A indústria do Espaço em Portugal surge, sobretudo, a partir do ano 2000, quando Portugal aderiu à Agência Espacial Europeia, e, desde então, teve uma evolução muito significativa.
Neste momento, a trabalhar para o sector do Espaço, temos pelo menos doze empresas. Há outras que dizem que trabalham para o Espaço, mas apenas fizeram alguma coisa aqui e ali, ou seja, de facto, não trabalham propriamente para o Espaço.
A Proespaço representa actualmente dez e a evolução tem sido muito boa, em particular no domínio do Galileo. Neste projecto, já ultrapassámos os 100% de retorno, ou seja, da comparticipação de Portugal no programa, o que é notável para um país que tem indústria do Espaço há apenas cinco anos.
As competências estão criadas e em desenvolvimento. A nossa luta hoje, na Proespaço visa subirmos na escala tecnológica.
Se o Governo, este ou outro, e de um modo geral o Estado fizerem ou actuarem de uma forma correcta e criarem uma entidade supra ministerial, que nós chamaríamos de Gabinete Português para o Espaço, na dependência directa do Primeiro-ministro, capaz de coordenar todas as intervenções dos ministérios envolvidos no financiamento destas áreas do Espaço e capaz de fazer um lobby concertado junto da Agência Espacial Europeia e da União Europeia, a indústria do Espaço pode vir a ter um futuro brilhante, o que significaria para o país um upgrading das suas capacidades.
Que falta hoje ao país e de que modo concreto pode o Espaço contribuir para esse upgrade?
Nós continuamos muito dependentes da indústria têxtil, do calçado, das madeiras, do vinho, etc… E está na altura de ganharmos juízo e começarmos a avançar para áreas como esta, de alta elasticidade de rendimentos e de procura, porque já nos basta estarmos altamente especializados em áreas em que a elasticidade de rendimentos da procura mundial é decrescente. Se continuarmos especializados nesses sectores, em vez de termos o rendimento nacional aumentado, vamos vê-lo diminuído, que é o que tem acontecido.
Veja-se o que está a acontecer com os Países de Leste. Entraram para a União Europeia, há relativamente pouco tempo e já nos estão a ultrapassar, inclusive em termos de PIB per capita.
O que a indústria pede ao Governo não é muito.
Nós não queremos subsídios (...) Fiquem com o dinheiro (...) mas precisamos que o Governo de
facto coordene.
Nós não queremos
subsídios e, aliás, eu tenho dito isso de uma forma muito clara. Fiquem
com o dinheiro, que nós não precisamos do dinheiro do Estado e até
gostamos de pagar impostos, mas precisamos que o Governo – ao contrário
daquilo que é normal, quer neste sector, quer em muitos outros – de
facto coordene e não haja pessoas no Ministério das Obras Públicas e
dos Transportes a ir à Agência Espacial Europeia e a Bruxelas dizer uma
coisa; pessoas do Ministério dos Negócios Estrangeiros que vão lá e
dizem outra coisa, sobre o mesmo assunto; pessoas do Ministério da
Administração Interna que vão lá também dizer outras coisas ou pessoas
do Ministério das Ciências que vão lá e dizem outra coisa qualquer.Não é de uma forma amadora, num período de globalização, que nós
podemos de facto singrar numa indústria tão competitiva.
O GRICE, por exemplo, fez um trabalho notável, com a mão-de-obra
escassa de que dispunha, felizmente de grande qualidade. Mas agora, já
que resolveram extinguir o GRICE, então façam as coisas como deve ser e
criem um organismo, a que nós chamaríamos Gabinete Português para o
Espaço, na dependência directa do Primeiro-ministro, com capacidade
efectiva de coordenação do que se diz lá fora e, já agora, em que os
delegados nacionais aos diferentes programas trabalhem nesse organismo,
em vez de serem pessoas que vão desportivamente fazer um favor ao
governo português e que, quando não podem ou não lhes dá jeito, não
vão. Não é de uma forma amadora, num período de globalização, que nós
podemos de facto singrar numa indústria tão competitiva.Neste momento há já, face à realidade do país, uma capacidade instalada em termos de empresas e da indústria. O problema é principalmente não existir uma estrutura política de apoio?
Sim. Às empresas não falta capacidade. Empresas que foram criadas há cinco anos ou menos são capazes de responder a uma procura de sofisticação tecnológica, fundamentalmente na área da engenharia espacial e do software, como aquela que é exigida por parte da Agência Espacial Europeia e pela União Europeia, entidades que só entregam projectos críticos quando têm total confiança. É evidente que não é o governo português que vai decidir se há ou não confiança, porque quem sabe tecnicamente são essas entidades.
Nós temos a tecnologia, a organização, temos a capacidade de gestão. Reforço, nós não precisamos de dinheiro, nós só precisamos que o Governo funcione de uma forma coordenada e não propriamente como um governo de um país de terceiro mundo, que é a forma como funciona o governo português lá fora.
Portugal é hoje um país com algumas empresas já bastante activas no domínio do Espaço, algumas têm mesmo uma posição de relevo em alguns nichos. É este o caminho a seguir pelas empresas portuguesa que queiram entrar neste mercado, a aposta em nichos, ou é possível ir mais além?
A indústria espacial é uma indústria muito sui géneris, porque é uma indústria de grande especialização. Tão especializada, que algumas
Empresas portuguesas já tiveram a Astrium ou outros
dos grandes gigantes europeus subcontratados. Não foram eles que
contrataram, fomos nós.
pequenas e médias empresas portuguesas já tiveram a Astrium ou outros
dos grandes gigantes europeus subcontratados. Não foram eles que
contrataram, fomos nós, porque, para aquele projecto específico, a
tecnologia dominante era nossa e não a deles. Ora isto numa indústria,
a que chamaríamos normal, não acontece. O gigante contrata sempre o
mais pequeno.Nós temos hoje, de facto, uma capacidade, uma especialização tão forte que nos permite progredir nesta área, embora um mercado institucional, muito competitiva. E o que é preciso é seguir a via de especialização, com uma subida na escala tecnológica.
Para isto nós precisamos do lobby do Governo, um lobby coordenado. Nós precisamos de uma entidade, quer se chame Gabinete Português para o Espaço ou outro nome qualquer, na dependência directa do primeiro-ministro.
E isso significa que o Governo Português se comporte como se comportam os restantes governos da União…
Sim, tem de ser agressivo, conquistar para a indústria, institutos e universidades portuguesas o trabalho, com a mesma ferocidade com que a Alemanha ou a Itália… ou mesmo com mais ferocidade, porque, como nós somos os mais pequenos, temos de ser os melhores, os mais inteligentes, ou não vamos lá.
O que pode o Espaço fazer pela modernização do país e pelo “choque tecnológico”?
O Espaço pode fazer tudo. Eu diria que em termos tecnológicos é um bocado difícil e eu não consigo enumerar qualquer sector onde a evolução tecnológica seja tão aprofundada como no Espaço.
No domínio da evolução tecnológica, da modernização do país, do seu avanço, do salto tecnológico, das novas gerações de tecnologia, a indústria do Espaço é uma indústria chave.
Considera que os decisores são sensíveis à importância estratégica do Espaço?
Acho que não. Acho que sendo os decisores políticos, e é disso que estamos a falar. E, por o mercado do Espaço ser um mercado institucional com uma componente política externa muito forte, tem de haver um maior empenho.
Os políticos estão muito mais interessados em ajudar sectores – que precisam de ajuda e não estou a por isso em causa – como os têxteis ou o calçado, porque são sectores de mão de obra intensiva, logo dão mais votos que sectores de inteligência intensiva, onde há poucos votos.
Os sectores de inteligência intensiva têm ainda um outro componente extremamente importante para o país que é a capacidade de captarem trabalhadores altamente qualificados. Lamentável seria, e era o que estava a acontecer até há muito pouco tempo atrás, que num país pobre como o nosso, no contexto das nações europeias da união, se estivesse a financiar a formação de técnicos brilhantes (na minha empresa, a Deimos, a idade média é de 27 anos), para depois irem trabalhar para as empresas estrangeiras e serem lá os promotores dos lucros das empresas estrangeiras, sem que Portugal ganhasse rigorosamente alguma coisa.
Se há algo de que Portugal precisa é de formação e de gente com um nível de formação extremamente elevado, como é o caso da que trabalha na indústria do Espaço. Nós, a indústria portuguesa do Espaço, estamos a fixar em Portugal e estamos a ir buscar muitas vezes lá fora as melhores cabeças portuguesas, que de outra forma iriam trabalhar com empresas estrangeiras. Em alguns casos, vamos também contratar estrangeiros de grande qualidade.
O que está a dizer é que o Espaço é a primeira indústria em Portugal da sociedade do conhecimento?
Sim. Podemos dizer que o é, de facto.
E é um pouco na indústria do Espaço, no seu desenvolvimento, que neste momento e nos tempos mais próximos se joga em Portugal a Sociedade do Conhecimento?
Exactamente. A indústria do Espaço é a ponta da lança das indústrias tecnológicas e do desenvolvimento tecnológico do país, sem dúvida nenhuma. Há, contudo, excelentes empresas que não estão a trabalhar no Espaço e são logicamente extremamente evoluídas.
A indústria do Espaço é a ponta da lança das indústrias tecnológicas e do desenvolvimento tecnológico do país.
Mas, no nosso país,
uma indústria verdadeiramente estruturada catalizadora do
desenvolvimento tecnológico de Portugal é sem dúvida alguma a indústria
do Espaço.Isso não tem estado a ser entendido pelos nossos decisores políticos?
Não, não entendem, porque precisamente os nossos decisores políticos são políticos. Um político é um individuo que quer, após quatro anos da entrada para o poder, ganhar outra vez as eleições, e portanto anda mais preocupado com os sectores que lhes dão muitos votos do que com os sectores intensivos em inteligência, em conhecimento.
Segundo diz, a indústria do Espaço não está em rivalidade com o têxtil ou o calçado, porque não pretende subsídios, deixa isso para os têxteis ou outros que necessitem, e a única coisa que exige é realmente coerência política e organizacional. Portanto, são coisas compatíveis…
Repare, a indústria do espaço é formada normalmente por pessoas inteligentes, até porque caso contrário não podiam lá estar. Um país só prospera quando, na medida do possível, a totalidade das suas indústrias prosperam.
Nós não temos nada contra a têxtil ou calçado, o que nós dizemos é que é fundamental que o Governo preste atenção, independentemente dos votos que pode obter, às indústrias de alta elasticidade de rendimento da procura. Porque, por definição, são estas as responsáveis por uma taxa de crescimento acima da média.
Se continuarmos metidos em sectores de baixa elasticidade da procura, ou com uma tendência decrescente, o que é que nos acontece? Acontece aquilo que vemos hoje, crescemos um por cento ao ano e temos depois países como a Hungria ou a República Checa, a crescer a cinco por cento ao ano e a ultrapassarem-nos a uma velocidade absolutamente inacreditável, em termos de PIB per capita e taxas de crescimento.
Durante anos, o nosso termo de comparação era Grécia, estivemos substancialmente acima da Grécia durante um período e a partir de 95/96 viemos por aí abaixo… E já estamos atrás da Grécia uns bons pontos. Mas, o problema agora já não é só a Grécia, são também todos os Países de Leste que entraram para a União Europeia.
Se os senhores governantes – e eu não estou a falar de partidos políticos – decidem continuar a não dar ouvidos à industria, nem a reter e praticar aquilo que a indústria aconselha, aquilo que vão conseguir oferecer ao país é o caminho para a cauda da Europa a vinte e sete ou, qualquer dia, a trinta.
Qualquer dia estamos atrás da Roménia, se não temos cuidado, e isto é válido para todos os partidos. Não estou a falar deste Governo.
Há pouco falávamos, e provavelmente essa é uma das principais causas de fundo para esta situação, de não haver ainda a percepção por parte dos decisores de que o Espaço é um negócio. Mais do que ciência, neste momento é sobretudo um mercado e um mercado de oportunidades, por excelência. Aliás, se existe mercado, neste momento, onde Portugal pode competir, por exemplo, com a China, mais do que no têxtil, é no do Espaço?
Claro. Eu costumo dizer que o espaço é oitenta por cento negócio e vinte por cento investigação. Mas, aqui no nosso país isto é um bocado ao contrário. Continua a ser o Ministério da Ciência a ter o controlo total da "capela" do Espaço, quando não faz sentido nenhum ser este ministério a tê-lo.
Não pode ser o Ministério da Ciência, a
ter o controlo do Espaço até porque este não tem que perceber nada de
negócios.
O que faz todo o sentido é que o sector esteja numa entidade supra
ministerial ou, no limite, se não quiserem pô-lo numa entidade
supra-ministerial, vamos para um second best, que já é muito mau, o
Ministério da Economia. Agora, não pode ser o Ministério da Ciência, a
ter o controlo do espaço até porque este não tem que perceber nada de
negócios. Nós temos o espaço metido nas mãos de um Ministério tutelado por um ministro, a quem se deve, de facto, e é preciso reconhece-lo e louvar, a entrada de Portugal na Agência Espacial Europeia, no ano 2000. Mas, o ministro já fez o seu trabalho. Agora esse trabalho tem de ser feito de uma forma coordenada e não pode ser um ministério a tentar coordenar os outros que não coordena… não vale a pena estar com ilusões.
Como perspectiva o futuro das empresas do Espaço portuguesas?
As empresas portuguesas ligadas ao espaço estão preparadas para a competição. Estamos numa fase em que o chamado retorno industrial, digamos, a obrigatoriedade de retorno a Portugal das verbas depositadas, começa a esbater-se, mas nós estamos preparados para a concorrência.
Agora, não pode suceder – e já aconteceu mais que uma vez – sermos preteridos no âmbito da Agência Espacial Europeia ou da União Europeia face a empresas de outros países, só porque os governantes dos outros países actuam de uma forma concertada. E os nossos não o fazem.
Somos os melhores nos nossos nichos de
mercados específicos, na nossa especialização, que praticamente todas
as empresas europeias.
Nós não temos medo da concorrência, somos melhores nos nossos nichos de
mercados específicos, na nossa especialização, que praticamente todas
as empresas europeias. Como lhe disse, temos tido como subcontratados
os grandes monstros europeus. Não há dúvida, o mercado mostra que nós
somos muito bons. Agora não podemos é apresentar, como já aconteceu,
propostas de dez milhões de euros para um determinado projecto, a GAIN,
um grande monstro europeu, apresenta uma proposta para o mesmo projecto
na ordem dos dezassete milhões, e depois o jogo todo do lobby faz com
que o concurso seja anulado – uma coisa absolutamente inacreditável – e
permitem que a GAIN faça uma oferta igual à nossa de dez milhões e
entre no projecto. Isto não pode ser.Foi o lobby do poder?
Isto foi sobretudo falta de lobby do nosso governo e lobby dos outros governos. Isto é que não pode ser! Não era um projecto tão pequeno quanto isso, era um grande projecto.
Ou seja, facilmente uma inoperacionalidade do governo português se transforma num pesado handicap…
Exactamente. E repito, este é o único handicap que pode por em causa um futuro brilhante para a indústria portuguesa do Espaço.


