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Tendência

2009/02/19

Disruption, cortes na ligação global

No início deste mês, problemas num novo cabo submarino de telecomunicações no Médio Oriente afectaram os serviços Internet na Índia e outros países, depois de um incidente semelhante, ocorrido no final de Janeiro passado, no Mediterrâneo oriental ter provocado igual dano (ver notícia L'Asie plongée dans un "cyber black-out").

O cabo Falcon foi cortado a 56 quilómetros ao largo de Dubai, nas águas do Golfo, entre Omã e os Emirados Árabes Unidos, o que levou a que as comunicações tenham sido consideravelmente perturbadas, com graves implicações económicas, em particular na Índia, onde a indústria de subcontratação informática - de que dependem um grande número de empresas ocidentais - representa 11 mil milhões de dólares (7,4 mil milhões de euros) de volume de negócios anual e emprega 700.000 pessoas.
A avaria teve impacto directo em vários países do Golfo, nomeadamente os Emirados Árabes Unidos, o Kuwait, a Arábia Saudita, o Qatar e Omã, onde o acesso à Internet se tornou mais lento.

A importância destes acontecimentos vai muito além da mera demora ou interrupção do serviço de Internet nos países afectados. Estes incidentes - segundo John Robb, houve mais dois cabos submarinos cortados na região do Médio Oriente, entre os finais de Janeiro e início de Fevereiro – mostram a vulnerabilidade da ligação global, democratizada, com linhas de comunicação facilmente identificáveis e de fácil acesso para pequenos grupos ou mesmo estados interessados em cortar essa ligação, em provocar uma “disruption”.

Este conceito de "disruption" revela-se hoje cada vez mais importante para a segurança das nossas sociedades baseadas em redes (desde as de distribuição de energia ou água até às de informação e financeiras ou às mais específicas que suportam os governos ou os próprios serviços de informação) e é interessante e talvez indispensável relacionar este conceito defensivo e ocidental com o conceito ofensivo chinês de "unrestricted war”)...

John Robb, especialista norte-americano em contra-terrorismo, no texto “Disrupting the Internet”, alerta precisamente para o facto de o corte de ligação à rede de comunicação global poder vir a ser usado, de futuro, como forma de coerção política e económica, tendo por base as consequências gravíssimas (para a segurança e economia, em particular) que advêm do isolamento de estados ou regiões, como sucedeu recentemente.

A situação poderá ser ainda mais grave em países como a China, onde existem sistemas de Internet fechados, com todo o tráfego a passar por choke-points ou outro tipo de infra-estruturas de controlo de acesso à Rede – alvos precisos que, a serem explorados, podem permitir uma tremenda eficácia dos ataques orquestrados.

O quadro global recentemente traçado por Thomas P.M. Barnett, no livro “The Pentagon’s New Map”, vem acentuar os problemas que podem resultar das vulnerabilidades desta ligação global, ao mostrar que existe uma separação profunda entre países que participam na economia global e se regem pelas mesmas regras, enquanto outros não estão integrados. Esta divisão é o pano de fundo, explica, a “guerra e paz num mundo ligado” com as vulnerabilidades da Rede a poderem servir, como refere John Robb, os fins da guerra.

Qualquer empresa terá já passado por situação de falha provisória no acesso à Internet, por motivos diversos, e é sabido que uma situação deste género em actividades altamente informatizadas pode mesmo paralisar o trabalho diário, com graves prejuízos. Imagine-se, pois o que sucede quando vários países se vêem privados por longas horas ou mesmo dias desse acesso.

Se a Internet é hoje o garante de uma ligação global sem precedentes, o sustentáculo das economias, é também a maior fragilidade e o mais apetecível alvo de quem esteja interessado em provocar o caos. A solução não é fácil, nem temos na TDSNews essa resposta, mas a verdade é que este assunto deveria ser alvo de uma atenção atenta, o que, se acontece, não se nota.