o posicionamento geo-económico de Portugal no mundo.
Que pode e deve o poder político fazer, que funções imprescindíveis são as suas, num tal quadro?
Do poder político espera-se que seja capaz de afirmar a autoridade democrática do Estado na base do interesse geral, que desempenhe cabalmente as funções de solidariedade que lhe compete, fundamentais para a coesão social e, finalmente, desenvolver uma intervenção de carácter estratégico, alicerçada na afirmação competitiva da economia portuguesa no mundo da globalização.
[B]No congresso da Quidgest, "Inovação contra a Crise", deu à Inteligência Competitiva (IC) um papel decisivo na resposta aos desafios da mudança e da inovação...
A Inteligência Competitiva é uma abordagem integradora que tem por base a exploração da informação assimétrica atinente ao acesso aos mercados. Preocupa-se essencialmente com a informação que alimenta a decisão.
Sobretudo, a Inteligência Competitiva deve configurar aquilo que se pode designar por um "radar da competitividade" das empresas, permitindo-lhes desenvolverem capacidades proactivas, onde as redes, as parcerias, a gestão do conhecimento, a segurança do património informacional, os mecanismos de influência e a inovação têm um papel instrumental da maior importância.
A Inteligência Competitiva deverá permitir o alinhamento estratégico, entre as habitualmente esquecidas componentes da estratégia – como o posicionamento em termos de conhecimento e de inovação – com a do posicionamento produtos-mercados, que têm de ser incluídas e alinhadas quando as empresas reflectem sobre o futuro, como têm igualmente de ser completamente integradas no planeamento da organização.
Se é verdade que um bom dispositivo de Inteligência Competitiva é fundamental para reforçar a competitividade das empresas, não o é menos verdade como política pública, visando nomeadamente apoiar a acção externa das empresas portuguesas, com destaque para a necessidade de existirem adequados mecanismos de diplomacia económica, que, como é sabido, estão ainda bastante aquém do desejável.
José Mateus Cavaco Silva e André Gonçalves Nunes
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