Líder2008/02/26
“Queremos mais relações
económicas com Portugal ”
Taiwan quer abrir as portas a Portugal, mas do lado de cá, as relações com a China, encurtam o espaço de manobra para impulsionar uma relação comercial e política do nosso país com uma das maiores potências económicas mundiais. Não existem sequer voos directos entre os dois países, ao contrário do que sucede com os principais países europeus. A receita para o desenvolvimento de Taiwan, a situação política e económica do país, a difícil relação com a China, vista, pela persistência das políticas de Pequim, como uma ameaça para a estabilidade militar, económica e ambiental do globo, e as inexistentes relações com Portugal são o pano de fundo para uma entrevista exclusiva à TDSnews de Chen-hsiung Lee, o representante de Taiwan em Portugal.
Taiwan é hoje um dos grandes produtores estratégicos de componentes para novas tecnologias. Esta continuará a ser uma das grandes apostas do país?
Sim, penso que sim. A Indústria de Tecnologias de Informação é uma das mais importantes de Taiwan, representa quase metade do nosso PIB. No país temos três grandes Parques de Ciência, onde existem cerca de 300 diferentes empresas de componentes que não só produzem para empresas estrangeiras, como também têm uma intensa actividade de I&D. Temos várias empresas de grande dimensão internacional, como a Acer, que continua a crescer, e que fornecem componentes para os gigantes norte-americanos e europeus do sector.
“A aposta central é na Economia”
O governo tem tido muita atenção neste desenvolvimento. Sabemos que temos de continuar a fazer um upgrade da nossa indústria para podermos competir internacionalmente. Devido aos desenvolvimentos do mercado, muitas indústrias de Taiwan deslocalizaram a produção para a China, mas as suas sedes permanecem em Taiwan. Por isso, em Taiwan, estamos a fazer I&D, a desenvolver novos softwares e ao mesmo tempo a produzir componentes. Penso que esta estratégia irá continuar, porque temos os capitais suficientes, continuamos a empregar estrangeiros qualificados e por outro lado, países como os Estados Unidos e a Índia vêm a Taiwan recrutar funcionários. Procuramos tornar Taiwan num país economicamente mais próspero.
Qual a importância do mercado de Defesa para a economia de Taiwan?
Até agora, Taiwan tem sido importador de material militar, com os Estados Unidos a serem o nosso principal fornecedor. E também compramos algum armamento a países da Europa – lembrar-se-ão que comprámos, há já alguns anos, submarinos a França. Nós gastamos muito dinheiro na Defesa, em resposta à ofensiva chinesa temos de nos proteger, mas apesar de o budget de defesa levar uma fatia muito grande do orçamento, a aposta central é no desenvolvimento da economia.
A Defesa não é uma indústria relevante em Taiwan. Algumas das nossas empresas privadas produzem materiais logísticos, como roupas, escudos, mas não produzimos armas ofensivas ou de alta-tecnologia. Produzimos produtos consumíveis, praticamente de tudo, e temos um tecido industrial muito diversificado e forte. Taiwan está entre as 20 maiores potências económicas globais, à frente de alguns países europeus.
Gostaria de falar um pouco sobre a próxima eleição presidencial em Taiwan. O que está em causa?
A eleição presidencial que se aproxima, de 22 de Março, é considerada, uma das mais importantes de sempre para o povo de Taiwan, daí que a campanha eleitoral tenha começado já há bastantes meses, com o partido do governo, o Partido Progressista Democrático, e a oposição, em particular o Partido Nacionalista (Kuomintang, KMT), a esgrimirem argumentos para obterem o apoio dos eleitores.
É difícil fazer previsões sobre estas eleições, não é possível prever que partido sairá vencedor, contudo, as sondagens, que não são mais do que isso, sondagens, colocam à frente a oposição, embora o partido do governo esteja empenhado em contrariar, pela apresentação de bons projectos, esta tendência. Pessoalmente, é-me muito difícil determinar quem sairá vencedor. Em Taiwan existem 30 a 40% dos eleitores que estão no meio, não apoiam um determinado partido e por isso os dois partidos lutam por conseguir ganhar o centro.
“Não temos recursos naturais, temos inteligência…”
Que propostas são colocadas aos eleitores pelos dois principais partidos?
A questão económica é uma delas e também a identidade nacional é muito importante. O nome oficial de Taiwan é Republica da China, mas não pode ser confundido com a República Popular da China, são dois estados diferentes.
Taiwan, nos últimos 50 anos tem sido um estado soberano. Temos um governo, uma constituição, o nosso próprio exército, o nosso povo, e qualquer estrangeiro que queira ir a Taiwan tem de obter um visto ou uma permissão do governo de Taiwan… não de Pequim. Apesar de 23 países reconhecerem isto, o que não sucede com Portugal, a maioria continua a não reconhecer a soberania de Taiwan. O povo gostaria que fosse reconhecido ao país uma identidade própria. Neste momento, nada temos que ver com a China. A China é a China e não pode mandar em Taiwan. Nós não lhes pagamos impostos…
Como estão as relações entre Portugal e Taiwan?
Portugal tem mantido uma relação muito próxima com a China, em especial na última década, daí que não tenhamos muito espaço de manobra com Portugal.
O nosso escritório aqui é um Centro Económico e Cultural, para promover a cooperação económica e as trocas culturais entre os dois países, mas, pelo nosso lado, gostaríamos também que o governo português pudesse melhor compreender Taiwan, como um estado democrático que defende os direitos humanos, a liberdade de expressão, de que são exemplo os media, 100% livres – temos mais de 100 canais de televisão, centenas de jornais, temos uma sociedade muito aberta. E muito diferente da China.
Na China, só existe um partido, não existem deputados eleitos pelo povo. Em Taiwan, há deputados eleitos pelo povo e presidentes de câmara eleitos pelo povo, um povo que é muito enérgico, temos uma sociedade vibrante, onde existe muita eficiência e rapidez. Dia e noite, existe movimento nas ruas, há lojas abertas e pessoas atarefadas… Estas são as principais razões para que Taiwan com um pequeno território, apenas 36.000 quilómetros quadrados, com 70% da população a viver nas pequenas cidades, consiga afirmar-se economicamente.
Nós competimos com a natureza. Taiwan não tem recursos naturais, mas tem intelligence.
Importamos 100% do petróleo consumido, não temos ouro, nada. Temos apenas 23 milhões de pessoas muito trabalhadoras e uma mente muito aberta para ir para todo o lado. Estamos abertos ao Mundo.
“Ao contrário dos outros países europeus, Portugal…”
Pessoalmente, como vê a praticamente inexistente relação entre Portugal e Taiwan, quando inclusive, fomos nós que demos a Taiwan o nome de Formosa?
Desde a descoberta pelos portugueses da ilha Formosa, há 500 anos, não vimos uma relação substancial entre Taiwan e Portugal e infelizmente essa ligação tem até regredido, em alguns momentos. Por exemplo, poucos portugueses visitam Taiwan embora nós encorajemos o nosso povo a vir cá ver a beleza de Portugal.
O povo de Taiwan gosta dos museus, da comida, das paisagens de Portugal, mas, embora façamos esse esforço de trazer cá turistas, há um problema. Muitas das vezes, quando alguém de Taiwan quer vir a Portugal a obtenção de visto é impossível. Apenas conseguimos entrar no espaço Shengen noutros países europeus.
Não é possível a um turista de Taiwan vir directo para Portugal, tem de ficar um dia ou dois noutro país europeu para depois vir cá, o que é obviamente uma dificuldade.
Outro problema prende-se com as relações económicas. Muitos dos estados da União Europeia têm escritórios em Taiwan, como França, Espanha, Reino Unido, Holanda, Itália, Polónia, Republica Checa, Eslováquia, Noruega, entre outros, para promover o comércio, para atrair pessoas de Taiwan para esses países, em turismo ou em negócios, para promover esses países. Portugal não faz isto, não existe qualquer ligação directa entre Portugal e Taiwan.
Nós estamos cá, mas não está ninguém de Portugal em Taiwan. Se houver um seminário em Portugal, e isto sucede muitas vezes, e convidarem alguém de Taiwan para estar presente, essa pessoa não pode vir directamente, têm de procurar entrar no espaço Shengen via outro qualquer país. Ou seja, não existe uma ligação directa entre Taiwan e Portugal, o que compromete claramente a relação entre os dois países.
Nesse quadro, como está a relação comercial entre os dois países?
As trocas comerciais entre os dois países são muito diminutas, em relação aos 460 mil milhões de dólares de importações e exportações de Taiwan. O comércio entre Portugal e Taiwan movimenta apenas 300 milhões de dólares, o que é muito pouco, face ao potencial interesse em produtos e serviços portugueses. Apesar de termos apenas 23 milhões de habitantes temos um grande mercado e o mercado português, apesar de terem apenas 10 milhões de habitantes, é também interessante para nós.
A França e também a Alemanha vendem muita maquinaria e alta-tecnologia para Taiwan, onde ainda importamos muitos equipamentos industriais básicos, como geradores, motores ou mesmo pequenas ferramentas. Temos procurado incentivar os empresários portugueses a irem a Taiwan ver as oportunidades de negócio. Muitos portugueses vão a Macau e Taiwan fica apenas a cerca de uma hora de distância.
Existem muitas diferenças entre Portugal e Taiwan, Taiwan é uma potência industrial com grande força, alicerçada na capacidade produtiva de 23 milhões de habitantes que não só sobrevivem, apesar dos fortes constrangimentos geográficos, como prosperam e se têm espalhado pelo Mundo. Temos grandes empresas internacionais e dou-lhe o exemplo das companhias aéreas. Temos duas grandes empresas de aviação, a China Airlines, que tem uma frota de mais de 80 aviões Boeing e Airbus, e a Eva Airlines, com cerca de 50 aviões, com ligações directas, na Europa, a Londres, Amesterdão, Frankfurt, Viena, Roma, e vários voos directos, diários, para várias cidades dos Estados Unidos.
“A estratégia económica da China é errada”
Vamos falar um pouco sobre a China. Considera que a China é hoje, como dizem vários autores, uma ameaça à estabilidade global?
Entendo que o crescimento da China é um assunto relevante para todos os países, não apenas na Ásia, quer em termos militares, quer económicos, mas também pelo enorme impacto no Ambiente. A China fornece todo o mundo. Todos os dias são exportados para inúmeros países materiais e produtos chineses. Os salários baixos e fracas restrições ambientais impulsionaram o crescimento económico chinês, mas também geraram uma enorme poluição.
Todos vimos já imagens de cidades chinesas submersas em gases poluentes. Os lagos e rios poluídos, são leitos de morte, já não há peixes. Se quiserem recuperar, vão ter de pagar um preço muito elevado, porque a natureza não pode ser recuperada facilmente. Em todo o globo observamos alterações climáticas, mas é a China quem sofre mais. Recentemente a neve quase destruiu o país, por outro lado, as pessoas tem saído de regiões interiores devastadas pela seca e ido para o litoral.
Infelizmente, no final da década de setenta, início da década de 80 a China adoptou uma estratégia económica errada, às custas do Ambiente. Este é um problema interno, embora com implicações globais, podemos fazer muito pouco…
Economicamente, a China também coloca muitos problemas porque o comércio é feito quase apenas num sentido. Os Estados Unidos, por exemplo, têm um grande défice comercial com a China, o mesmo sucede em Portugal e com a generalidade dos países, inclusive em África.
“A China tem 1300 mísseis apontados a Taiwan”
Em relação a África, a China tem feito uma ofensiva estratégica muito importante nesse continente…
Sim, uma grande ofensiva. Eu não posso dizer que seja um especialista sobre Africa, mas trabalhei e vivi em África durante 14 anos. Em Taiwan eu estive encarregue de África durante cinco anos, portanto são quase 20 anos de envolvimento directo com o continente africano. Assisti ao enorme crescimento da influência chinesa por toda a África. Em todas as cidades se vêem chineses, a trabalharem em variados tipos de negócios. E em alguns países africanos isto gera um mal-estar nas populações. Em Angola, para dar o exemplo de uma ex-colónia portuguesa, estão já milhares de chineses, o país está diferente.
No plano militar, que ameaça representa a China, em particular para Taiwan?
A China tem 1300 mísseis apontados a Taiwan, instalados no estreito de Taiwan, mas esta é uma ameaça que preocupa também o Japão. Aliás, a instabilidade das relações entre a China e Japão tem precisamente como base a ameaça chinesa não só no campo económico, como no campo militar, em particular pela presença de tantos mísseis na região. Mas esta é uma questão que deve ser vista num plano internacional. A China, o seu crescimento militar e económico, devem ser observados pelos organismos internacionais.
“Sofremos já ciber-ataques da China”
A ciber-guerra, conceito que pode ser aplicado tanto no plano político/militar como económico, será, na próxima década, uma das formas principais de guerra. Cerca de 120 Estados desenvolvem já métodos para utilizar a Internet para afectar mercados financeiros, redes de computadores governamentais ou o sector da energia de países inimigos, segundo um relatório sobre a situação mundial da ciber-segurança, recentemente divulgado pela empresa de segurança informática McAfee. Na dianteira, aparenta estar a China, o primeiro país “a utilizar ciber-ataques para fins políticos e militares”, com a situação de Taiwan a colocar os Estados Unidos como alvo estratégico chinês de espionagem. Como analisa estas movimentações chinesas no ciberespaço?
Nós também sentimos o perigo da ciber-guerra chinesa. As nossas agências governamentais e embaixadas no estrangeiro sofreram já ciber-ataques da China. E parece que eles contratam centenas de alunos, para criar uma task-force, destinada a invadir sistemas informáticos, em Taiwan, nos Estados Unidos ou em qualquer outro país, tendo por alvo empresas privadas ou organismos do governo, o que quer que seja que a China eleja como alvo, para criar confusão ou simplesmente destruir. Este é mais um motivo para que Taiwan procure defender-se, temos de proteger os nossos sistemas informáticos.
A tecnologia usada pelos chineses vai além da nossa imaginação, mesmo para a número um mundial Microsoft. A sua capacidade é tão poderosa que encontram sempre um modo de entrar. Esta é uma guerra que não obedece ao sentido tradicional da guerra, é por isso muito difícil. Porque vivemos num mundo tecnológico, tudo passa pelos sistemas de informação. Talvez as organizações internacionais possam tratar esta questão.
“Não temos qualquer intenção de provocar a China”
Que comentário faz a notícias recentes que afirmam que a China prepara o ataque a Taiwan, após os Jogos Olímpicos de 2008, com 2010 a surgir como limite?
Sempre existiram este tipo de notícias, mas nós procuramos a Paz. Qualquer ataque desse género ou plano de ataque concreto será duramente condenado pela comunidade internacional.
Eu não acredito que este cenário venha a ocorrer. Taiwan procura apenas viver em democracia e liberdade, queremos a estabilidade na região e não temos qualquer intenção de provocar a China. Se a China o fizer a perda será enorme, não terão qualquer benefício.
Esta é já uma questão histórica que, penso, será resolvida pacificamente. Nós sempre dissemos que queríamos negociar, procurar um entendimento entre as duas partes, e creio que, depois das eleições, Taiwan enveredará por uma política mais flexível em relação à China, em termos de relações económicas.
Até agora, todos os anos temos milhões de turistas a visitarem a China, e ao mesmo tempo temos um grande investimento na China, tal como outros países que também investem muito na China e em Taiwan. Esta é uma zona com muita força económica e qualquer manobra ofensiva afectará os interesses de outros países. Como cidadão de Taiwan acredito que iremos continuar a prosseguir a via do diálogo. Não haverá ataque, para benefício de todos… Apesar de tudo, estou optimista.
José Mateus Cavaco Silva e André Nunes
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