Líder2007/09/13
Dos sucessos na Defesa, à conquista do Mercado Civil
A EID, empresa do PTAD - Pólo Tecnológico do Aeroespacial e da Defesa, conquistou já um espaço relevante no mercado internacional de Defesa, com produtos state of art e já incontornáveis. Recentemente, a EID forneceu aos Emiratos um sistema MMHS (Military Message Handling System) que coloca agora à disposição das Forças Armadas Portuguesas através de uma proposta “revolucionária e altamente competitiva”.
Sérgio Campos, Presidente da EID, numa conversa com a TDSNews, fala dos sucessos e das ambições da empresa, também de dificuldades superadas, e revela a entrada da empresa numa nova fase, voltada para a sociedade civil.
Como surgiu o novo contrato de fornecimento de um sistema MMHS aos Emirados Árabes Unidos?
O contrato com os EAU advém de uma parceria com os nossos accionistas da Rohde & Schwarz, alemães, que estão em fase de venda de uma série de equipamentos de comunicações para as forças armadas dos EAU. Conseguiram ajudar-nos a colocar o produto, e no total são 46 instalações, quase todas para a marinha, para os marines e estações rádio navais.
Pelo facto de termos conseguido na EID colocar o MMHS numa série de meios de uma força armada estrangeira, uma série de custos acabam por estar cobertos por esta venda, e, por isso, a solução nacional vai ser bastante mais competitiva.
Qual a importância deste contrato para a EID?
Este contrato é para nós muito importante, por várias razões. É um bom produto que incorpora tecnologias de vanguarda e está a ser instalado numas forças armadas importantes, porque os EAU ocupam ou agrupam uma série de países com alguma importância geoestratégica na sua área de influência, o que significa que, por efeito de demonstração, estamos confiantes que venham daqui a resultar novas encomendas.
Por outro lado, acredito que para as forças armadas portuguesas será bastante mais difícil não adjudicar esta nova versão à EID. Isto porque, pelo facto de termos conseguido na EID colocar este produto numa série de meios de uma força armada estrangeira, uma série de custos acabam por estar cobertos por esta venda, e, por isso, a solução nacional vai ser bastante mais competitiva.
Neste momento, em Portugal, as Forças Armadas já usam um outro sistema MMHS desenvolvido pela EID...
A versão do MMHS, a inicial, já tem cerca de dez anos e está agora a ser utilizada por determinados ramos das Forças Armadas. Hoje, no entanto, a questão coloca-se ao nível de todos os ramos e numa série de outras exigências ao nível de especificações que levaram a que o produto fosse totalmente revisto, tivesse uma nova release e incorporasse uma série de tecnologias que na altura não estavam disponíveis e que são hoje tecnologias de vanguarda e também os standards da NATO sobre estas questões. E é fundamental que estas tecnologias e produtos satisfaçam os standards da NATO.
É uma proposta revolucionária face ao que é habitual fazer-se em termos de sistemas para a Defesa Nacional.
Sabemos na TDSNews que a EID introduziu uma inovação na proposta feita às Forças Armadas Portuguesas…
A EID está disponível (e já fez a respectiva proposta) para que se possa considerar não a compra do sistema, mas uma utilização por parte de todos os potenciais utilizadores das Forças Armadas por uma renda anual muito competitiva.
Eu acho que esta é uma maneira diferente de se fazer negócio e para nós é importante… Obviamente, o facto de as Forças Armadas não adquirirem o produto, como normalmente sucede, não inibe que estas sejam proprietárias do sistema e que tenham, por isso, direito perpétuo à sua utilização. Logicamente, a perpetuidade deve ser entendida com alguma inteligência, porque daqui a dez anos não sabemos qual vai ser a tecnologia.
O que propomos e garantimos às Forças Armadas é a utilização do produto durante o seu ciclo de vida por uma renda anual, sujeita a alterações com a correcção da inflação, em condições a acordar. Eu acho que esta é uma proposta revolucionária face ao que é habitual fazer-se em termos de sistemas para a Defesa Nacional.
Quanto ao mercado internacional da EID quais têm sido os últimos desenvolvimentos?
No caso do MMHS, também já colocámos no mercado externo uma versão muito ligeira na Lituânia e, obviamente, contamos, através do efeito da venda aos Emiratos, conseguir novas vendas, até porque temos uma parceria, como já referi, com o accionista Rohde & Schwarz que tem algum “comando” sobre determinados mercados de Defesa e, por isso, poderá actuar como facilitador da venda deste produto.
Mas, neste momento, o grande objectivo é a colocação do MMHS nas Forças Armadas Portuguesas, até por que isto facilitará ainda bastante mais as vendas no exterior, como é regra nos mercados da Defesa.
O grande produto de “combate” da EID no mercado internacional é os chamados ICCS – Sistemas Integrados de Controlo de Comunicações
Que outros produtos compõem a linha avançada da EID no mercado mundial?
Neste momento, o grande produto de “combate” da EID no mercado internacional é os chamados ICCS – Sistemas Integrados de Controlo de Comunicações. São sistemas que gerem todas as comunicações dos navios e que neste momento estão colocados em 56 navios a nível internacional, incluindo, obviamente, os navios portugueses a partir das fragatas da classe Vasco da Gama. Entre os nossos clientes está Espanha, país que tem agora em construção o chamado “Navio de Projecção Estratégica”, semelhante ao nosso Navio Polivalente Logistíco, para o qual a EID está a fornecer o sistema ICCS. Desde há muitos anos que a EID fornece os sistemas de comunicação para todas as novas construções navais e militares espanholas.
Na Holanda, já fornecemos o novo LPD “Johan de Witt”, uma versão mais desenvolvida do HNLMS Rotterdan, aliás, muito semelhante ao que a Marinha Portuguesa quer comprar. Também na Holanda existe uma série de navios equipados com o nosso sistema.
Coloco ênfase no facto de em relação ao “Johan de Witt” nem sequer ter havido concurso público internacional, dado que o nosso produto satisfaz plenamente as necessidades da marinha holandesa e, por isso, houve apenas uma negociação directa com a EID.
Já conseguimos também entrar no mercado do Reino Unido, um mercado extremamente importante e difícil e depois posso inumerar da Rússia ao Brasil como compradores deste que é o produto de mais ampla colocação e projecção internacional da EID.
Quanto valem essas 56 colocações dos ICCS da EID em navios das marinhas internacionais?
Em termos de valor global estamos a falar de 75 a 80 milhões de euros de vendas só deste produto, o que o torna extremamente rentável, estando já na sexta versão. Lembro que a versão inicial foi para as fragatas Vasco da Gama e, em relação a isto, não nos esqueçamos que as Fragatas Vasco da Gama já estão a meio o seu ciclo de vida, já têm mais de 15 anos, ou seja, entretanto, a tecnologia evoluiu muito e a EID foi sempre capaz de apresentar novas releases do produto.
A sexta versão é a que a empresa está a entregar, por exemplo, a Espanha. Falamos, portanto, de um produto que continua em franco desenvolvimento.
Fazemos parte do grupo que a nível da NATO está a definir aquele que vai ser o novo emissor-receptor das forças armadas da Aliança Atlântica
Que outros produtos se destacam além fronteira?
Temos também o outro grande produto da EID que são os Emissores-Receptores, falo nomeadamente do GRC-525 que é o último produto da EID neste domínio e que também resulta de uma parceria com os alemães da Rohde & Schwarz.
O GRC-525 é neste momento state of the art a nível internacional. É um Emissor-Receptor multi-banda, num mesmo equipamento podemos ter a banda HF, UHF e VHF, portanto, num mesmo aparelho cruzamos três equipamentos diferentes para usar as três bandas, com todas as alterações a introduzir no rádio a serem feitas apenas por software sem necessidade de modificação do hardware.
Finalmente, em termos das grandes características, o GRC-525 dispõe daquilo a que chamamos frequency lopping, ou seja, salto de frequência, isto para tornar muito mais difícil a intercepção de comunicações. Posso dizer que este rádio tem 512 saltos de frequência por segundo e esta característica torna praticamente impossível, no actual estado da arte, que as suas comunicações possam ser interceptadas. Estas são as grandes características deste rádio, que o tornam o mais avançado do mercado global.
Em que fase está a comercialização deste produto?
Está no início do seu lançamento. Foi já feita uma primeira venda ao Exército e à Marinha, nomeadamente aos fuzileiros. Neste momento, aguardamos as novas encomendas por parte das Forças Armadas Portuguesas visto que existe apenas um contrato quadro assinado há já alguns anos que diz que as Forças Armadas Portuguesas vão adquirir 1200 equipamentos. Agora são necessários os contratos efectivos.
Está já feita a primeira entrega ao exército e aguardamos os próximos contratos para as próximas entregas…que espero que venham rapidamente, até porque estes rádios vão equipar as viaturas blindadas que irão começar a ser recebidas pelo exército.
Já vendemos este equipamento para Espanha, países nórdicos e Brasil. É um rádio state of the art com um mercado específico, pois, por ser do mais avançado que existe a nível mundial, vamos vendê-lo a países com forças armadas de vanguarda. É, logicamente, um equipamento caro, embora muito competitivo com os seus congéneres.
Neste momento, fazemos parte do grupo que a nível da NATO está a definir aquele que vai ser o novo emissor-receptor das forças armadas da Aliança Atlântica. Com o know-how que conseguimos desenvolver para o desenvolvimento deste equipamento vamos ter certamente uma participação importante no desenvolvimento desse novo rádio.
Queremos definir as áreas onde o nosso know-how pode ser posto à disposição da sociedade civil.
Sei que existe um novo sistema de intercomunicações que vai equipar as novas viaturas blindadas para as Forças Armadas Portuguesas. O que nos pode adiantar sobre isto?
Com a compra das viaturas blindadas para as Forças Portuguesas, a EID desenvolveu um novo sistema de intercomunicadores para carros de combate.
Isto surge na sequência de um produto que já existia, pois a EID tinha um sistema de intercomunicação dos carros de combate, mas era um produto analógico e que não tirava partido do emissor receptor, dado que este não existia na altura.
Este novo sistema é digital e tira partido das capacidades de ligação ao GRC-525. Em primeiro lugar, é um produto que consegue colocar toda a tripulação de uma viatura blindada em comunicação, o que não é fácil dado o ruído; segundo, consegue colocar em comunicação todas as viaturas pertencentes a uma determinada unidade; e, em terceiro, permite colocar qualquer indivíduo em contacto com toda a força.
Este sistema vai ser colocado nas nossas viaturas blindadas e por força das contra-partidas estamos neste momento a negociar a sua colocação e venda nestas viaturas, mas para outros países.
Qual vai ser para os próximos anos a estratégia da EID?
Na EID, actualmente, o grande volume de negócios provém de mercados militares. Estamos a fazer um esforço interno muitíssimo elevado no sentido de repensar a empresa tendo em vista a definição de novos produtos para os mercados que já temos, mas também novos produtos para o mercado civil, numa filosofia "dual-use".
Pensamos na EID que o mercado civil, dadas as oscilações que os mercados militares têm por vezes e em virtude dos orçamentos disponíveis, é fundamental para podermos atingir uma continuidade de produção e, sobretudo, é uma excelente oportunidade. Por isso, estamos a fazer um esforça muito grande para repensar a empresa, recorrendo, em primeiro lugar, à prata da casa, através da promoção de um diálogo interno. Queremos definir as áreas onde o nosso know-how pode ser posto à disposição da sociedade civil.
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