Líder2010/01/22
“Queremos uma relação sustentável com Portugal”
Taiwan vai assinar um acordo de cooperação económica e comercial com a China. A TDSNews falou sobre este novo quadro regional com o representante oficial da Formosa em Portugal, Diego L. Chou, que manifesta vontade de ajudar a reduzir o défice comercial português com Taiwan e sugere que os empresários portugueses se reúnam com empresários de Taiwan para fazer negócios na China.
O presidente chinês, Hu Jintao, reuniu-se em Novembro com um alto responsável político de Taiwan, Lien Chan, e pronunciou-se a favor do lançamento de negociações para um acordo económico com a ilha. Qual a importância deste acordo?
O Dr. Lien Chan além de ser ex-vice-presidente da República da China, foi também presidente do partido no poder em Taiwan, o Kuomintang [Partido Nacionalista], liderado pelo nosso chefe de estado, Ma Ying-jeou. Lien Chan é, aliás, actualmente, presidente honorário do Kuomintang e é uma figura política muito importante e respeitada.
Antes do Kuomintang assumir o governo de Taiwan, em 2008, Lien Chan já tinha visitado a República Popular da China, na qualidade de presidente do partido, e reuniu-se com Hu Jintao por diversas vezes. Por isso os dois estabeleceram já há muito uma relação de amizade.
Na reunião da APEC, em Singapura, os dois líderes – Lien Chan participou no encontro como enviado especial do presidente de Taiwan – discutiram a possibilidade de assinatura de um “Economic Cooperation Framework Agreement” (ECFA) entre a China e Taiwan. E este é um acordo muito importante para ambos os lados.
Desde a década de 80, os empresários de Taiwan investem na China e já lá colocaram mais de 100 mil milhões de dólares. Mas, apesar de haver já uma relação comercial e económica, politicamente as duas partes não se reconhecem politicamente e os empresários de ambos os lados têm negociado sem o apoio oficial dos respectivos governos. Por isso, o principal motivo para a assinatura deste ECFA é a normalização da relação comercial e económica entre a China e Taiwan.
Os objectivos são para já apenas comercias e económicos?
Nós queremos promover relações ainda mais estreitas entre a China e Taiwan, para além da assinatura deste acordo. Aliás, este acordo não se centra apenas no comércio e no investimento económico, mas também na cooperação em outros campos. Daí ser importante para ambas as partes.
Esperamos que num futuro próximo este acordo seja assinado e após esse momento podemos esperar que as relações bilaterais, não apenas na economia e no comércio, mas também noutras áreas, melhorem notoriamente.
A Presidência de Taiwan afirmou, no entanto, que não procura a curto prazo negociações políticas com a China. Acredita que o acordo poderá impulsionar as relações políticas?
A razão pela qual o presidente de Taiwan expressou essa opinião tem que ver com o facto de sermos um país livre e democrático. Em Taiwan, ainda existe alguma percentagem da população que se opõe a uma aproximação política com a China. E pensamos que a opinião destas pessoas deve também ser respeitada. É essa a razão pela qual o senhor presidente Ma disse que num futuro próximo a negociação política não será possível.
Nós pensamos que se a China e Taiwan conseguirem continuar a melhorar e aumentar a cooperação, não apenas no campo económico-financeiro, talvez, aos poucos, esse grupo de pessoas mude de opinião. Hoje, sentem ainda uma grande relutância em aceitar a China. Porque a China ainda é uma sociedade bastante fechada, onde a liberdade é limitada e os direitos humanos não são devidamente respeitados. Acredito que com a assinatura do ECFA, por exemplo, e uma maior cooperação em vários campos a posição dessas pessoas vai mudar… E acredito porque isto é muito importante.
Em 2009, até final de Novembro, mais de 600 mil turistas chineses estiveram em Taiwan e a sua visita creio que melhorou o seu entendimento do nosso país, graças à interacção com o nosso povo. Aos poucos e poucos a nossa população irá mudar a sua opinião e atitude para com China. Acredito que é possível melhorar, passo a passo…
Como tem Taiwan resistido à crise económica mundial? Que sectores sofreram um maior impacto?
Taiwan sofreu severamente com a crise. Em 2009, pela primeira vez em sessenta anos, Taiwan teve um crescimento económico negativo e também o desemprego atingiu um máximo histórico, superior a 4%, quando por norma registávamos 1% de taxa de desemprego.
A sociedade sentiu um impacto severo na economia e essa é a razão porque o nosso governo tentou de todas as formas possíveis melhorar a situação. Claro que uma das medidas foi a abertura da ilha à China, com a criação de mais de 270 voos directos semanais e ligações marítimas a estimularem as relações económicas entre os dois países. E temos inclusive convidado empresários chineses a investirem em Taiwan, para criar mais oportunidades de emprego.
Temos apostado também na atracção de turistas de outros países para melhorar a situação económica, embora o turismo tenha sido o sector mais afectado pela crise em todo o mundo.
Mas, foi de facto muito difícil para nós… muito difícil. Estamos a falar de uma experiência inédita, ainda que a crise energética da década de 70 tenha também tido um grande impacto, dada a nossa dependência externa de petróleo (99,9%). Na altura, usámos grandes investimentos do estado para lançar obras públicas no país, com o objectivo de impulsionar a economia e criar empregos. E também fazemos esforços para desenvolver as energias renováveis.
Com a crise, as pessoas perderam a confiança no sistema financeiro. Não é que não haja dinheiro, ele existe, mas as pessoas não o gastam. Existe um pessimismo em relação ao futuro que leva à poupança e isto faz com o mercado encolha com a ausência de actividade económica. Por isso, são necessárias medidas que encorajem as pessoas a gastar mais dinheiro para que a economia recupere.
Um dos sectores da economia menos afectado pela crise foi o sector da Defesa. Como se tem posicionado Taiwan neste mercado?/[B]
Eu tenho de ser franco, não estou muito familiarizado com a situação de Defesa no nosso país. Como referência, em 1979, quando os EUA romperam relações diplomáticas com Taiwan, uma lei, a Taiwan Relation Act, foi aprovada no Congresso norte-americano e, de acordo com essa lei, os EUA comprometem-se a fornecer armas defensivas a Taiwan, em caso de necessidade de nos protegermos.
Com base no pouco conhecimento que tenho da nossa Defesa, posso dizer-lhe que a maior parte do nosso equipamento de Defesa, das nossas armas, vem dos EUA, ainda que em Taiwan façamos a produção de armas de pequeno porte, como pistolas, metralhadoras... Mas não acho que nós tenhamos feito exportações de armamento para o exterior, porque os produtos de Defesa não são o nosso forte. O que produzimos, produzimos para as nossas necessidades e não para venda ao exterior.
[B]Chegou há poucos meses ao nosso país. Quais são as suas ambições neste cargo, no que diz respeito às relações entre Taiwan e Portugal?
Penso que existe ainda um grande espaço a ser explorado entre os dois países. O comércio directo entre Portugal e Taiwan, em 2008, ascendeu a 580 milhões de dólares, dos quais 540 milhões foram exportações nossas e só 40 milhões foram ganhos por Portugal. Temos, assim, um balanço comercial positivo com Portugal de 500 milhões de dólares, um valor bastante reduzido quando comparado com os 500 mil milhões de dólares do nosso comércio externo. Ou seja, estamos a falar apenas de cerca de 0,1%.
Portugal tem um défice comercial connosco de 500 milhões de dólares e nós queremos que esse défice seja reduzido, queremos mais equilíbrio. Nós podemos importar muito mais produtos portugueses. Por exemplo, o vinho português, de que francamente gosto muito…
Desde que cheguei tive muitos almoços e jantares com amigos e na maioria das vezes bebemos vinho português, branco e tinto, e gosto imenso, gostei aliás de quase todas as garrafas, é delicioso – e não estou a ser diplomata, estou a ser profundamente sincero quando o digo. Por isso, penso que se Portugal exportar vinho para Taiwan pode ganhar uma grande percentagem do mercado, mesmo havendo já uma forte competição, com vinho chileno, espanhol, francês, australiano e também vinho dos EUA (californiano).
Em Taiwan, temos 23 milhões de pessoas e beber vinho em banquetes é uma moda. Temos ainda outra característica muito interessante, somos curiosos. Se ainda não experimentámos o vinho de um país, temos um desejo muito grande de o experimentar. Essa é uma vantagem.
Penso que os produtores de vinho portugueses deviam promover os seus vinhos no mercado de Taiwan. Todos os anos, temos várias exposições internacionais que podem ser uma montra para vários produtos portugueses. Por exemplo, no outro dia fui às compras e comprei alguns produtos têxteis de muito boa qualidade e a bom preço produzidos em Portugal, inclusive estes sapatos que trago hoje, com óptima qualidade e design. E verdade que em Taiwan também produzimos sapatos, mas Portugal tem a vantagem de ter a indústria do couro.
Sei que Portugal tem também tecnologia de ponta no sector da energia eólica e solar. Em Taiwan estamos a investir na investigação nestas tecnologias e talvez seja possível cooperarmos nesta área. Talvez os empresários portugueses possam ir a Taiwan e possa haver também uma visita de uma delegação de Taiwan a Portugal, uma troca de ideias e experiência, com empresários e responsáveis governamentais.
Esse é o seu desejo…Mas, como sabemos, há ainda uma relação difícil entre Portugal e Taiwan e, sobretudo, uma ideia preconcebida de que qualquer relação formal com Taiwan iria agastar a China. Ou seja, a relação entre a China e Taiwan coloca problemas à relação politica e económica entre Portugal e Taiwan. Face a esta realidade, que meios pode usar para se aproximar dos decisores políticos e empresários portugueses?
De certo modo, eles estão certos. Estão certos em relação ao passado, mas não no actual momento, em particular desde o ano de 2008, quando o novo governo assumiu o poder. O nosso presidente adoptou de imediato medidas para melhorar a relação com a China e Pequim também deu uma resposta positiva à boa vontade do nosso governo em dialogar. Por isso, se Pequim se está a esforçar por melhorar a relação com Taiwan, com os nossos decisores políticos e com os nossos empresários, penso que não se iria opor a que o governo e empresários portugueses tivessem uma relação mais próxima com Taiwan.
Creio que já não se justifica a preocupação dos portugueses com a reacção da China, que se prepara para assinar o ECFA connosco.
Toda a gente quer negociar com a China, claro, é um mercado gigantesto. Mas, temos de ter noção que todos os países querem uma percentagem desse mercado.
Nós, em Taiwan, temos uma vantagem. Desde a abertura do mercado chinês até hoje, passaram já 30 anos. Os empresários de Taiwan foram os primeiros investidores estrangeiros a chegar a esse mercado e investiram lá já mais de 100 mil milhões de dólares. Têm muitos negócios e muita experiência. Nós falamos a mesma língua, temos os mesmos costumes, conhecemo-nos muito bem, somos irmãos… Acho que os empresários portugueses se deveriam reunir com os empresários de Taiwan e talvez criar joint-ventures para fazer negócios na China. É o melhor modo, a melhor receita.
E os empresários de Taiwan, além da China, investiram também em muitos outros países do sudeste asiático, como o Vietname, Tailândia ou Indonésia. Ou seja, a cooperação com Taiwan pode estender os negócios portugueses à China, mas também ao sudeste asiático, e isto pode ser explorado, tal como o fizeram os vossos navegadores. Os portugueses já sabem como usar esse espírito dos Descobrimentos, e esse vosso gene que não deve ficar adormecido…
E que oportunidades se podem abrir a Portugal no mercado de Taiwan?
Taiwan é um mercado livre com mais do dobro da população de Portugal e a nossa capacidade de compra é muito grande. Somos hoje a 20ª economia mundial. E é também o 18º país a nível do comércio, com a 4º rerseva de divisa estrangeira no mundo. Isto demonstra a nossa força. A nível das tecnologias de informação estamos no 3º lugar mundial, produzimos inúmeros computadores, como os Asus ou os Acer, e também telemóveis.
Nós queremos cooperar com o vosso governo e sectores económicos. Há pouco tempo, esteve cá uma delegação de professores universitários especializados nas tecnologias da informação. Vieram ver como é dada a formação em Portugal e estiveram reunidos com a Fundação para a Ciência e Tecnologia, bem como o Ministério da Educação. Nesta área, somos fortes e podemos oferecer a nossa cooperação. Vocês têm a iniciativa Magalhães que conta com uma estreita colaboração de empresas de Taiwan.
Em suma, gostava de dizer que o nosso governo quer uma relação mais próxima e sustentável com Portugal. Nós estamos aqui, este escritório serve precisamente para procurar uma relação entre os dois países de benefício mútuo. No mundo actual, todos os governos devem procurar a prosperidade e bem-estar das populações. A procura de cooperação com países promissores e dinâmicos como Taiwan serve esse propósito, em nosso entender. Estamos cá… por isso, expresso os meus desejos de que o governo português me oiça e possamos colaborar.
André Gonçalves Nunes
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