Este facto torna as “tds” não uma mera questão de “tecnologias” mas uma questão estratégica. Torna-as o “core” da estratégia, tanto dos EUA como do Ocidente. Os Estados que entenderem isto terão algum futuro. Os que não o entenderem terão, de futuro, a degradação e a humilhação de desaparecerem de cena. Nesta perspectiva, entender as “tds” e o que elas podem representar é vital e, por isso, estratégico.
A actual crise global, ao afundar as “teorias da eficiência dos mercados” (e seu discurso apologético dos interesses financeiros e suas estratégias de domínio) e ao impor o regresso do Estado à estratégia económica, cria aqui uma convergência de interesses com o desenvolvimento das “tds” e abre uma janela de oportunidade, para os próximos anos.
As “tds” são a via mais eficaz, mais rápida e mais barata, senão mesmo a única possível, de injectar densidade tecnológica e consequente competitividade no tecido económico português" e alerta para a necessidade de, com inteligência económica, se apostar na economia da Defesa como a melhor forma de defender a Economia, sobretudo, nestes tempos de crise e de mudanças radicais.
O fundamental, nesta conjuntura de crise em que os Estados são chamados a relançar a economia, é saber para que nos serve a tecnologia e como usar as “tecnológicas”. Para isso, temos de saber quem somos, a que quadros de concorrência estamos submetidos e definir como e para que objectivos nos serve a tecnologia, tendo presente que a função estratégica da tecnologia é aumentar a liberdade de manobra tanto das instâncias políticas como militares e económicas. Não somos os EUA, nem sequer a Alemanha ou a França... Não temos a potência do triângulo americano, em que o DARPA define, a In-Q-Tel financia e a SAIC desenvolve. Nem temos Siemens ou EADS... Mas temos uma cultura secular (senão mesmo milenar, vidé estudos recentes sobre a superioridade tecnológica das armas lusitanas face às romanas...) que sempre soube lidar bem com a tecnologia, integrá-la e desenvolvê-la.
A densidade tecnológica da economia portuguesa é das mais baixas da Europa. E isto, claro, é a “mãe” da baixa produtividade e da falta de competitividade. Para uma liderança política inteligente, dotada de dispositivos de Inteligência Competitiva, as TDS são a via mais eficaz, mais rápida e mais barata, senão mesmo a única possível, de injectar densidade tecnológica e consequente competitividade no tecido económico português… Só com muita Inteligência Competitiva e um uso quase imoderado das TDS será possível subir na cadeia de valor e melhorar significativamente a posição do País nas matrizes da divisão internacional do trabalho. Tanto mais que, como o País, nos próximos anos, vai exportar menos, temos necessariamente de exportar melhor, com mais valor incorporado. Deste ponto de vista, a actual crise estrutural oferece-nos também a conjuntura e a oportunidade para integrarmos de vez o centro do sistema mundial e libertarmo-nos da miséria periférica. É tudo isto que as “tds” e uma política inteligente de Defesa, bem pensada, nos oferece e possibilita.
Acresce que, numa conjuntura de crise grave das sociedades baseadas em redes e por aí sujeitas a ataques fatais de hackers, terroristas ou potências estranhas, nenhum Estado ocidental pode abdicar das suas “tecnológicas” da área da Defesa/Segurança. Pelo contrário, a tendência (vidé decisões de Obama e Sarkozy para não falar de Putine e dos chineses) é desenvolvê-las, cloná-las, dar-lhes um “dual-use”, ou seja, encontrar-lhes um uso civil (por exemplo, o sistema que comanda o porto de Sines é o de controlo de tiro das fragatas Meko...) e assentar nelas dispositivos e serviços que garantam e promovam o desenvolvimento económico e o bem-estar social, ou seja, a Defesa.
Este episódio do Presidente, a perguntar enfaticamente se lhe penetraram os computadores ou interceptaram os mails, mostra como os nossos dirigentes eleitos, a opinião pública portuguesa, os nossos líderes de opinião, bem como a Universidade, vivem perigosamente alheios ao nosso tempo global e são completamente estranhos às realidades das tecnologias de defesa e segurança, suas ameaças e seus trunfos. Simplesmente, ignoram-nas. O que configura, tanto em termos de Estado, como de Nação, uma perigosíssima e suicidária esquizofrenia. E todo o debate teórico sobre a matéria está, entre nós, por fazer. Até mesmo a informação necessária para esse debate está ainda por angariar e adquirir. É por isto que há três anos decidimos que era necessário um dispositivo mediático com as características da TDSnews e decidimos criar esta newsletter de inteligência económica das Tecnologias de Defesa e Segurança... Mesmo sem quaisquer apoios.
O caso das TDS e a Presidência
Vivemos num país de luxos raros. Por exemplo, quase 4 anos depois de se ter instalado em Belém, o actual Presidente interroga-se se o seu computador é seguro e se não andará alguém a ler-lhe os mails. Como disse José Tribolet (professor de engenharias informáticas no IST) “o que me espanta no que o Presidente disse é que o tenha dito”...
Parece que ainda não ninguém explicou ao PR que vivemos numa sociedade baseada em redes e que estas são vulneráveis. Mesmo muito vulneráveis. Também não seria pior que alguém lhe comunique que uma empresa portuguesa (com participação de capitais públicos) é uma das melhores do mundo a garantir segurança de comunicações.
O Presidente terá chamado, agora, “várias autoridades competentes” para lhe explicar o que qualquer miúdo de 14 anos lhe poderia ter dito: como os da Casa Branca, do Eliseu, do Pentágono, da CIA e etc, também os seu computadores são vulneráveis.
A diferença, pelos vistos, é que ao contrário de todos os citados os seus não estão defendidos... E, quase que apostava, a sua comunicação vai suscitar um “campeonato” de hackers nacionais para ver quem faz melhor na penetração a Belém. Alguém também deveria ter avisado o Presidente para este efeito colateral da sua comunicação.
Como uma boa síntese sobre o mundo em que vivemos e os usos a dar a computadores e redes, recomenda-se a leitura do que é já um clássico da estratégia no século XXI, “Unrestricted Warfare” da autoria dos coronéis chineses Qiao Liang e Wang Xiangsi, exfiltrado da China e traduzido pelos serviços da CIA, e apresentado aqui na TDSnews em Setembro de 2007 e antes apresentado pelo editor da TDS no “Diário de Notícias” de 28 de Janeiro de 2004. O professor Cavaco Silva fala e lê inglês pelo que não terá dificuldade em lê-lo.
Como as “várias autoridades competentes” lhe referiram as lacunas de segurança da rede de comunicações da PR, o Presidente vai, agora, reforçar a segurança (será interessante ver como e quem a vai fazer...) das comunicações da PR. Agora?! Fazer agora o que devia estar feito uns três dias depois de ter entrado em Belém?! Sarkozy tratou disso ainda antes de entrar no Eliseu! É por estas e outras que somos um país de luxos raros...
PostScriptum
Só há uma empresa, na área da segurança de redes e comunicações, certificada pela Autoridade Nacional de Segurança. Terá muita graça se Belém chamar alguém não certificado pela ANS para fazer a auditoria de segurança aos seus sistemas e redes de comunicação...
José Mateus Cavaco Silva