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2009/10/08

TDS: A única vantagem
estratégica do Ocidente

As tecnologias de defesa e segurança são, neste momento, e sê-lo-ão ainda durante algum tempo, a única – repito, a única – vantagem estratégica do Ocidente em geral e dos EUA em particular sobre os seus mais directos competidores na actual conjuntura estratégica global.

Este facto torna as “tds” não uma mera questão de “tecnologias” mas uma questão estratégica. Torna-as o “core” da estratégia, tanto dos EUA como do Ocidente. Os Estados que entenderem isto terão algum futuro. Os que não o entenderem terão, de futuro, a degradação e a humilhação de desaparecerem de cena. Nesta perspectiva, entender as “tds” e o que elas podem representar é vital e, por isso, estratégico.

A actual crise global, ao afundar as “teorias da eficiência dos mercados” (e seu discurso apologético dos interesses financeiros e suas estratégias de domínio) e ao impor o regresso do Estado à estratégia económica, cria aqui uma convergência de interesses com o desenvolvimento das “tds” e abre uma janela de oportunidade, para os próximos anos.

As “tds” são a via mais eficaz, mais rápida e mais barata, senão mesmo a única possível, de injectar densidade tecnológica e consequente competitividade no tecido económico português" e alerta para a necessidade de, com inteligência económica, se apostar na economia da Defesa como a melhor forma de defender a Economia, sobretudo, nestes tempos de crise e de mudanças radicais.

O fundamental, nesta conjuntura de crise em que os Estados são chamados a relançar a economia, é saber para que nos serve a tecnologia e como usar as “tecnológicas”. Para isso, temos de saber quem somos, a que quadros de concorrência estamos submetidos e definir como e para que objectivos nos serve a tecnologia, tendo presente que a função estratégica da tecnologia é aumentar a liberdade de manobra tanto das instâncias políticas como militares e económicas. Não somos os EUA, nem sequer a Alemanha ou a França... Não temos a potência do triângulo americano, em que o DARPA define, a In-Q-Tel financia e a SAIC desenvolve. Nem temos Siemens ou EADS... Mas temos uma cultura secular (senão mesmo milenar, vidé estudos recentes sobre a superioridade tecnológica das armas lusitanas face às romanas...) que sempre soube lidar bem com a tecnologia, integrá-la e desenvolvê-la.

A densidade tecnológica da economia portuguesa é das mais baixas da Europa. E isto, claro, é a “mãe” da baixa produtividade e da falta de competitividade. Para uma liderança política inteligente, dotada de dispositivos de Inteligência Competitiva, as TDS são a via mais eficaz, mais rápida e mais barata, senão mesmo a única possível, de injectar densidade tecnológica e consequente competitividade no tecido económico português… Só com muita Inteligência Competitiva e um uso quase imoderado das TDS será possível subir na cadeia de valor e melhorar significativamente a posição do País nas matrizes da divisão internacional do trabalho. Tanto mais que, como o País, nos próximos anos, vai exportar menos, temos necessariamente de exportar melhor, com mais valor incorporado. Deste ponto de vista, a actual crise estrutural oferece-nos também a conjuntura e a oportunidade para integrarmos de vez o centro do sistema mundial e libertarmo-nos da miséria periférica. É tudo isto que as “tds” e uma política inteligente de Defesa, bem pensada, nos oferece e possibilita.

Acresce que, numa conjuntura de crise grave das sociedades baseadas em redes e por aí sujeitas a ataques fatais de hackers, terroristas ou potências estranhas, nenhum Estado ocidental pode abdicar das suas “tecnológicas” da área da Defesa/Segurança. Pelo contrário, a tendência (vidé decisões de Obama e Sarkozy para não falar de Putine e dos chineses) é desenvolvê-las, cloná-las, dar-lhes um “dual-use”, ou seja, encontrar-lhes um uso civil (por exemplo, o sistema que comanda o porto de Sines é o de controlo de tiro das fragatas Meko...) e assentar nelas dispositivos e serviços que garantam e promovam o desenvolvimento económico e o bem-estar social, ou seja, a Defesa.

Este episódio do Presidente, a perguntar enfaticamente se lhe penetraram os computadores ou interceptaram os mails, mostra como os nossos dirigentes eleitos, a opinião pública portuguesa, os nossos líderes de opinião, bem como a Universidade, vivem perigosamente alheios ao nosso tempo global e são completamente estranhos às realidades das tecnologias de defesa e segurança, suas ameaças e seus trunfos. Simplesmente, ignoram-nas. O que configura, tanto em termos de Estado, como de Nação, uma perigosíssima e suicidária esquizofrenia. E todo o debate teórico sobre a matéria está, entre nós, por fazer. Até mesmo a informação necessária para esse debate está ainda por angariar e adquirir. É por isto que há três anos decidimos que era necessário um dispositivo mediático com as características da TDSnews e decidimos criar esta newsletter de inteligência económica das Tecnologias de Defesa e Segurança... Mesmo sem quaisquer apoios.

O caso das TDS e a Presidência

Vivemos num país de luxos raros. Por exemplo, quase 4 anos depois de se ter instalado em Belém, o actual Presidente interroga-se se o seu computador é seguro e se não andará alguém a ler-lhe os mails. Como disse José Tribolet (professor de engenharias informáticas no IST) “o que me espanta no que o Presidente disse é que o tenha dito”...

Parece que ainda não ninguém explicou ao PR que vivemos numa sociedade baseada em redes e que estas são vulneráveis. Mesmo muito vulneráveis. Também não seria pior que alguém lhe comunique que uma empresa portuguesa (com participação de capitais públicos) é uma das melhores do mundo a garantir segurança de comunicações.

O Presidente terá chamado, agora, “várias autoridades competentes” para lhe explicar o que qualquer miúdo de 14 anos lhe poderia ter dito: como os da Casa Branca, do Eliseu, do Pentágono, da CIA e etc, também os seu computadores são vulneráveis.

A diferença, pelos vistos, é que ao contrário de todos os citados os seus não estão defendidos... E, quase que apostava, a sua comunicação vai suscitar um “campeonato” de hackers nacionais para ver quem faz melhor na penetração a Belém. Alguém também deveria ter avisado o Presidente para este efeito colateral da sua comunicação.

Como uma boa síntese sobre o mundo em que vivemos e os usos a dar a computadores e redes, recomenda-se a leitura do que é já um clássico da estratégia no século XXI, “Unrestricted Warfare” da autoria dos coronéis chineses Qiao Liang e Wang Xiangsi, exfiltrado da China e traduzido pelos serviços da CIA, e apresentado aqui na TDSnews em Setembro de 2007 e antes apresentado pelo editor da TDS no “Diário de Notícias” de 28 de Janeiro de 2004. O professor Cavaco Silva fala e lê inglês pelo que não terá dificuldade em lê-lo.

Como as “várias autoridades competentes” lhe referiram as lacunas de segurança da rede de comunicações da PR, o Presidente vai, agora, reforçar a segurança (será interessante ver como e quem a vai fazer...) das comunicações da PR. Agora?! Fazer agora o que devia estar feito uns três dias depois de ter entrado em Belém?! Sarkozy tratou disso ainda antes de entrar no Eliseu! É por estas e outras que somos um país de luxos raros...

PostScriptum

Só há uma empresa, na área da segurança de redes e comunicações, certificada pela Autoridade Nacional de Segurança. Terá muita graça se Belém chamar alguém não certificado pela ANS para fazer a auditoria de segurança aos seus sistemas e redes de comunicação...


José Mateus Cavaco Silva