Líder2008/01/16
“As Redes são um problema imenso de segurança”
As redes, em Portugal, são “um problema imenso de segurança”. O diagnóstico é feito pelo Criminalista, Consultor de Segurança e Mediador de Conflitos, João Gabriel Rucha Pereira. Portugal está ainda muito pouco sensibilizado para as questões da segurança, em particular para a necessária prevenção, o que tem implicações graves num quadro de ameaça terrorista e de ameaça à integridade das informações nas empresas. Numa entrevista exclusiva à TDSnews, detalhamos com um dos grandes consultores mundiais de segurança as principais ameaças à protecção de estados e empresas, o fenómeno do terrorismo, suas motivações e contextos, falamos sobre o “estado da arte” da segurança no nosso país, em particular no universo empresarial, e sobre as respostas necessárias, com o contributo de exemplos retirados da vasta experiência pessoal do entrevistado.
Mestrando em psicologia Criminal e do Comportamento Desviante, Licenciado em criminologia, Pós-Graduado em Ciências Criminais, Pós-Graduado em mediação e justiça Restaurativa, membro e Co-presidente, desde 1980, do maior organismo de Consultores de Criminologia e Segurança, a nível mundial, João Gabriel Rucha Pereira é o administrador da Ruper, empresa portuguesa principalmente vocacionada para a Investigação Privada e Consultadoria Geral de Segurança no campo da Prevenção de Riscos, Mediação de Conflitos, Advocacia, Apoio Jurídico e Psicológico, sendo ainda especializada noutras áreas de investigação e informação.
Considerado um dos vinte melhores investigadores do mundo, é também consultor de Segurança de Governos e parlamentos de diversos países para as áreas da prevenção do terrorismo e da criminalidade. http://www.ruper-security.com
É Criminalista e Consultor de Segurança, desde 1980, de Governos e Parlamentos de diversos países para as áreas da prevenção do terrorismo e da criminalidade. Como analisa o actual quadro de ameaça terrorista e as medidas que estão a ser adoptadas pelos Estados, em particular o trabalho feito com as informações?
Um dos graves problemas, e começando pelas informações, que tem acontecido, nomeadamente em Portugal e na Europa, é a proliferação de uma lógica de “quintinhas”. Ou seja, dando um exemplo português, o SEF tem informações, o SIS tem informações, a GNR tem informações, a PSP tem informações, a Polícia Judiciária tem informações, há várias entidades a recolher informações, mas, depois, não há um aproveitamento dessa informação, em termos colectivos, não há uma ligação e à escala europeia passa-se também isto.
Defendo que tem de haver uma maior colaboração entre os diversos serviços de informação dos diversos Estados-membros, tem de haver uma troca de informações mais acentuada e mais aberta.
Por vezes, quando acontecem atentados terroristas, ouvimos algum Estado ou serviço de informações dizer que já tinham tido dados nesse sentido… Mas, se assim foi, porque não os transmitiram? Porque não houve um trabalho de prevenção mais acentuado com base nessas informações? Mesmo que estejamos a falar de informações falsas, nestas coisas não podemos brincar, estamos a falar de vidas humanas. Foi uma informação falsa, mas tinha de ser trabalhada até se provar que era falsa ou verdadeira.
Fala-me também da questão do terrorismo. Ora, a questão do terrorismo divide-se aqui em dois tipos de terrorismo. Podemos falar de terrorismo global, associado particularmente à Al-Qaeda ou aos fundamentalistas islâmicos, ou de outro tipo de terrorismo, como é o caso da ETA. Estas duas tipologias devem ser analisadas de um modo separado dado que as ameaças que colocam são também muito diferentes.
O problema da Al-Qaeda tem que ver exactamente com um “novo modelo” de terrorismo, onde não há lugar à negociação. É essa a sua visão?
É essa a minha visão. De facto, não há lugar à negociação. Estamos a falar de fanáticos, fundamentalistas, estamos a falar de pessoas que distorcem o Islão propositadamente para dar cobertura a acções terroristas. Ou seja, não estamos a falar com pessoas de boa fé, porque se eles fossem de boa fé não eram terroristas. A Al-Qaeda não está a reivindicar coisa alguma.
Enquanto nós fazemos um plano a curto prazo ou até a médio prazo ou até a longo prazo, eles fazem planos geracionais e, portanto, são capazes de sacrificar as gerações futuras para trabalhar esse plano.
Ou seja, eles sabem que podem não atingir os seus objectivos na geração que está a correr ou na outra a seguir, mas acreditam que cumprirão esse desígnio. Aqui reside o perigo. Eu acho que nós vamos ter muito mais problemas a nível do terrorismo nos próximos 20, 30 ou 50 anos.
Não concordo, contudo, com o termo “guerra contra o terrorismo”, não concordo. Não concordo porque a utilização dessa expressão é provocadora. Prefiro a expressão “luta contra o terrorismo”, porque na realidade trata-se de uma luta, não há uma guerra no sentido tradicional do termo. Agora isto não impede que considere que esta luta tem de ser uma luta sem tréguas, tem de ser uma luta diária, minuto a minuto, segundo a segundo, sustentada na prevenção. Tem de se fazer segurança pela psicologia.
Queria precisamente que desenvolvesse um pouco essa ideia, essa concepção de segurança, que passa muito pela questão da segurança psicológica, no fundo, criar a insegurança naqueles que querem atacar os alvos, impedindo-os de agir. Essa concepção de prevenção acha que está a ser adoptada ou estamos muito no começo?
Estamos muito no começo. É preciso fazer muito nesse sentido, porque há sempre aquela ideia de que as coisas só acontecem aos outros. Essa é muito a ideia que vigora, não só em Portugal, como em muitos países. Mas, não podemos ter esta ideia de que as coisas só acontecem aos outros, temos que, na realidade, partir do princípio que a ameaça é diária, logo, também a prevenção deve ser diária.
Os Estados não podem considerar que a aplicação de verbas na segurança é uma despesa muito grande, nós não podemos pensar desta maneira, porque tudo o que se aplica em segurança é um investimento. Do mesmo modo que investimos na saúde, na educação, numa série de sectores, temos de investir em segurança. Não poderíamos andar de avião se não existissem controladores aéreos, se não existissem torres de controlo e se não existissem outros mecanismos que dêem garantias de segurança aos passageiros.
No que respeita à segurança nos aviões, fiz um trabalho bastante importante junto de algumas companhias aéreas, pondo os especialistas que trabalham comigo como passageiros. A função deles era exactamente viajar calmamente, anonimamente, porque nem a tripulação ou os passageiros sabiam da nossa existência, e tentar fazer uma listagem de coisas erradas que aconteciam ou que poderiam acontecer numa viagem aérea, para que depois fosse possível melhorar os serviços. Devo dizer que encontrei coisas engraçadíssimas, já mesmo depois do 11 de Setembro. Companhias aéreas ainda a fornecerem talheres metálicos, por exemplo. Ora, um talher metálico ou uma faca metálica é uma arma branca. Outro tipo de situações… Pessoas a viajar com estojos, aqueles estojos com corta unhas, com tesouras, que também poderiam ser armas brancas. Portanto, há muito que fazer na chamada prevenção, a todos os níveis, quer a nível das companhias aéreas, dos Estados, quer a nível do controlo das nossas fronteiras terrestres e marítimas. Por exemplo, as nossas fronteiras marítimas estão más, mal controladas, todos nós sabemos que se podia fazer muito melhor. Os espanhóis também têm alguns problemas e nós sabemos que muita da emigração ilegal entra pela fronteira marítima. Quem nos diz que nesses grupos de emigrantes não vêm terroristas ou aquilo a que chamo “emigrantes sujos”, ou seja, pessoas que vêm não com a ideia de vir trabalhar para um determinado país, mas com a ideia de preparar um atentado terrorista?
Portanto, há de facto muito a fazer na chamada prevenção primária, secundária e terciária, e inclusivamente a partir dos bancos da escola. Porque se nós temos populações descontentes, populações marginais, a quem não se dá uma identidade, podemos ter um indivíduo desses a ser abordado por um recrutador de terroristas. Esse individuo, analisado ao nível da psicologia, não tem uma identidade, e se alguém lhe der uma identidade, (é claro que não se recruta gente assim de qualquer maneira, obviamente), pode torná-lo recrutável.
E poderão ser facilmente recrutáveis para outro tipo de actividades que põem em causa a segurança interna?
Sim, exactamente. Repare, nos últimos anos, a nossa criminalidade tem aumentado. Aliás, somos mesmo dos países da Europa onde a criminalidade mais tem aumentado, em termos percentuais, nos últimos anos. E isso deve-se a quê? Deve-se a uma falha da prevenção. Eu penso que se pode, de facto, prevenir, evitando grandes problemas, se houver esquemas de segurança bem organizados. Uma coisa muito simples e agora falando de criminalidade e não de terrorismo. Este sistema de tintagem de notas no Multibanco é dissuasor, embora possam continuar a rebentar com as caixas Multibanco. Mas o que é um facto é que a percentagem diminuiu. Ora, aqui entra em cena a psicologia. Alguém tem de pensar nestas coisas, alguém tem de criar esquemas psicológicos… nós temos de entrar na cabeça do criminoso, pondo-nos no lugar dele, e pensar: como é que lhe posso estragar o trabalho? Como é que posso evitar que ele cometa um crime ou atentado? Precisamos primeiro de tentar perceber como é que eles funcionam, para depois criarmos os antídotos.
Dizia há pouco sobre a guerra ao terrorismo que preferia a expressão “luta contra o terrorismo”, mas há uma guerra do terrorismo?
Há uma guerra do terrorismo. Eles fazem-nos uma guerra, mas nós temos de ser mais inteligentes. Temos de fazer uma luta contra o terrorismo, ou seja, temos que tentar desmontar este fenómeno do terrorismo, sem que eles se apercebam do que nós o estamos a fazer. Temos que, por portas travessas, desmontar as acções dos terroristas, sem que estes percebam, como foi tudo desmontado. Temos de nos infiltrar em diversas áreas da nossa civilização, do nosso mundo, porque nós sabemos que os terroristas não vão fazer um atentado terrorista no meio da Amazónia, fazem-no em grandes cidades. O que eles querem é publicidade, eles querem que os media falem deles, portanto, vão escolher Nova Iorque, Londres, Paris, Madrid e, eventualmente, Lisboa ou o Porto. Vão escolher alvos com muita gente e muita exposição mediática. E esse também é outro problema.
A exposição mediática?
Sim. Tem que haver algum acordo – e os Ingleses souberam fazer isso muito bem depois dos atentados em Londres –, tem que haver algum acordo entre quem cuida da segurança e os media, no sentido de controlar a difusão das notícias. Ou seja, claro que têm de haver notícias, mas uma coisa é notícias, outra é ruído. Vejamos o caso Maddie, um caso típico de muito ruído, em que cada jornal dá a sua opinião, alterando-a no dia seguinte. Eu percebo que os grandes grupos editoriais querem vender, fazer negócio, querem ter lucro, mas tem que haver um equilíbrio, bom-senso, entre quem faz prevenção de segurança e os media, no sentido de percebermos o que é que é melhor para todos.
Ou seja, os media também podem fazer parte dessa linha da frente da prevenção?
Podem.
Tem que haver uma sensibilização dos media?
Claro, eu defendia isso exactamente numa conferência onde estive há pouco tempo, sobre a relação entre a Justiça e os Media. Tem que haver mais psicologia nisto. Tem de haver uma melhor formação dos jornalistas, porque todos eles concordam que a formação não é boa, os cursos de Comunicação Social não dão uma formação adequada aos tempos em que vivemos. Os media devem ter um papel activo na prevenção.
Por exemplo, quando se fala em suicídio na televisão ou nos jornais e se dá um empolamento demasiado a um caso de suicídio, aumentam os casos de suicídio. Por isso, houve um acordo de cavalheiros, no sentido de não empolar este tipo de situações. Aqui estou a falar de suicídio, mas podia estar a dar outros exemplos, porque sabemos que há um efeito dominó. Veja por exemplo um caso que foi muito noticiado pelos media, de um indivíduo que se barricou num banco. Logo a seguir, aconteceram casos parecidos.
Outra coisa que eu não concordo tem que ver com o hábito português, mas também espanhol e francês, de revelar nos media aquelas pessoas ou locais que podem ser alvos importantes para os terroristas. Ora, eu penso que não há necessidade de estar a revelar ao grande público quem são esses alvos. Porque ao estarmos a revelar ao grande público quem são esses alvos estamos também a passar informação aos terroristas, podemos até estar a dar-lhes ideias, ao mediatizarmos um determinado alvo que se torna, assim, um alvo mais apetecível. Eles podem não atacar esse alvo nos tempos mais próximos, porque se falou agora deles, mas, se calhar podem fazê-lo daqui a um ano ou dois.
Se percebo bem, o que está a sugerir é que hoje seria importante encontrarmos modos de sensibilizar os media – e quando digo os media, refiro as pessoas que dirigem os grandes meios de comunicação. E isto, se formos ver, em Portugal, são só vinte pessoas…
Claro. E se formos a ver aqueles grupos com mais poder, até são menos. Essa é a minha ideia, quando há pouco falei na formação na área da segurança, eu estou a falar nessas áreas todas. De fazer formação para os responsáveis nos media, fazer formação para os jornalistas, para os polícias, para toda a gente, porque estamos a falar de uma equipa multidisciplinar onde todos nós somos importantes no combate ao terrorismo.
Além da intelligence, marcadamente política ou militar, ao serviço dos governos, existe, no mundo, e lá fora essa tendência é mais antiga, uma cada vez mais generalizada aplicação da intelligence no domínio económico para as empresas. Falamos, claro, da Inteligência Competitiva ou Económica. Qual a sua experiência nesta área?
Eu trabalho nesta área há 36 anos, portanto, desde sempre. Os estudos que faço para a prevenção da criminalidade organizada ou do terrorismo também se aplicam às empresas. Uma empresa, se de facto, não tiver informações correctas e adequadas, estende-se ao comprido.
Dou um exemplo: eu tive uma empresa portuguesa minha cliente, que veio toda contente ter comigo a dizer que tinha feito um óptimo negócio e que agora ia fornecer condutas de petróleo para um determinado país produtor, com um contrato de milhões de dólares. O problema é que eles já tinham mandado uma tranche de não sei quantos mil dólares, supostamente para poderem participar no concurso. Depois, veio a notícia de que tinham sido seleccionados para fazer esse trabalho e, então, pediram-lhes que enviassem mais dinheiro, o que estranharam, porque tinha chegado muito pouca informação às mãos da empresa portuguesa – e eu também estranhei. Fomos investigar – e, neste aspecto, quero dizer que trabalho no mundo inteiro, com a filosofia de ter escolhido o melhor colega de cada país e formando um grupo internacional, por isso tanto me faz que me peçam informações para o Japão, China ou Tailândia. Nós também estávamos a trabalhar neste país, que supostamente iria encomendar as tais condutas, e viemos a descobrir que era tudo falso. A empresa que estava a negociar com o meu cliente só existia no papel, os carimbos que existiam em alguns documentos em papel que a empresa tinha recebido não eram os carimbos oficiais do Estado desse país (eu tive a oportunidade de ver os carimbos oficiais desse país na embaixada representada aqui em Portugal) e, portanto, devo só dizer-vos o seguinte e isto foi confessado pelos meus clientes. Se a segunda tranche tivesse partido, a empresa ia pura e simplesmente à falência. Porque essa segunda tranche, embora na primeira já tivesse havido alguma ajuda bancária, era totalmente com empréstimos bancários, com o pressuposto que iriam ganhar com aquele trabalho milhões de dólares. Isto é um exemplo de como se pode prevenir negócios entre parceiros de diversos países.
Devo dizer-lhe que depois das visitas recentes que houve dos nossos responsáveis políticos à Índia e à China, eu, logo a seguir, tive pedidos de informações, quer daqui para lá, como de lá para aqui. E o que é que se pretende com essas informações? Perceber se o nosso parceiro que está do outro lado é um parceiro credível, válido, cumpridor dos seus contratos, ou se é um impostor qualquer que se quer aproveitar de uma determinada situação, o que pode levar uma empresa à falência.
Estamos a falar de informações preventivas?
Sim. Este exemplo que referi ainda preveniu alguma coisa, mas já não preveniu tudo, uma vez que eles já tinham libertado a primeira tranche e esse dinheiro perderam-no. É claro que depois podem haver queixas criminais, mas esse dinheiro ficou perdido. Portanto, esta empresa em futuros negócios vai prevenir-se com informações atempadas.
Outra área onde nós trabalhamos muito é a das informações de altos quadros. Eu posso concordar que não haja uma informação – embora pense que deva haver, ainda que não muito exaustiva – para a contratação de uma telefonista ou para uma recepcionista, porque quando as coisas não correm bem com o contratado a prazo a empresa despede. Mas, quando se trata de um director ou um administrador, um administrador financeiro, ou mesmo um engenheiro responsável por grandes obras (estou a lembrar-me que Portugal está a investir muito em Angola e, obviamente, têm de ir para lá engenheiros), nós temos de saber quem é que pomos no terreno. As empresas têm de saber quem é que põem no terreno e, portanto, o recrutamento dessas pessoas tem que ser feito com informações preventivas.
Eu fiz aqui um trabalho muito engraçado com uma empresa que trabalha com as engenharias. Não fomos nós que fizemos a selecção, mas fizemos a informação para a empresa sobre um engenheiro e dissemos que esse indivíduo era extremamente competente, mas não tinha características de chefia, não é um líder, portanto, sugerimos que não pusessem esse homem a liderar coisa alguma, pois era um técnico. E ele foi para essa empresa como subdirector de um departamento, exactamente pela nossa recomendação. Quando o engenheiro responsável por esse departamento esteve de férias e ele ficou à frente daquilo saíram uma série de asneiras durante um mês, porque o homem não nasceu para chefiar pessoas, apesar de ser um óptimo técnico.
Segundo o “Princípio de Peter”, toda a gente é competente até ser promovido ao seu lugar de incompetência. Portanto, o nosso trabalho, quando se faz uma informação prévia para a admissão de altos quadros, é perceber onde está o grau de incompetência dessa pessoa, para não deixar que a empresa tenha uma pessoa competente e a promova para um lugar de incompetência. E isso consegue-se com informação.
Pode-se, de facto, fazer muita coisa, a nível dos negócios, do recrutamento de pessoal, a nível da segurança. Dou-lhe outro exemplo: tenho o caso de uma empresa multinacional que tinha uma delegação aqui em Portugal e que se não tivéssemos interferido, tinha ido à falência, porque, curiosamente, quando chegava aos mercados europeus, para onde exportava mais, os tipos perdiam sempre os concursos. Viemos a descobrir que uma funcionária que lá trabalhava, considerada uma das melhores naquela empresa, fotografava todas as tabelas de preços e depois dava essas informações à concorrência.
Estamos a falar de espionagem industrial, como também há espionagem comercial. O que nós fazemos aqui é contra-espionagem industrial e contra-espionagem comercial. Esta espionagem é cada vez mais complexa e mais perigosa. Aliás, existe já uma tradição muito grande nos EUA nesta área, já há muito tempo que se trabalha nisso, até porque eu também tenho uma delegação nos EUA, que faz parte da nossa equipa. Mas aqui na Europa não se pensa muito que essas coisas possam acontecer, e considera-se que isso só acontece aos outros.
Acha que as empresas não estão sensibilizadas para esta necessidade?
Nem todas. Tenho apanhado empresas com escutas telefónicas ou ambientais. Nós fazemos ao contrário, temos equipamentos para detectar se há escutas telefónicas ou ambientais. Claro que não pomos escutas, nem podíamos pôr porque isso é ilegal. O que podemos fazer é perceber se elas existem ou não.
Por exemplo, numa empresa multinacional, num edifício muito conhecido onde tinha a sua delegação, havia fuga de informações do que se passava nas reuniões de administração. Eram escutas ambientais que nós detectámos, metidas dentro do ar condicionado. Quando reunia a administração, aquela brincadeira passava toda cá para fora. Eu podia contar aqui cem ou duzentas histórias, mas, na realidade, pode fazer-se muita informação preventiva e isto é muito importante porque as empresas são a mola real de qualquer país. Se as empresas não pagarem impostos e não tiverem lucro, obviamente não há receitas. E quando se diz que isso é uma coisa privada, não podemos esquecer que estamos a falar da saúde económica, estamos a falar de quem alimenta o Estado. Ora, se essas empresas tiverem imensos prejuízos, pagam menos impostos ou não pagam impostos. Ou seja, o Estado sofre as consequências e por arrasto todos nós somos prejudicados. Ao interferirmos a esse nível, estamos a fazer um trabalho de prevenção.
Eu faço muito trabalho nesta área. Devo dizer que tenho muitos clientes multinacionais e algumas empresas nacionais. E tenho muitas multinacionais, porque estas estão mais mentalizados para isso. Porque a casa-mãe, na Alemanha ou em França diz para verificarem sempre tudo antes de fecharem um determinado negócio. E isso tem evitado muitos problemas.
Os franceses têm detectado em várias áreas, mas sobretudo na área dos automóveis e da aeronáutica, o fenómeno dos estagiários chineses. Há vários processos em tribunal contra estes “estagiários” e, recentemente, nós estivemos ligados a um encontro no Porto, com gente no sector automóvel português, e ficou tudo muito surpresos, a perguntar “se isso existe”. Depois do momento de surpresa, começaram a ficar muito preocupados e a mexerem-se muito nas cadeiras…
Claro, porque começaram a perceber que o assunto lhes tocava a eles também. Mas esse é um dos grandes problemas da actualidade. Não tenha dúvida. Tenho estado às vezes em seminários e congressos dessa área, e perguntam-me sempre o que lá vou fazer…
Concorda com a ideia de que as empresas portuguesas têm uma noção da segurança física, já começam a ganhar alguma noção da segurança informática, mas ainda não perceberam que é na informação que conseguem prevenir, porque muitas vezes não interessa tanto proteger o produto, mas sim proteger a informação de que o produto existe. Tem de haver não só, com ameaças internas dos colaboradores como com ameaças externas, como escutas, estamos a falar de inside trading e espionagem industrial.
Claro, mas ainda muito pouco. Devo dizer que sou com frequência convidado para eventos de industriais, na AIP, por exemplo, (de que não sou membro, mas sou amigo há muitos anos), e estranhamente ouço muito pouco falar deste tipo de coisas, a não ser, dos chamados crimes de contrafacção, com que nós também trabalhamos, e sobre isto há uma série de pontos que queria destacar.
Trabalhamos há muito na protecção de marcas e patentes e na sensibilização das pessoas para o problema da contrafacção, um dos graves problemas que ameaçam as nossas empresas, dado que hoje se falsifica tudo. Desde medicamentos (que é uma coisa que me preocupa muito) a peças de automóvel, mas também peças de avião. E o que me preocupa mais são precisamente os medicamentos porque podemos estar a pôr em risco a nossa saúde, e as peças de avião, porque compromete a nossa segurança aérea.
Hoje em dia, faz-se contrafacção em todas as áreas. Nos anos 80, desmantelei uma rede enorme de falsificação de whisky, após mais de um ano de investigações, onde o pessoal da minha equipa e eu corremos perigo de vida. Depois disto, as marcas de whisky em causa quiseram que eu fosse consultor em Inglaterra, no sentido de estudar mecanismos preventivos para que isso não voltasse a acontecer. A questão que colocávamos era como iríamos dificultar o trabalho do contrafactor, do criminoso. Hoje, há mecanismos para fazermos essa prevenção.
Ora não é, por acaso, que falo de contrafacção. Porque existe uma ligação entre a contrafacção, o negócio da prostituição, o tráfico de seres humanos e terrorismo. Eu quero fazer esta ligação porque nós sabemos que os terroristas se alimentam através de algumas empresas, que até são lícitas aparentemente, e de outro tipo de negócios, como o caso do tráfico de droga, a prostituição, tráfico de seres humanos e também a contrafacção. Todos estes fenómenos financiam directa ou indirectamente o terrorismo. Não se pode dizer que todos os crimes de contrafacção financiam o terrorismo, mas há uma percentagem grande desse tipo de crimes que financiam o terrorismo. Ora, se nós conseguirmos combater esse tipo de crimes, com uma prevenção adequada, estamos também a cortar-lhes o financiamento, o que é muito importante porque estamos a reduzir a sua capacidade de actuação. Hoje, o terrorismo é formado pelas “nebulosas”, como eu costumo dizer. São pessoas por vezes nada têm que ver com a hierarquia principal. São organizações em rede, que se auto-financiam, que nascem aqui e acolá como cogumelos e que muitas vezes se inspiram na própria Internet onde aprendem a fazer bombas e afins. Isto leva a que, muitas vezes, hajam atentados isolados, que nada têm que ver com as chefias principais. Portanto, não partiram da cúpula para a base; pelo contrário, foram iniciativas da base, influenciadas obviamente, pelos fundamentalistas, pela doutrina da cúpula.
Um caso claro disso foi o 11 de Março em Espanha, com a quebra de códigos dos telemóveis e a venda de droga.
Exactamente. Nós temos de pensar que muitos dos fenómenos ilícitos ou ilegais ou outros crimes que simplesmente repelimos não são tão simples assim. Têm outras repercussões muito mais graves a quer nível económico quer em termos de segurança. Para combatermos este tipo de fenómeno, muito complexo nas suas ramificações, com muitos tentáculos, nós temos de tentar fazer prevenção em cada um dos seus tentáculos conhecidos e, mesmo assim, corremos o risco de não conhecermos todos. Eles estão sempre a engendrar novas formas de fazer as coisas, mas também compete-nos a nós evoluir na resposta, tal qual os médicos investigadores estão constantemente a estudar as vacinas para novas doenças. Na área da segurança, da psicologia da segurança e da prevenção da segurança, tem de haver um trabalho profundo de investigação deste tipo de fenómenos que permita combatê-los com maior eficácia. Não podemos parar.
No Ocidente estamos com um problema novo que tem que ver com os nossos paradigmas. O Ocidente é um espaço de sociedades abertas que privilegia e aprecia o desenvolvimento, no centro da sua cultura, de uma série de direitos, liberdades e garantias ao cidadão, e a guerra do terrorismo põe-nos diante de uma situação em que temos de repensar isso diariamente…
Claro, esse é o problema das chamadas medidas securitárias e do direito à liberdade.
Ora bem, as sociedades modernas, democráticas, têm cada vez mais, de fazer este tipo de raciocínios, porque se calhar cada um de nós não se importa de abdicar de um bocadinho de algumas liberdades, se isso provar garantir essas mesmas liberdades.
Nós não temos liberdade se nos estragarem tudo isto. Para que serve a nossa liberdade? Temos é de perceber que tem de haver aqui bom senso e um equilíbrio entre as chamadas medidas securitárias e a liberdade. Eu sei que abriram as fronteiras e se quiser meto-me no carro e vou a Espanha. Mas, se eu chegar à fronteira e me mandarem parar, se me revistarem o carro, eu não me chateio nada. Eu estou a perceber que alguma coisa se está a passar, pois, caso contrário, não estariam a controlar a fronteira. Alguma coisa aconteceu. Portanto, eu tenho de abdicar de um bocadinho da minha liberdade, que já me tinha sido dada de passar a fronteira sem ser mandado parar por ninguém, e tenho de perceber que isso está a ser feito por um motivo de segurança. Há que ter a mentalidade de que, por vezes, é preferível abdicarmos um pouco dessa liberdade para não a comprometermos totalmente.
Agora, defendo que devia de haver uma maior sensibilização para as pessoas perceberem porque se fazem determinadas coisas. Eu, por acaso, nesse aspecto, quero louvar o Dr. Rui Pereira, o nosso actual ministro da Administração Interna, que se tem batido por isto. Ele defende que tem que haver direitos e liberdades, mas também tem de haver segurança. É preciso arranjarmos aqui um equilíbrio. Portanto, quando se fala em segurança, em fazer prevenção, tem de estar toda a gente envolvida neste esforço.
Pela sua experiência, de um modo geral, como caracteriza o “estado da arte” dos sistemas de segurança física e electrónica das empresas portuguesas?
As empresas estão muito sensibilizadas. Hoje em dia já é vulgar sermos filmados ao entrar num banco ou numa empresa, toda a gente já se habituou a isso, embora haja regras, como a protecção de dados pessoais. Já é vulgar esse tipo de soluções de segurança, mas essa é uma pequena parte do problema.
Às vezes, as mesmas empresas que colocam câmaras nas suas instalações não têm cuidado a nível informático. Nós sabemos que hoje em dia há hackers que entram nas empresas. Depois também não há cuidados em relação às pessoas – lembro-me que quando visitei o museu do Prado, há muitos anos, via os chineses e japoneses a desenharem esboços dos quadros famosos, uma vez que não era permitido tirar fotografias, para depois os reproduzirem ilegalmente no país deles.
Tenho agora muitos bancos a pedirem-me, logo que abra o meu centro de formação, para dar formação adequada aos funcionários, porque eles de facto têm lá os circuitos de video-vigilância, mas muitos dos funcionários não sabem como é que se deve agir e reagir face a um atentado real. Podemos ter todo o equipamento electrónico, mas quando as pessoas que trabalham em zonas mais sensíveis, como, no caso dos bancos, nas zonas dos balcões, não têm formação adequada na área da segurança, isto pode gerar problemas. A formação das pessoas é muito importante.
Quais são as maiores ameaças físicas e electrónicas à segurança das empresas e de que modo podem os serviços de informação contribuir para que essas ameaças sejam minoradas?
Hoje, uma séria ameaça é sem dúvida a Internet. Tanto mais que a UE está preocupadíssima com isso e estão agora a estudar a criminalização de determinados crimes informáticos. Mas sabemos que muitas vezes não se consegue chegar aos autores desses crimes.
A Internet, apesar das virtudes, traz também muitas desvantagens que têm de ser analisadas do ponto de vista da segurança para que se possam criar antídotos. Hoje, podem-se fazer túneis seguros, a nível da segurança informática, podem-se fazer blindagens, mas a maior parte das empresas não tem isso. A grande maioria das empresas tem as portas abertas (as portas do computador, com os cabos de rede que ligam à Internet), não estão ainda sensibilizadas para este problema. Eu tenho também, a trabalhar comigo, especialistas muito bons nessa área, que criam sistemas de blindagem. Procuramos fechar ao exterior, ao potencial intruso, o maior número de portas possíveis, sejam estas electrónicas ou físicas. Hoje em dia, já há muita preocupação na segurança física, existem muitos alarmes e câmaras, mas falta o resto...
Acha que as empresas já perceberam que os custos com a segurança não são uma despesa, mas, antes, um investimento?
Algumas já perceberam, sobretudo as multinacionais. Normalmente, já há uma experiência herdada da casa-mãe, uma vez que estas fazem recomendações às suas delegações. Mas a verdade é que a grande maioria das empresas e dos empresários, sobretudo nacionais, não estão ligados a outro tipo de estruturas globais, ainda estão muito pouco sensibilizados para isto e, depois, acontecem coisas do “arco-da-velha”, com custos gravíssimos. Hoje, a segurança é sem dúvida um investimento e não uma despesa.
As nossas sociedades abertas estão baseadas em redes (desde as redes do telefone, redes bancárias, eléctricas até às redes da Internet) e todo o nosso quotidiano se apoia no funcionamento de redes. As redes, em geral, em Portugal, são um problema imenso de segurança e penso que não há sequer consciência disso. Basta dizer que se podem fazer escutas desde a central até aqui à minha secretária, ou seja, desde o princípio ao fim da linha. E nós notamos muitas vezes que os sítios por onde essas redes físicas passam, porque há sítios por onde elas passam, por vezes não têm o mínimo de condições de segurança. Qualquer pessoa consegue violar essas redes, por haver muito pouca protecção. Não há sequer a preocupação – a engenharia de redes está muito pouco desenvolvida em Portugal, o que não quer dizer que não haja engenheiros de redes de segurança, claro que há, mas em relação a outros países estamos muito atrasados.
A verdade é que nós temos um tecido empresarial importante, temos indústrias pioneiras, como a indústria dos moldes, maquinaria para calçado, onde temos tecnologia de ponta, para não falar de outras áreas. Mas, quando me colocam questões sobre isso, eu digo que “o projecto está óptimo”, mas, pergunto: “Onde está a segurança? Onde entra aqui a segurança? E a resposta na maioria dos casos é “não pensámos nisso”.
A segurança é um investimento. Se pensamos em pagar um seguro contra incêndios ou um multi-riscos, se estamos já todos mentalizados de que isso é um investimento na segurança, então porque é que não se faz o mesmo em relação à outra segurança. Tem que se fazer e acho que o nosso país ainda está muito pouco sensibilizado. Muito pouco sensibilizado, mesmo.
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