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2007/09/13

Ciber-ataques - A guerra irrestrita chinesa

A China e o seu Exército Popular de Libertação (EPL), em particular, são por muitos apontados como a origem de um ciber-ataque generalizado a sites e sistemas governamentais em França, no Reino Unido, na Alemanha e nos Estados Unidos e também a Nova Zelândia foi alvo de um ataque recente, por parte de “países estrangeiros”.

Nos últimos tempos, o EPL tem investido imenso em espionagem electrónica e sistema de cyber-guerra destinados a afectar as capacidades de comunicação de países estrangeiros, de acordo, com o China Confidencial (Ver aqui e aqui), e os Estados Unidos são apontados como o alvo primordial da China, numa altura em que Pequim se prepara para resolver, no pós-Jogos Olímpicos de 2008, a questão de Taiwan, certamente a mal. O China Confidencial dá-nos também uma pista sobre os princípios subjacentes à actuação chinesa. Tem-se assistido a um aumento das exportações de armamento para o Irão - que substituiu, em 2006, o Japão como principal parceiro comercial da China (ver aqui) – e o EPL planeia vender submarinos, mísseis e, mesmo, armamento nuclear a inimigos dos norte-americanos.

Vendas de armas, testes anti-satélite e ciber-ataques colocam em prática o conceito do EPL de guerra ilimitada, diz-nos o China Confidential.

No Diário de Notícias, a 28 de Janeiro de 2004, José Mateus Cavaco Silva, editor da TDSNews, escrevia, num texto titulado “Mundo irrestrito”, que “as redes e os computadores permitem uma guerra (não declarada) que pode paralisar totalmente a vida de um país ou mesmo de um bloco económico, como a União Europeia, ou de uma aliança militar, como a NATO”.

O autor alertava já para uma mudança do quadro estratégico e para a necessidade de ler estas mudança à luz da obra dos coronéis chineses Qiao Liang e Wang Xiangsi “que marca a passagem do século XX para o século XXI, no domínio da grande estratégia”.

A questão da Ciberguerra é um assunto pouco discutido e trabalhado em Portugal, com raras excepções, mas entra agora, em virtude da actual actuação chinesa para o primeiro plano da realidade mediática. Por isso, importa aqui retomar parte do texto “Mundo Irrestrito”que, sem nunca a ter perdido, ganha agora uma especial actualidade:

O novo quadro já não têm nada da “Guerra Fria” que marcou a última metade do século XX. Com a obra de Qiao Liang e Wang Xiangsi entramos em outro mundo… Por mim, penso que devemos estar-lhes gratos por nos mostrarem, com lucidez e frieza, o mundo em que estamos. Com efeito, nunca um intelectual ocidental - o “politicamente correcto” oblige e limita -ousaria estampar e divulgar tais visões e consequentes propostas militares, políticas e estratégicas. Hoje, vivemos na “Guerra Irrestrita”. Veja-se a beleza deste adjectivo”...

A tese dos coronéis chineses é simples, na sua frieza: A guerra assimétrica não tem regras, nada é proibido. E que vectores de actuação privilegiam os coronéis chineses? Três: as redes e os computadores, os agentes de influência e o terror e as armas de destruição massiva. Através dos agentes de influência, os coronéis chineses propõem-se influenciar no Ocidente atitudes e opiniões, via financiamentos secretos de grupos políticos, incentivar o terrorismo urbano e espalhar rumores e escândalos que criem descontentamentos e tumultos.

A paralisação de um país ou de um bloco de países, a desarticulação da sua vida económica e também social, via computadores e redes, o uso do terror e da destruição massiva, o recurso aos agentes de influência e às técnicas de manipulação são os meios dos coronéis chineses para a nova estratégia de “Guerra Irrestrita”.

No fundo, todos eles meios de “guerra psicológica” que, desde há milénios, sempre foi a forma de guerra preferida dos chineses. Já Sun Tzu privilegiava os espiões e as acções de guerra psicológica e Mao Tsé Tung visava a desmoralização do adversário. Ora, o “psicológico”é hoje o ponto central daquilo que se começa a designar por Ciberguerra.

O especialista português desta matéria, Sérgio Campos [o actual presidente da Empordef], em trabalho ainda não publicado, considera mesmo a ciberguerra como “ a forma de “guerra total” que pode vir a ser aplicadas no século XXI, sendo que é evidente que o conceito abrange aquilo que os grandes teóricos da guerra, tanto Liddel Hart como Fuller entendiam como “paralisação estratégica”.

Para Sérgio Campos, “ o que é dramático é que, a somar à ameaça, há o facto de as sociedades ocidentais confiarem em redes desprotegidas, que conduzem ao risco de fracasso militar e a perdas económicas catastróficas. As possibilidades (do atacante) são de facto imensas, pois cada vez mais a própria complexidade e dimensão das organizações e das actividades leva a uma dependência acrescida dos computadores, os quais armazenam informações que não estão mais disponíveis de outra forma “. Ou seja, informações que não existem fora das tais redes desprotegidas...

Pense-se na realíssima possibilidade de acontecer amanhã um ciberataque ao sistema bancário, às redes de energia, água ou telecomunicações, ao sistema de controlo de voo ou até ao sistema do Ministério da Justiça, da Defesa, da Administração Interna, ao Gabinete do Primeiro-Ministro ou, porque não, à Rede do Governo... Pense-se nisso, não como num filme distante mas como algo de que podemos saber daqui a pouco e da pior maneira, pois até a rádio pode não funcionar... ou não funcionar bem! O cenário da “guerra Irrestrita” está montado, as suas perspectivas são aterradoras e – uma dúzia de anos depois da queda do muro de Berlim – quantas saudades já daquela paz dos tempos do equilíbrio do terror assegurado pela Estratégia MAD, da Guerra Fria.


O que este alerta de José Mateus Cavaco Silva, no Diário de Notícias de 28/01/2004 considerava como possível e provável, a curto-prazo, já aconteceu - Estónia, França, Estados Unidos, Reino Unido e Alemanha já sofreram na pele esta ameaça…

Esta situação relança o debate, com carácter de urgência, a questão da ciber-guerra e, mesmo, da ciber-criminalidade e do modo como a cada vez maior dependência das Novas Tecnologias de Informação e Comunicação (NTIC) torna os Estados e as suas instituições mais vulneráveis. O mundo ganhou consciência desta realidade com célebre worm “I Love You” (apenas uma criação de um jovem, incomodado com o chumbo da admissão da sua tese de mestrado), o mais devastador da história e que terá provocado, em todo o mundo, prejuízos estimados em 5,5 mil milhões de dólares, mas, aparentemente, voltou a adormecer – agora, estes recentes ataques têm pelo menos a virtude de nos voltar a acordar.