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Líder

2010/07/01

Talentos e Gansos



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Os talentos são o bem mais escasso na economia mundial e nenhuma economia desenvolvida vive hoje sem talentos. Portugal precisa de se tornar um pólo de atracção destes talentos e dos “gansos” (os investidores internacionais voam em bando, como os gansos). “Basta trazer dois ou três ‘gansos’ que os outro vêm logo”. Quem o afirma é Félix Ribeiro, responsável pela área de Prospectiva e Informação Internacional no Departamento de Prospectiva e Planeamento, em entrevista à TDSnews, onde fala sobre a urgência do País se tornar mais produtivo e competitivo, dos caminhos a seguir e também da sua preocupação por encontrar os “gansos” capazes de ajudar a economia portuguesa.


Toda a gente, hoje, fala do problema do endividamento. De onde nos vem todo este endividamento e quais as suas razões de ser?

Eu penso que, na questão do endividamento, temos de analisar duas questões: Quem é se endivida? E quem torna possível o endividamento? Quem se tem endividado, começaria pelas famílias, tem que ver com o crédito ao consumo e com o crédito para aquisição de residência. A aquisição de residência tem uma dupla função para as famílias, porque é o acesso a um bem útil e é, simultaneamente, o acesso a um património que num determinado momento da sua vida pode ser trocado por outros activos. Desse ponto de vista, há uma parte substancial do endividamento das famílias que tem como contrapartida o património adquirido. Logo, não é em si um problema. Embora seja um património que não é muito líquido, de qualquer maneira é um património que fica. E este endividamento das famílias tem sido coberto pelo crédito bancário, mas o sector bancário tem, por seu turno, de se endividar no exterior para manter o ritmo de concessão de crédito que permita ter uma rentabilidade elevada. Na prática, a sua base de depósitos não tem crescido o suficiente para lhe dar o dinamismo necessário.

O que me parece mais importante no endividamento externo é que não permitiu alargar a base nacional para produzir produtos e serviços a vender ao exterior. Permitiu, isso sim, aumentar as importações e em certa medida permitiu às famílias ter habitação própria e património. Portanto, há um momento em que uma economia aberta como a portuguesa se ressente deste desfasamento entre o endividar-se no exterior, por via bancária, para acumular património das famílias e permitir-lhes aumentar o consumo. Isto pode fazer sentido numa grande economia como os EUA, mas numa pequena economia aberta como a nossa torna-se difícil manter de uma maneira sustentada…

Depois, claro, há o endividamento do Estado, também resultante de dois factores que são muito difíceis de conter. Um, as despesas com o Estado Social, e, outro, as despesas ligadas ao municipalismo. E por razões políticas, são muito difíceis de tocar. Logo, o Estado vai-se endividando ao nível autárquico e ao nível local, por razões que são muito difíceis de conter. Por outro lado, se aumenta muito a tributação, torna-se muito difícil obter investimento directo estrangeiro, porque a tributação das empresas é um factor importante na competitividade face ao exterior e estamos, por isso, perante um problema complicado. Em certa medida, o Estado social permite às famílias aumentar substancialmente o seu consumo, sem ter a preocupação da poupança, porque o Estado serve as funções da cobertura de risco.

Mas, este endividamento é também a expressão de uma velha incapacidade de produzir tanto como aquilo que se consome. Onde é que esta incapacidade radica?

Uma pequena economia como a nossa, relativamente aberta - já o foi mais do que é hoje - tem um grande desafio: ou gera capacidade empresarial autónoma ou atrai investimento directo estrangeiro para substituir, compensar ou completar essa capacidade. Quando a capacidade interna de produzir coisas que os outros no exterior queiram é reduzida, esta economia depende sempre muito do investimento directo estrangeiro. Ora, o investimento directo estrangeiro hoje tem muito sítio para onde ir e é, por isso, mais difícil captá-lo do que era há 15 ou 20 anos. A qualidade dos recursos humanos, a fiscalidade e a qualidade das infra-estruturas de conectividade internacional do país constituem, na prática, dificuldades à atracção. Espanha resolveu este problema, dado que a competitividade do país também não é nada de especial, vendendo terreno para o imobiliário e para responder a uma procura da Europa do Norte, patrimonial e de uso, de ter residências secundárias no sul, ao sol. E, desse ponto de vista, Espanha tem financiado o seu défice externo vendendo terra. Essa perspectiva também podia se assumida por Portugal, mas temos um território mais pequeno e os resultados em muitas zonas da Espanha dessa política também não são muito brilhantes. Por isso, não vejo que a estratégia espanhola seja um exemplo a seguir e, portanto, acho melhor sermos mais competitivos…

Continua-se muito a falar na urgência do País se tornar mais produtivo e competitivo. Como se pode contrariar a evolução económica para que Portugal possa afirmar-se como uma economia do século XXI e não continuar como do séc. XIX?

Portugal fez um esforço muito grande, de há 25 anos esta parte, de formação de recursos humanos em termos de ensino superior e, sobretudo, em investigação, com muita gente a formar-se no exterior. Esta aposta nos recursos humanos e naquilo que poderíamos designar por talento é uma aposta muito certa, mas tem um problema: os talentos são o bem mais escasso na economia mundial. Nenhuma economia desenvolvida vive hoje sem talentos. Dantes, podia viver com mão-de-obra, mas hoje não vive sem talentos. E, portanto, há uma caça mundial dos países desenvolvidos aos talentos. Se um país os forma e ao mesmo tempo não cria no seu território bases para os fixar, está a ter uma atitude generosa, mas não está, na prática, a ter uma vantagem nisso. Não se pode apostar em recursos humanos altamente qualificados, sem ao mesmo tempo fazer duas coisas: em primeiro lugar, tornar o país mais atractivo para o investimento directo estrangeiro que precisa dos talentos e, em segundo lugar, criar condições muitíssimo mais fáceis para que empreendedores portugueses se lancem. E aí há uma quantidade de coisas que tem de se alterar, a fiscalidade, a justiça, tudo aquilo de que se fala como custos de contexto, para Portugal ser mais empreendedor e mais atractivo para os empreendedores externos. Formar talentos, formar gente talentosa é muito importante, mas não atrair as actividades que permitam utilizar essa mão-de-obra é, na prática, garantir que grande parte desse talento vá para o estrangeiro, porque há uma fome de talentos a nível mundial.

Como é que se pode atrair talento e criar essa base em Portugal?

Em primeiro lugar, com investimento directo estrangeiro e, em segundo, com as start-ups e com as PME’s portuguesas. Uma coisa não é incompatível com a outra, porque o modo de atrair investimento directo estrangeiro supõe a resolução de problemas que também bloqueiam a iniciativa interna. Depois o que tem de ser financiamento específico português, que as multinacionais não precisam, também não é de um montante tão elevado, dado que não temos um manancial gigantesco de gente à procura de ser empreendedor.

Mas, referiu que para isso era necessário solucionar problemas. Tais como?

Eu acho que nós temos de ser muito mais competitivos do ponto de vista fiscal e para isso temos de ter uma reforma completa das despesas permanentes do Estado. Não é cortar, é encarar de maneira diferente o modo de satisfazer as necessidades de que o Estado é praticamente hoje o grande garante. E isto não é ser favorável à desigualdade perante esses bens, nomeadamente os bens da saúde, educação ou segurança face aos riscos… É encontrar uma maneira do mercado os satisfazer, em grande parte, com algum enquadramento, necessariamente muito grande, mas não repousando totalmente no Estado, porque me dá a sensação que isto impede uma competitividade fiscal para o futuro e sem competitividade nós não vamos atrair qualquer investimento directo estrangeiro…

Depois, eu também acho que tivemos muita sorte porque nós não descobrimos os alemães, os alemães descobriram-nos a nós e foram muito efectivos no investimento que fizeram cá no final dos anos 80, princípios dos anos 90. Os alemães transformaram o padrão das exportações portuguesas, não fomos nós que modificámos o nosso padrão. Nós também demos uma pequena ajuda… lateral. Hoje, os alemães já têm muitos mais sítios para onde ir e não estou a dizer que saiam cá de Portugal, porque não estão a sair. Quanto muito estão a falir na Alemanha… Agora, no futuro, não vão ser outra vez os alemães. Temos de encontrar outros. E para isso temos de estar com atenção ao exterior e perceber para onde está a ir o investimento directo a seguir à crise. E essa é uma tarefa muito importante. A única politica industrial que podemos ter em Portugal é a política de atracção de investimento directo estrangeiro. Mas esta é uma política que obriga a ter uma permanência, é a política económica mais importante para o Estado, e tem de ser uma preocupação permanente, não basta atrair um grande investimento e ficar muito contente. Claro que só se pode atrair se for feito um conjunto de rupturas. E essas rupturas são as mesmas que permitem que mais empreendedores em Portugal também venham à superfície.

Em Portugal, nós conseguimos arranjar um processo em que certas palavras geram uma repulsa imediata e impedem as pessoas de pensar sobre o que podia ser feito, de uma maneira civilizada. Fala-se de flexibilidade no trabalho, mas hoje o que Portugal precisa é de formar capital humano e não dar emprego a mão-de-obra, para se tornar uma economia competitiva. Não se deve gerir a mão-de-obra como se ela fosse uma mercadoria desqualificada e dispensável. Quando falo em flexibilidade do trabalho, tenho de pensar que estou a falar num país onde o problema principal, em grande parte, é a acumulação de capital humano que não foi feita em tempo útil. E falar de flexibilidade nesse quadro é diferente de falar de flexibilidade com mão-de-obra desqualificada. Quando nós falamos que é preciso olhar com muita seriedade para aquilo que nós hoje chamamos o Estado social e voltar a redescobrir aquilo que é a economia social de mercado também não estamos a dizer nenhuma barbaridade. Agora, as pessoas criam logo uma reacção tão frontal contra isso, epidérmica, que bloqueiam a solução.

Em suma, o que nós temos de fazer para atrair investimento directo estrangeiro, em muitos aspectos, é o mesmo que temos de fazer para criar maior empreendedorismo. Num caso e noutro, precisamos de acumular capital humano, formar qualificações, gerar talentos e criar um sistema de ensino que os produza. Se não o fizermos os talentos vão-se embora.

E ficamos a produzir talentos para outras economias…

Sim, e há mais. Nesta fase é tão importante atrair investimento directo estrangeiro, como é atrair, em muitos casos, talentos individuais, o que supõe o facto de não ser só a fiscalidade sobre as empresas a atrair mas também a fiscalidade sobre as qualificações. Não se pode criar uma Economia do Conhecimento se penalizarmos fiscalmente quem se qualifica mais, porque isso não faz sentido. A progressividade do imposto sobre as qualificações é um disparate, em grande parte, porque o que nós pretendemos é que as pessoas se qualifiquem. Se as pessoas quanto mais se qualificarem, mais imposto pagam, não estamos perante um sistema de incentivos favorável. E desse ponto de vista é importante nós, hoje, percebermos que a vinda de estrangeiros ou cientistas, designers, artistas, pode ser tão importante para Portugal, como a vinda de uma empresa. A vinda de uma start-up da Califórnia para se implantar na Europa a partir de Portugal pode ser tão importante como foi, a dada altura, chamar a Volkswagen para a Autoeuropa. A atracção de investimento directo estrangeiro é central na política do Estado e merece muito trabalho, muito estudo e muita preparação.

Os pólos empresariais de maior dimensão em Portugal começaram por concentrar-se num conjunto de actividades que têm o mercado doméstico como foco do crescimento, cuja competitividade assenta sobretudo em recursos naturais e ambientais de Portugal, embora vários deles estejam envolvidos em processos de investimento externo. De que modo o aparecimento e proliferação de Parques de C&T podem ajudar a inverter este cenário?

Eu acho que o único risco que existe é um parque de Ciência e Tecnologia transformar-se num investimento imobiliário. Isto porque o sector imobiliário mundializou-se, há 20 anos não era assim, e o facto do sector ser global não só se traduz em ter ciclos globais como em ter um conjunto de objectos que replica em todo o mundo. Temos o Shopping Mall, o Parque de Escritórios, o Resort integrado… Há uma quantidade de produtos que o sector a nível mundial oferece e que são investimentos imobiliários. E isto é bom… Se vierem fazer um parque de C&T em vez de só mais um Centro Comercial é muito positivo, agora, o problema principal é como dar vida ao que se passa dentro desse investimento e isso depende muito de condições externas que o parque não controla. Coisa que têm que ver com as políticas do país. Os parques em si criam um ambiente favorável, mas não resolvem os problemas circundantes. Acho que é um investimento muito importante, mas tem de ser planeado com “carne”, desde o início. Quando digo “carne”, falo da necessidade de um parque de C&T trazer atrás logo dois ou três investimentos internacionais ou uma ou duas grandes empresas portuguesas, qualquer coisa que dê sinal que é para ali que outras empresas devem confluir. Porque os investidores internacionais voam em bando e, portanto, o que temos de fazer é trazer um ou dois para uma determinada coisa, porque os outros logo vêem. Foi aliás esta a estratégia irlandesa, saber quais são os “gansos” chefes do bando que os outros seguem. Hoje temos de perceber, quais são os “gansos” asiáticos com que temos de falar, os “gansos” novos que aparecem nos EUA. E se um parque trouxer logo um ou dois desses “gansos” é logo outra coisa. Esta é uma obsessão minha, andar à procura dos “gansos”…

No caso, por exemplo, do Taguspark, as duas âncoras, universidades e empresas com grande dinamismo, são fundamentais para atrair outras empresas. Hoje, quem trouxer o primeiro indiano importante para Portugal faz o pleno. A Índia vai ser uma região do mundo fundamental, os indianos são muito mais anglo-saxónicos que qualquer asiático, e trazer um grande player indiano de um dos principais sectores dá um sinal muito importante.

Nós, há 4 ou 5 anos, trouxemos cá o chairman da Infosis e achei graça porque ele vinha com a mulher e a cunhada e disse que as senhoras queriam ir aos Jerónimos porque são muito amigas de umas senhoras goesas. Ou seja, o país tinha sol e tinha os Jerónimos. O meu colega que foi buscá-lo ao aeroporto, bem perguntou se ele não queria investir em Portugal. E a certa altura, talvez já um pouco incomodado, disse: “está bem mas ao menos responda-me a algumas dúvidas minhas sobre Portugal”. E fez apenas quatro perguntas. “Como é que os vossos jovens estão com a matemática? A partir de que ano é que escrevem e falam correctamente inglês? Quantos engenheiros informáticos formam por ano? Como é que está o vosso país de talentos?”...

Num artigo publicado na revista Prospectiva e Planeamento, perspectiva Portugal em 2025 e, em particular, questiona as funções do país no espaço europeu e cria 4 cenários…

Sim, e fizemo-lo a partir de duas coisas que são incertas em relação ao futuro e que combinando podem dar origem a quatro situações diferentes. Uma primeira incerteza é se em 2025 vamos ser atractivos principalmente para actividades que têm que ver com lazer e logística, ou se somos capazes de atrair actividades que suponham uma maior componente de engenho – engenho aqui é uma forma simbólica de falar das competências tecnológicas, das competências culturais, artísticas, de criatividade, no fundo, são outro tipo de actividades onde não é apenas aquilo que a natureza nos deu que conta, mas aquilo que somos capazes de fazer, entre outras coisas, também a partir da natureza. Porque não é claro que mesmo que nós formemos muitos recursos humanos, que tenham engenho, estes fiquem cá, portanto não tem nada que ver com o volume de gente que formamos na universidade, tem que ver com a capacidade de estar cá, de os atrair.

A segunda incerteza tem que ver com os progressos de infra-estruturas em discussão neste momento e que apontam para o seguinte: queremos aproveitar a situação geográfica do País para participar na movimentação global de pessoas (em que o aeroporto é a questão fundamental) ou temos ambições de articular portos e aeroportos (e também caminhos-de-ferro) para entrarmos na movimentação global, quer de pessoas, quer de mercadorias. Não é claro para mim, hoje, o que é que podemos ambicionar. Mas se quisermos movimentar pessoas (e aí sermos competitivos), não há dúvida que a questão mais fundamental é o aeroporto – o que não quer dizer que o TGV para Madrid não aumente o volume de espanhóis a visitar Portugal ou de estrangeiros residentes em Portugal a conhecer Espanha. Se nós quisermos atrair investimento directo, movimentação de mercadorias, temos uma coisa a nosso favor que é a combinação num espaço geográfico muito pequeno de um novo aeroporto e da proximidade de portos de águas profundas, uma convergência não muito fácil de encontrar na Europa – é típica do Benelux, na Flandres e na Holanda, não há muito outros sítios onde um grande aeroporto internacional possa estar perto de portos de água profundas. Esta conjugação é útil se quisermos atrair actividades industriais que beneficiem da mobilidade física. Se quisermos basicamente atrair pessoas, com comodismo, acolhimento, com saúde, etc., o principal é o aeroporto.

E isso dá-nos quatro hipóteses: uma hipótese que nós chamamos “Florida”, onde vamos essencialmente lutar para estar nas correntes onde passam as pessoas e para estar em actividades que têm uma forte componente turística, mas com muito engenho. Se não formos capazes de criar ou reciclar actividades que tenham esse engenho e apostarmos exclusivamente na movimentação de pessoas, estamos no cenário “República Dominicana”, portanto seremos um fornecedor de serviços turísticos relativamente mais desqualificado. Se a ambição for combinar movimentação de pessoas e movimentação de mercadorias, temos duas hipóteses: ou seremos o que nós chamamos a “costa de Espanha”, ou seja, oferecemos a Espanha os nossos portos e a nossa fachada atlântica e até alguma coisa do nosso aeroporto e, com isso, servimos principalmente a área de Madrid, sem portos, excepção feita a Valência, e nós queremos ser um complemento de Valência na fachada atlântica; ou, se quisermos ter uma ambição maior, em que o nosso território não é só aproveitado para servir Espanha, mas para servir as movimentações de grandes operadores globais, temos uma estratégia a que chamaríamos de “Flandres”, pois foi isso que a Flandres fez.

Portanto, era só a partir desta duas incertezas (engenho ou não, pessoas ou pessoas e mercadorias) que desenhámos estes quatro cenários. E nós chamamos muito à atenção para a necessidade de olhar bem para a Florida e ver a riqueza que a Florida tem em termos de variedade de actividades.

Centremo-nos precisamente nos dois últimos cenários, Florida e Flandres, onde a inovação, a ciência e tecnologia assumem particular importância. Que papel podem desempenhar os Parques de C&T nestes cenários?

Os parques de C&T, nos cenários “República Dominicana” e “costa de Espanha”, podem existir, mas não são importantes. Nos outros dois cenários, “Flandres” e “Florida”, são muito mais importantes. Conseguem atrair talentos, empresas multinacionais, start-ups externas, criar start-ups europeias, quer no cenário “Florida”, quer no cenário “Flandres”. A diferença está no facto de na Florida, as actividades instaladas serem muito mais leves, no sentido em que não precisam de andar de barco, de navios; na Flandres, há uma combinação de actividades que supõem peso e actividades mais leves – quando eu digo “leves” estou a dizer ou actividades sem peso (tudo o que tem que ver com tecnologias de informação) ou actividades ligeiras (farmácia, biomédica,etc).

Isso no cenário Florida. E no cenário Flandres?

No cenário Flandres, vejo duas coisas imediatas: uma é ver se algum construtor automóvel asiático pode estar interessado em localizar-se aqui; a outra passa por tudo o que tem que ver com engenharia oceânica para servir a bacia energética da África Ocidental – funcionar para a África Ocidental como a Escócia funcionou para o Mar do Norte, com assistência técnica de engenharia para as plataformas…. Isso é o que se chama pesado, porque é de facto uma coisa mais pesada. Só quero chamar a atenção para o facto de nós termos ainda muito para saber e para estudar sobre o mundo para podermos depois decidir com mais cuidado.

No caso da Florida, existe um importantíssimo Cluster Tecnologias da Informação, com especial presença de grandes contractors do Departamento de Defesa e da NASA, apoiado por um importante Cluster Aeronáutica/Espaço. Qual a importância particular da Defesa e do Espaço para a alavancagem da Florida como área de importante produção tecnológica?

Eu acho que, no caso da Florida, é seguramente muito importante. No caso português, estivemos a fazer há pouco tempo (e até editámos) uma série de trabalhos, “Territórios em Transformação”, em que tentamos olhar para as regiões portuguesas e começar por aquelas que podem ter mais transformação a prazo. E começámos com uma coisa sobre o Alentejo, o futuro do Alentejo. E temos quatro cenários também para o Alentejo e um deles, chave, é trazer o Branson e a Virgin para fazer um spaceport. Na altura o Branson, que vai fazer um spaceport na Suécia, andava à procura de um outro sítio na Europa dai termos posto essa possibilidade. Quem trouxer a Virgin e quem trouxer o Branson traz inúmeros californianos que estão no deserto do Mojave, aproveitando esta mudança radical que é a conquista espacial ter passado a ser um negócio privado e não um negócio exclusivamente público. Por exemplo, o número de actores variado que vai aparecer agora, ou que já apareceu, cria um cenário diferente…

Sim, aliás, com um atractivo suplementar. É que já não podemos falar só de iniciativa privada. Vai haver nos planos da NASA uma grande injecção de capital nas empresas privadas. Portanto, a iniciativa privada é suportada por capitais de investimento púbico…

Eu acho que essa mudança do panorama aeroespacial americano é uma coisa muito importante para Portugal. Agora, para trabalhar isso, é preciso preparar…


José Mateus Cavaco Silva e André Gonçalves Nunes